domingo, 2 de abril de 2017

Piano Para Pequena Clara – Dia 209


Sábado, 1 de abril de 2017

Faz mais de mês que não escrevo. Não que alguém fosse se importar. O piano volta em minha mente, mas há guitarras junto hoje. Alguém nos confins do asilo estava ouvindo de novo Type O Negative – reconheci pela voz de Peter Steele. Parecia ser uma música que falava de Deus, de Jesus, de uma mulher cristã. O piano triste e lindo, feito um corte no pulso, cinza feito um coração apaixonado – cinza é minha cor; cinza de paraíso. O outono começou e talvez o cinza tenha me trazido de volta.

Cinza feito um sonho bom.

Na noite passada, aqui na Casa, que é um lugar à parte dentro do asilo, e que fica no alto de uma espécie de colina, cercada por muros e alguns jardins – sei lá por quê, me lembrei que isso aqui também poderia ser um chiqueiro ou um lugar para deixar leprosos longe dos outros – tivemos uma espécie de comemoração. Ou ritual, não sei. Tivemos a permissão de dormir mais tarde, enquanto algumas pessoas ficaram de plantão nos corredores. Não me importo muito com permissões para dormir tarde, sou a Maria Noctívaga Por Natureza, mas aqui – diferente das Alas das Grades, como já devo ter escrito, parece que o tempo corre em outra batida. Tenho irmãos e irmãs-zumbis que parecem feitos de borracha. Eles não conseguem parar em pé, e babam por cima da roupa quando estão comendo. Eles gritam.

Eles são amarrados com faixas nas camas.

Mas, depois que jantamos ontem e fomos dormir, e a maioria de nós tomou seus remedinhos, a coisa se acalmou. Antes disso, houve brincadeiras, houve teatro, houve piadas, houve música. Houve alegria.

Depois houve solidão.

Consegui ir até a escada que vai da Casa até o pátio – senti saudades do chafariz que Cheshire tanto gosta, e que está em uma parte mais distante do asilo – e olhei para o céu. O frio está voltando aos poucos. Muros, piscina, grades outras. Flores. Jardim.

O caso é que enquanto as Meninas Que Vivem Naquela Parte Do Tempo Que Não Se Encaixa Neste Tempo adormeceram, não consegui dormir. Os guardiões do corredor ficaram cochichando, com uma luz distante acesa – que entrava pelas frestas, barulho e luz.

Então você surgiu no corredor, talvez tenha se levantado para ir no banheiro, porque me imaginei contando a história da pequena Clara, resumindo para mim mesma – Maria, a mãe, casada com Claudius, médico alcoólatra que voltou a beber depois de dez anos em abstinência, que batia em Maria, abusava da filha deles, Clara, tinha um caso com Lara, sua cunhada, e um filho não assumido com ela, Marcos. Também era pai de Jonas, filho de Maria. Havia duas crianças legítimas, Clara e Jonas.

E você me perguntou no corredor:

—  E se houver uma terceira criança?

Me arrepiei como nada havia feito até então. Não Marcos, mas uma terceira criança.

Filho ou filha de Claudius e Maria.

Então você sumiu no corredor e voltou a dormir.

Continuo escutando o piano e agora não sei mais o que escrever.

E se houver uma terceira criança?

Meu deus, como vim parar aqui?

Aqui na Casa também existem meninas com a fita preta. Vi os laços pendurados em seus punhos, a assinatura das Meninas Que Se Cortam, e como há desenhos espalhados por aqui – como atividades a serem feitas, tipo por criação ou um exercício para a escola, e só agora percebo isso – notei que há borboletas desenhadas. As meninas que desenham borboletas para não se cortarem ou não voarem pelos muros também estão por aqui.

Somos todas Marias.

Meninas Com Fendas se entendem.

Suspiro.

Algum dia sairei daqui?

E ir para onde, me pergunto.

Voltar para casa, talvez, mas o dia em que descobrir para qual casa voltar talvez seja o dia em que me abram a porta da frente.

Uma sentinela dos corredores bate em minha porta, diz que já é tarde.

Odeio quando me interrompem, porque interromper a escrita é interromper a vida. E ambas devem seguir.

