quinta-feira, 30 de abril de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 168



Quinta-feira, 30 de abril de 2015

21:55

Hoje é aniversário de Lady Brownie. Ela disse que ia fazer uma festinha, disse que queria que eu fosse, e se eu não fosse, que mandasse um presente para ela, talvez um presente literário, quem sabe uma carta deixada embaixo da porta de seu quarto, enquanto ela está lá com minhas companheiras deste lugar sem nome nem tempo. Brownie estava conversando no corredor hoje com uma garota morena, magrinha e pequena – não tão pequena quanto Acácia, mas pequena –, uma que está sempre lendo. Ela é a Garota Que Sabe Das Coisas. Então lembrei de Jimmy Neutron, e portanto vou chamar ela de a Garota Neutron. Pois que ouvi ela dizer para Brownie, que disse que eu tinha ficado marcada por seus brownies, e ela disse que não tinha sido só eu. Que os brownies de Brownie chaparam ela, e as duas caíram na risada no corredor. A Garota Neutron e a Garota Que Anda Em Slow Motion.

Quase posso sentir o cheiro de infância daqui, Brownie. A infância que se perdeu e talvez – Sarah vai adorar isso – seja por isso que eu sempre batize os nomes de minhas colegas com nomes de infância. Na verdade, não tinha pensado nisso até batizar a Garota Neutron, mas acabo de me lembrar que também batizei a Garota Cheshire, a Garota Que É Mais Sorriso Do Que Garota.

De onde vem tudo isso?

Assisti uma dessas aulas que Sarah dá sobre aquele velho tarado e disse que a gente não lembra dessa história que querer transar com o pai, e que quando ele saiu da Europa, disse “vamos espalhar a peste na América”.

Transar com o papai.

Que nojento.

Ela que se foda.

E ele também.

O que será que a pequena Clara pensaria dessa teoria idiota?

Ela não pensaria. Se ela chegou a crescer, se ela tivesse crescido, se Maria, a mãe, estiver ou estivesse viva, espero que elas mandassem para a fogueira todo esse pessoal doente que pensa isso.

Mas talvez a Garota Neutron saiba mais sobre isso, e me diga que não é bem assim. Talvez Brownie me dissesse que não é bem assim também. Que um cheiro de infância é tudo que a gente precisa. Uma memória boa, um dia bom, uma vida boa.

Li por aí sobre ideal de ego, mas acho que isso é para o futuro, não para o passado.

Meu deus, Sarah vai acabar me enlouquecendo. Mas dói, de alguma forma, pensar que tudo isso faz parte de um processo maior. Quer dizer, de repente tem alguém jogando com tudo isso, tipo, Maria Marionete.

Então ouço o piano que, pensei agora, também tem cheiro de infância. Nunca tinha pensado nisso. Pelo menos que eu lembre, porque não lembro de muita coisa, não. O cheiro de Maria, mamãe querida, tocando para sua princesa, a pequena Lady Clara. Talvez houvesse dor em suas melodias. Mas talvez também houvesse esperança. Encontrar um sentido na dor que houve, na dor que deve partir, feito trem com hora marcada.

Esse negócio de livre associação funciona, tenho que admitir. Nunca, jamais, penso em uma única palavra do que vou escrever aqui. E então, algo que não sei explicar acontece. Acontece, e sem saber para onde estou indo, nem de onde estou vindo, vou escrevendo.

Talvez escreva tudo isso para conseguir dizer o que não consegui, desde a primeira frase.

O abismo se aproxima de novo.

Não posso fugir dele. Tento, tento a cada noite, mas ele me chama. Talvez como a voz dentro da cabeça de um esquizofrênico, ou pode ser a minha mesma, eu que ainda não sei o que tenho, Maria Sem Diagnóstico, que pode dizer “se mate, pule do penhasco, acenda o fogão” – de novo o fogão – pode me dizer também “viva, escreva para viver, escreva para lembrar”. Confie no piano.

Confie que vamos sair do outro lado deste túnel.

Na hora certa.

Penso neste momento em como está sendo a festa de Brownie, elas todas perdidas em alguma sala, ou salão, penso eu, deste lugar. Brownie deve estar rindo. Não sei quem mais foi. Saberei na próxima sessão de corredor. Talvez Neutron me conte.

