domingo, 15 de junho de 2014

Piano Para Pequena Clara – Dia 107


14 de junho de 2014

E então que estou com raiva. Essa coisa tão forte e sem nome que me corrói, e então preciso voltar a escrever. Nem sei se escrever esta merda de história, mas escrever. De alguma forma, escrever é sangrar. Escrever é gritar.

Escrever é chorar.

Não faço nada disso, e faço tudo isso.

Às vezes parece que só o piano me entende.

O piano grita. O piano sangra.

E sim, o piano chora.

Estou envolvida com esta história e ela se afeiçoou a mim como uma maldita solitária. Ela se alimenta de mim e sempre que tento tirar tudo isso – e entenda tudo isso como raiva/dor/amor/qualquer coisa que nem sei o nome – de mim, ela parece me ordenar: volte a escrever.

Volte para a pequena Clara.

Volte para Maria, a mãe.

Volte para o lugar onde as coisas fazem sentido.

Um dia elas já fizeram, mas não lembro desse dia. Me pergunto se algum dia vou lembrar. E por isso escrevo. Escrevo para saber. Para escorregar, feito criança na pracinha, e neste momento lembro de Clara brincando. Escorregar para longe da dor.

Penso em Sarah que me colocou nesta confusão, neste entrevero sentimental.

Malditos psicanalistas.

Cris está novamente triste. Às vezes me irrito com ela. Supõe-se que alguém nesta merda de lugar, uma única pessoa pelo menos, deveria me dar uma dose de conforto. Mas talvez isso seja pedir demais. Penso em Sarah, mas ela deve estar dormindo. Não anotei a hora em que comecei a escrever. Agora faltam quinze minutos para a meia-noite. Hoje o dia foi uma bosta. E sempre que passo dias sem escrever, repito: adoeço. Esta história me persegue. Clara me persegue. Lara, Claudius, Jonas, Marcos. Eu poderia colocar eles todos em um incêndio e terminar esta história. Todos morrem. Fim.

Mas por mais que intua isso de tempos em tempos, ainda não sei se é assim que termina a história de Clara. Talvez seja assim, e eu não queira que seja assim, o que também faz algum sentido.

Algum sentido.

Para o sentido que não existia. Para o sentido que não lembro um dia ter havido.

Maria Filosófica.

Maria Que Teve Um Dia Ruim.

Maria Que Tem Dias Ruins.

Mas Maria Que Não Desiste.

Não desista de mim, pequena Clara.

Posso desistir de mim.

Mas não vou desistir de você.

23:43

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Grata surpresa de ver por aqui. Bjos, bjos!

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  2. "Mas... Maria, como chegamos aqui mesmo? Maria, onde estás? Maria, que lugar é este? Maria, a vida segue sem plano e termina sem prévio aviso, assim ó: fui, fomos... Agora me pergunto: quando não escreves, não existo também? O que será de mim sem ti, Maria. Uma muleta pra ti? Quebra-me, despedaça-me, decifra-me ao devorar-me e acaba com essa minha crise de clichês." Teu Leitor Mais Querido.

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    1. Não sei se quando não escrevo você não existe, mas senti ontem que quando não escrevo EU não existo. Estamos presos nessa. E mesmo assim não escrevi. Mas vou escrever. Precisamos estar vivos - e de alguma forma, sair daqui.

      Love,

      Mary

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