Ouço a voz de Peter Steele e agora um solo de guitarra que já nem sei mais se existiu mesmo ou é criação minha. Sarah diria que se é criação minha, de alguma maneira existiu. Ah, psicanalistas e suas charadas.

Estou cansada. Mas a noite vai seguir. Um novo mês está começando. Anotei algumas frases que são como sinais para eu tentar desenvolver algum tipo de conexão nesta história que nem história é.

Ou talvez, como ouvi esses dias, na psicose a história nunca termina.

Então você se pergunta se não termino esta história porque não quero, já que – de uma forma que ainda não consigo entender – já sei como ela termina.

Talvez consiga. Só não consigo suportar.

Quando conseguir isso, se chegar esse dia, então sim: poderei voltar para casa.

00:19

quarta-feira, 1 de março de 2017

Piano Para Pequena Clara – Dia 208


Terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

23:00

O piano volta em meu quarto. Sou a única a ouvir, eu sei, mas ele volta a tocar. Tenho que escrever, porque estou morrendo e enquanto mantiver estas palavras horríveis que jamais serão lidas, gritando uma a uma para saírem de dentro de mim e conceder a elas algum tipo de céu – meu deus, que mágica é essa que acontece, e essas palavras vão se encadeando como ditadas por um ser dentro de mim? – de alguma forma, também fico viva mais um pouco. Mais um dia.

Estamos terminando um mês, começando outro.

Aqui na Casa houve uma espécie de carnaval, com algumas de minhas colegas se divertindo com máscaras e comendo saladas de frutas. Colegas-meninos também. Neste lugar onde o tempo parece não acontecer, porque sei que ele acontece de uma forma particular para nós, todas e todos. Esta é uma parte diferente do asilo, talvez do que eu estava acostumada. É um tipo de loucura diferente, mas é também de uma beleza diferente.

Sempre: linda feito um corte no pulso.

Existem garotas da fita preta aqui também, mas elas estão mais camufladas. Conheço minhas iguais, Meninas Com Fendas se encontram. E vi um ou outro braço esquerdo com a fita preta de sobrevivente. Sobreviventes aqui na Casa também. Que dançaram felizes em uma comemoração de carnaval, e foi como anjos dançando em algum tipo de campo.

Sim, anjos querendo voltar para casa.

As meninas que voam pelos muros, que se cortaram – e de novo olho para minhas cicatrizes e queimaduras – são anjos. Querendo voltar para casa.

Como eu, a Maria que escreve e agora olha por uma outra janela, mais alta do que eu estava acostumada quando escrevia.

Mais perto do céu.

Mas não vou pular.

Hoje não.

De novo, lembro daquelas reuniões que Claudius, Doutor Abusador Que Espero Que Esteja Queimando No Inferno, costumava ir, antes de voltar a beber depois de dez anos em abstinência quando estava com a Titia Gostosinha Putinha Cunhadinha Lara.

Sei lá por quê, antes de começar a escrever, e antes do piano soar de novo em minha mente, em minha memória, em meu coração, em meu sonho, meu deus, de onde estou tirando esta história? me lembrei de algo que Sarah disse em uma de suas últimas aulas, mais um desses pedaços de pão que estes psicanalistas do inferno vão atirando no chão para que nós, através da dor e da raiva, tracemos o caminho de volta.
Maria que quer voltar para casa, pensei agora.

Juro que não tinha pensado na fábula. Nunca me programo para escrever. E então algo acontece. Desde a primeira linha, a primeira frase. Apenas vou escrevendo enquanto escuto o piano.

Sim, parecido com o piano que Maria, a mãe, tocava para sua pequena Clara, sua filha, seu universo, seu tudo, sua vida.

Sweet Lady Clara.

Tudo volta para ela, não é mesmo?

Talvez tudo seja sobre ela.

A pequena Clara.

Que se perdeu e que tento encontrar dentro de mim.

Por que dentro de mim? me pergunto.

Vou deixar para Sarah interpretar isso que ela chama de atos-falhos, esses psicanalistas sempre acham que nada é o que parece ser.

Bom, talvez não seja mesmo.