Talvez, porque sonhei isso, eu desista de jogar fogo e acabar com esta história de merda, ou desista de apagar tudo o que escrevi aqui, se eu tiver certeza – mas certeza mesmo – que ninguém vai saber que fui eu que escrevi, e então quem sabe este texto também espalhe sua peste na América.

Seria lindo, não?

É claro que isso não vai acontecer, a menos que tudo fuja do meu controle. Maria Que Não Pode Perder O Controle.

Mas encontrar um sentido na dor que deve partir parece um bom motivo para eu continuar escrevendo, esta historiazinha que ninguém vai ler, essas palavras horríveis que só alguém interna daqui escreveria. Eu disse interna? Não sei. Sairei um dia? Não sei. Sobrou algum lugar para ir? Acho que não, mas ainda não tenho certeza.

Mas sei que o piano, de alguma forma, em minha mente enferma, ordena: continue escrevendo. Encontre a pequena Clara.

Me arrepio inteira quando escrevo isso.

Acho que estou mais perto da verdade do que consigo suportar.

Quero parar de escrever, mas não consigo. Quero que a locomotiva pare, mas ela não tem como parar, rio que é.

Um cheiro de infância, se foi tudo o que restou, tudo o que deve ficar, por mim, tudo bem. Basta.

E então o trem diminui e talvez eu possa dormir. Quem sabe até em paz.

Feliz aniversário, Lady Brownie.

22:38

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 167



Quarta-feira, 15 de abril de 2015

22:46

Cheshire, que está de aniversário amanhã, a garota que é toda ela sorriso, o sorriso da loucura, o sorriso que às vezes me faz acreditar que não há nada de tão errado em estarmos todas aqui, me levou ontem para ver os corredores. Os corredores longos e suas paredes deste lugar, as janelas, as cores. Nunca tinha reparado muito neles, talvez por já ter me acostumado.

A gente se acostuma com a loucura até que ela se torne normal e louco se torna o que está de fora disso tudo.

Já tinha me programado para escrever esta história que nunca dá em nada quando Cheshire me levou para ver os corredores. Pode ter sido coincidência.

Enquanto escrevo, chove.

Chove, escrevo. A história que talvez termine em um dia de chuva. Talvez uma noite, não sei. Talvez ela recomece em um dia de chuva. Escrevo, tateio a narrativa, tento encontrar uma luz na dor que me fez esquecer. Dor tão doída que tive de apagar, e aqui estamos nós.

Teoria do trauma. Sarah e suas paranoias.

O caso é que mostrei os corredores para Lady Ballet também. Ela me disse que nunca tinha reparado neles, que imaginava esses corredores pintados de rosa, e pensei na hora que ela já deve ter sido rosa. Talvez seja até hoje, ou tente ser. Quando não coloca as coisas para fora, Lady Ballet é rosa.

Cheshire é azul.

Acácia e Blossom, não sei.

Estou cansada. Corro tanto e acabo morrendo no mesmo penhasco: Maria, a mãe e sua pequena Clara. A criança mais linda do mundo, filha da mãe mais linda do mundo. Maria.

Maria, como eu.

Suspiro.

Tem muita coisa acontecendo, dentro e fora de mim, e não consigo falar disso, puta merda. Mas Sarah disse para eu continuar escrevendo. Nem preciso – e não vou – mostrar para ninguém. Assim posso escrever o que quiser.

Ninguém vai ler esta merda.

Cheshire deve estar em algum arroubo de loucura enquanto escrevo, talvez comemorando seu aniversário no meio de gente igualmente doida. Lady Brownie também está de aniver por estes dias. Vou apenas escrevendo, sem pensar, tudo aquilo que me vem à mente, em tempo real. Escrever é pensar em voz alta, ou pensar em voz alta com palavras que me fazem parar o tempo. E talvez voltar e encontrar um sentido para a dor que me fez esquecer. A mesma que me faz continuar escrevendo.

A dor que cura.

A dor que me afasta daquele médico filho da puta, Sr. Todo-poderoso, Estuprador De Filha, Claudius. Quanto mais tento não pensar nele, esse personagem maldito que meu inconsciente fabricou se solta das florestas escuras de minha mente e vem para assombrar. A mim, a Maria, a mãe, a pequena Clara. Talvez Jonas e Marcos, de quem pouco falo.

- Por que nesta história não tem personagens homens, me perguntou Cris.

Fiquei pensando numa resposta.