Mas dei toda essa volta para dizer que me lembrei de uma coisa que Sarah falou em uma de suas aulas:

— Psicóticos têm problemas com aniversário, porque a falha está na origem.

Confesso que não entendi muito bem, mas anotei em algum lugar para perguntar. A origem, ela quer dizer infância, suponho. Problemas com aniversário.

Você, para quem nunca mais me dirigi, talvez tenha se perguntado: quando é meu aniversário?

Existem aniversários nesta história. Houve alguns aniversários no asilo. E escrevi sobre eles. Mas... quando é o meu?

Eu não lembro, como não lembro sequer do meu nome inteiro, como ainda não lembro como vim parar aqui.

E se tudo isso for um sonho? me pergunto de novo.

Problemas com aniversário porque a falha está na origem.

Sarah sabe como termina a história da pequena Clara. Ela sabe quando é meu aniversário. Mas ela não vai me contar, maldita.

Por que não estou pronta para saber?

Porque sei e não sei que sei, e não estou pronta para saber que sei, já que um trauma é uma descarga em nosso psiquismo grande demais para darmos conta e por isso o afeto fica recalcado em algum lugar do nosso inconsciente, e por isso esquecemos, é isso?

Ela não vai me dizer. Odeio ela por isso, mas de uma forma que talvez não consiga ver, também – no fundo, lá no fundo do fundo de mim mesma – também amo ela por me proteger.

Feito uma mãe.

Meus dedos param. Tenho vontade de chorar. O abismo se aproxima de novo. Um novo mês está para começar. Águas de março, dizem eles. Que da próxima vez que o céu chorar, que ele traga renovação, peço eu. Que ele traga um pouco de paz, ó, deus das Meninas Com Fendas.

Não sei se trará, mas um fiozinho de esperança apareceu. Pode ser apenas um pingo de chuva. Pode ser apenas mais uma ilusão. Mais um corte no pulso. Mais uma borboleta desenhada justamente para que não haja corte algum e que – suspiro – ninguém voe pelos muros neste março que está começando agora. Pode ser tudo isso ou nada disso.

Tudo que sei é que um anjo lindo acaba de me abanar.

E se esse é o mais perto que vamos chegar do céu hoje, então que seja.

23:38

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Piano Para Pequena Clara – Dia 207


Segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

23:06

Suspiro. Estou angustiada. Está para começar a chover. O vento frio vem fazer meus demônios dançarem frente ao absurdo da vida, como li em um livro hoje.

É o suficiente para começar a escrever.

Silêncio aqui no asilo. Primeiros escritos depois que fui transferida para A Casa, o lugar onde o tempo passa mais devagar, onde a loucura caminha mais lenta do que na Ala das Grades – mas loucura continua loucura. E ela é sempre linda. Feito um corte no pulso. Notei que aqui também há algumas garotas da fita preta, e notei algumas borboletas desenhadas nas folhas que ficam sobre as mesas, tipo um ateliê para Garotas Com Fendas.

Entendo minhas iguais.

E amo elas.

Eu que nunca pertenci a lugar nenhum encontrei os anjos a minha espera.

Anjos querendo voltar para casa. Lutando para não voarem pelos muros, para encontrarem um sentido na dor que deve passar. Um dia de cada vez. Hoje não vamos nos cortar, hoje vamos desenhar uma borboleta e cuidar dela, como se disso dependesse nossa vida – até porque depende mesmo.

Essa maldita história da qual sempre fujo e que me cobra com angústia cada vez que me afasto dela por muito tempo. Deve fazer quase um mês que não escrevo, e tenho certeza de que ninguém se importa, porque ninguém jamais vai ler esta merda. Mas soube de uma artista japonesa que está internada em um lugar parecido com este há muitos anos, e que precisa continuar pintando para lidar com seus pensamentos suicidas. Ela é uma artista consagrada, aliás, mas se parar de pintar, morre.

Sim, por isso escrevo.

Esses dias ouvi outra das preleções de Sarah, falando de pulsões e a angústia que não conseguimos deixar passar. Que passa e volta. Ela falou da depressão pós-parto e de, ah, lembrei: psicose. E de uma mãe nos Estados Unidos que depois de ter o quinto filho, matou os outros todos.

Naquele momento pensei se Maria, a mãe, pode ter feito isso com Clara e Jonas.

Meu deus, será que já tive alguém?

E esse alguém morreu?

De novo o abismo se aproxima.

Ouço a voz de Peter Steele de novo. Ele também, um garoto com fendas, outro anjo querendo voltar para o lar. Stay Negative, repito. Ouço o teclado junto, que é como o soar das trombetas anunciando o fim. E é lindo. Queria tanto encontrar minha família, meus anjos perdidos querendo voltar para casa, minhas Meninas e Meninos Com Fendas, e quero pegar nas mãos de todos e caminhar rumo ao paraíso, por esse caminho de giletes, que sangram e choram, mas acreditam que um dia a dor vai passar.

E ela vai fazer um sentido.

Não sei como termina a história da pequena Clara, e talvez ela não termine. Talvez as giletes encontrem uma borboleta e uma fita preta com poesia, e um sentido. Não desistam, meninas lindas. Estamos vivas. Não desistam, meninos lindos, não hoje. Estamos vivos.

Sei que vamos encontrar nossa família.

E a dor vai fazer um sentido.

23:39

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Piano Para Pequena Clara – Dia 206


Quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

16:26

Faz tempo que não escrevo. Não que alguém se importe, porque sei que ninguém jamais vai ler esta merda. E jurei mais uma vez que ia desistir para sempre de contar esta história sobre o nada, essa ladainha que comecei a escrever nem sei por quê. Mas lá fora troveja. Começou a chover. E estavam ouvindo uma música chamada “Nettie”. Perguntei o que era aquilo, me disseram que hoje seria aniversário de Peter Steele, que estaria completando 55 anos hoje.

Ouvi e ouvi de novo.

Lá fora chove. Chove, Maria escreve. Esse calor que odeio talvez diminua.

A chuva aumenta, talvez venha uma tempestade por aí.

Será que existe uma relação porque estou escrevendo agora?

Não sei, mas agora que comecei, vou seguir com esta bosta e ver até onde vamos. Sei que me disseram que o Peter se matou, ou teve uma overdose – que é mais ou menos a mesma coisa – e escutando isso aqui, pouco antes de começar a chover, vi em minha mente um filme cinza, com pessoas muito brancas, talvez vampiros, veias saltadas, um carnaval para usuários de drogas injetáveis, e o branco contrasta bem com o sangue vermelho, porque é vermelho de vida que se recusa a deixar de existir.

Que encontra um sentido na dor.

Somos todas Garotas Com Fendas.

Saí das Alas Gradeadas faz algum tempo. Sarah deve ter planos, porque agora estou em um lugar chamado A Casa, também dentro deste asilo que me parece do tamanho da Via Láctea.

A menos que eu tenha morrido e isto aqui seja uma espécie de umbral, o que também não descarto.

Vi de passagem a Garota Bossy.

Como eu disse, pessoas entram e saem desta história, e ainda não entendo por quê. Aliás, não entendo merda nenhuma. Mas sei que se eu ficar muito tempo sem escrever esta história para dentro e fora de mim, algo acontece.

Dizem que esse Peter era alguém bem triste.

Ele era um Menino Com Fendas.

Sim, eles existem aos montes, espalhados por aí.

Não tenho nada para escrever, como jamais tive, mas por uma força que ainda não entendo, uma pulsão que grita para sangrar e por isso escrevo, continuo.

Talvez lá pela última frase algo aconteça.

Não sei se verei a Bossy de novo, apenas escrevo as coisas em tempo real.

Papai que quis ficar com a filhinha.

Que merda. Eu fujo, mas tudo deságua nela: sweet Lady Clara.

A infância que se perdeu, a adolescência que não sei se houve. Talvez todos morram no fim, um incêndio consuma tudo. Mas ainda não sei como se chega lá. Ou sei, mas não sei que sei. Ou dói demais saber que eu possa saber, e por isso me enrolo para terminar esta merda de história.

E contar como termina a história da pequena Clara.

Ou de Maria, a mãe, cujo sorriso de dor rima com esta música. Com este asilo. Com esta chuva, que parece diminuir agora, enquanto os trovões seguem. Lembro que logo que conheci a Bossy tinha sonhado com Maria, a mãe, apontando um revólver para Claudius, Doutor Abusador, e houve um estouro, muito, muito alto.

Não sei se pegou em Claudius, não sei se pegou em... Jonas.

Em minha mente de péssima criadora, talvez tenha pensado que Jonas tenha algum problema mental. Isso tem alguma coisa a ver com o tiro? Ele era mais devagar, vivendo em seu mundo. Como algumas das pessoas que habitam A Casa. Presas em seu sonho.

Como eu, pensei agora.

Por que lembrei do sonho agora?

Por que a chuva parece diminuir?

Um incêndio e uma chuva.

Meu deus, é assim que termina?

Ainda ouço a música, não o piano, não hoje. Mas escuto e ela se comunica comigo. A trilha do asilo e um céu cinza, lindo como uma cachoeira de sangue escorrendo de um braço muito branco. O sangue que insiste em viver.

O abismo se aproxima. A chuva diminui.

Presos dentro do sonho. Sei como termina esta história, mas dói demais saber que sei. Sarah e esses psicanalistas do inferno. Mas no dia de hoje cheguei o mais perto que consegui, como acho que sempre chego.

Encontrar um sentido na dor.

Stay negative, ele dizia. Sorrimos e abençoamos. Estamos entre nossos iguais.

Feliz aniversário, Peter.

16:58

sábado, 22 de outubro de 2016

Piano Para Pequena Clara – Dia 205



Sábado, 22 de outubro de 2016

00:11

Uma nova madrugada começa. Minha cabeça parece comprimida por duas mãos invisíveis. Preciso escrever. Até que a dor vá embora. Estava lendo um texto que Sarah passou sobre o funcionamento psicótico, sobre ser tudo ou nada, amo ou odeio. Para sempre ou nunca mais, diferente dos neuróticos que conseguem ver coisas boas dentro do ruim e vice-versa. Funcionamento psicótico. Existem marcas.

Existe um buraco naquilo que escrevo.

Na história que tento contar, que nem história é, apenas um delírio vindo não sei de onde.

De novo, meus dedos criam vida, e não consigo mais parar de escrever. Não tenho nada para contar, mas existe algo jorrando neste momento. Sangrando, cortando, chorando.

O piano também sangra, corta, chora.

Mas não consigo mais me cortar.

Meu deus, de onde tirei isso?

A dor segue. O piano dentro de mim, as teclas que martelam e martelam, feito vozes de comando.

Feito carinho de mãe.

Começo a chorar. Mas ainda não consigo parar de escrever.

O piano é como um colo materno. É como estar segura no útero, de onde nunca gostaria de ter saído.

Suspiro. Meu deus, Sarah e suas loucuras. Esses psicanalistas estão no topo da cadeia alimentar da demência.

Funcionamento psicótico.

E se tudo isso for um sonho, pensei de novo.

Como termina a história da pequena Clara? Brownie disse que quer saber como termina a história dela. Tudo deve ter uma finitude, não?

Foda-se, é minha história. O piano ainda está tocando. E estamos vivas. Eu e todas as outras Marias que habitam este asilo. Somos todas Marias, pensei hoje. E ainda preciso conduzir minhas Meninas Com Fendas por este vale de sombras, mesmo que sombras, assim como o inverno, sejam lindos como um corte no pulso. Sim, tenho a personalidade melancólica. Gente feliz o tempo inteiro me irrita. Aliás, acho que gente feliz o tempo inteiro é de uma pobreza ímpar. Descemos mais fundo, meninas. Somos de outra classe. Somos superiores. Somos as Meninas Com Fendas abençoadas e amaldiçoadas de viver nesta terra, com cegos que acham que veem.

Ainda dói, mas o piano também toca. Está escuro lá fora. Silêncio. Só não há silêncio dentro de mim, a Maria que ouve coisas, que ouve pianos dentro de si.

Como a pequena Clara ouvindo Maria, a mãe, tocando e sorrindo e chorando e cortando a si mesma, enquanto Dr. Claudius, maldito seja, batia nela, comia a cunhadinha, Titia Putinha Lara, talvez Maria também tocasse para o pequeno Jonas, filho não assumido de Claudius. Dr. Abusador, Dr. Brincando De Médico Com A Filhinha. Doutor Espero Que Esteja Queimando No Inferno.

Talvez, sim: esta história termine com um incêndio.

Talvez todos morram, porque ainda estou pesada enquanto escrevo. Minha cabeça ainda dói, embora, confesso, ela esteja um pouco mais leve. Ainda bem que ninguém jamais vai ler esta merda, Maria, péssima escritora. Ainda não tenho nada para escrever. Escrevo para não me cortar. Escrevo para não tocar fogo em tudo.

O abismo se aproxima.

Tenho certeza de que Sarah sabe como termina esta história.

Neuróticos acham, psicóticos têm certeza, lembro dela ter dito uma vez.

E se tudo isso for um sonho, pensei de novo.

Existe um buraco aqui. Um buraco grande como o tempo. Um buraco dentro de mim. Uma falha naquilo que tento contar, no cenário que não consegue ser montado.

Cris foi transferida para outra ala. Nos falamos semana passada. Ela não tentou mais voar pelos muros. Fiquei feliz. Maria que ainda é capaz de amar. De amar de novo, quando for a hora. Neste momento, nesta madrugada onde sou a Rainha Todo-poderosa do Castelo no Reino das Meninas Com Fendas, apenas escrevo. De alguma forma, escrever me faz sentir viva. Me faz cicatrizar. Ou sangrar de novo, mas colocar este sangue que deve ser trocado. Que deve inundar feito um rio, arrebentar a represa. Chorar oceanos, encharcar cidades.

Salvar pessoas.

O piano ainda toca dentro de mim. A dor diminui. Sarah falou nas marcas que são como copos de vidro, que se quebram dentro de nós. Alguns se quebram em pedaços grandes, podem ser montados de novo. Outros quebram feito cristal, e eles jamais voltam a ser os mesmos. As marquinhas sempre ficam.

Que tipo de copo sou eu?

Que tipo de copo fui eu?

Poderei voltar à vida feito um copo Cica ou estou condenada a vagar feito cristais levados pelo vento?

Talvez eles também sejam levados para além destes muros.

Sim, talvez meus cristais sejam levados para além dos muros deste asilo. E sejam confortados pelo piano que me acalenta, por este amor que ainda acredito que exista, e que existe por todas essas grades, estas celas, estes quartos. Existe dentro de todas nós, Meninas Com Fendas. Talvez seja este o buraco que tento preencher. Aquilo que falta. Cristais que foram estilhaçados, feito uma infância que se perdeu.

Me arrepio.

Chego mais perto do abismo.

Penso em pular.

Mas hoje ainda não é tempo.

Hoje não, como imagino que Claudius tenha ouvido naquelas reuniões antes de voltar a beber depois de dez anos em abstinência, quando estava se divertindo com um champanhe pelos seios de Lara, na madrugada de réveillon, que deveria ter cuidado de Maria, a mãe, sua esposa internada em um hospital.

Parecido com este lugar, não posso deixar de registrar que pensei.

Suspiro de novo. O piano ainda toca. Triste, lindo, soberano, persistente.

Triste, lindo, soberano, persistente.

Maria não desistiu da pequena Clara.

E só por isso hoje não vou pular pelos muros.

Cristais sendo levados para fora deste asilo. Embalados por um carinho de mãe.

E só por isso acredito que encontraremos nossa paz, nossa luz. A saída daqui. A volta para casa, feito anjos que anseiam por retornarem ao lar. Meus dedos cansam, mas ainda não escrevi o que queria escrever. Uma vez Sarah disse que a psicose é fruto de um desejo não satisfeito.

O que será que eu quis que não tive?

O piano ainda toca, mas há um silêncio dentro de mim. O que foi que quis que não tive?

Ou tive e não sei que tive?

Talvez quando descobrir isso finalmente saiba como termina esta história.

00:54