Sarah certamente tem uma teoria psicanalítica sobre isso.

Tudo é papai e mamãe, não é mesmo?

Mas há Claudius. Claudius é homem, e foi homem quando deveria ter sido pai, maldito seja.

E então há Marcos e Jonas. Houve um ou outro homem espalhado nesta narrativa, da qual pouco recordo. Marcos e Jonas, lembro: irmãos de Clara.

Por que nunca falo sobre eles?

Jonas, filho de Maria e Claudius, é irmão de Clara.

Marcos, filho de Lara – titia vagabunda que fez o papai voltar a beber depois de dez anos em uma festa de réveillon – e de Claudius, que deveria ter cuidado de Maria no hospital e não estar em casa se divertindo com a cunhadinha. Mas Marcos talvez, pensei agora, tenha defendido sua meia-irmã Clara de Claudius. E talvez já tenha escrito isso aqui, não lembro.

De Jonas, sei pouco. Maria Péssima Escritora.

Mas Marcos defendeu Clara.

Ele enfrentou Claudius.

Talvez ele tenha mudado esta história, no fim das contas.

E esta história horrível, que sempre penso terminar em um dia de chuva e em morte de um, ou de todos, talvez possa ter encontrado uma pontinha de esperança, pouco antes do abismo.

Um pouco de esperança, pequena Clara.

E para mim, hoje basta.

23:11

domingo, 5 de abril de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 166



Domingo, 5 de abril de 2015

18:35

Cris me perguntou se eu não ia escrever hoje. Olhei pela janela. Depois de um dia cinza lindo, começou a chover. Sorri. Chove, Maria escreve. Nem tinha reparado, e talvez não tivesse sentido falta, mas faz dias que não escrevo. Não que alguém fosse se importar – ou alguma nova pauta para um talk-show com a maluca que escreve trancada no quarto, aquela que não lembra sequer seu segundo nome e para se lembrar deve inventar uma história a partir do nada, livre associação, suponho, e então vai nascendo esta história horrível, assim: a filhinha abusada pelo papai, que batia na mamãe, médico que brincava de médico com a cunhada, com quem teve um filhinho, não assumidinho, e voltou a beber depois de dez anos de abstinência em uma festa muito particular de réveillon – uma pauta assim talvez esperasse, como Sarah espera, que eu terminasse esta merda para ter algo para contar.

Posso estar enganada, mas acho que não tenho.

Ou tenho e finjo que não tenho?

Sarah e sua psicanálise está me enlouquecendo. Esses psicanalistas no fundo querem isso, nos enlouquecer.

Mas se estiverem certos?

Se Sarah estiver certa?

Ela deve saber como termina a história de Clara, mas não vai me contar, vadia.

Sou a Maria que corre atrás do próprio rabo em círculos, que corre atrás de uma cenoura inalcançável. E odeio Sarah porque ela sabe da verdade, sabe como vim parar aqui – mas não vai me contar.

- Você não está preparada para ouvir, pareço escutar ela dizendo.

De qualquer forma, hoje ganhamos chocolates de Páscoa. Cris comeu o dela e já pegou o meu. Cris come e come, Lady Ballet come, depois não come, e bota pra fora. Somos todas malucas, cada qual com sua doença de estimação. Bem, imagino que o fato de estarmos todas aqui deve indicar alguma coisa. Confinadas nestes longos corredores, vagando pelo pátio, em volta do chafariz, naquele caminhozinho lá de trás, a pequena floresta. Às vezes, quando tenho permissão, vou lá para pensar. Talvez muito do que pense e não lembre fique no inconsciente – e talvez esta maldita história da pequena Clara seja isso mesmo. Ficou de alguma forma no meu inconsciente e escrevo para trazer à luz da consciência.

Meu deus, será isso mesmo?

Psicanalistas do inferno.

Tenho vontade de voltar e apagar o que acabo de escrever – mas não consigo. Meus dedos não param, meu cérebro não para.

O abismo se aproxima uma vez mais.

Não lembro se no ano passado, quando talvez tenha escrito por esta mesma data, tentei criar uma Páscoa para Clara. Mas posso criar agora: Clara acorda de manhã, corre pela casa procurando o ninho. Aposta com Jonas quem vai achar primeiro. Marcos também está lá e corre junto. Um ninho está no banheiro, outro está na área de serviço. O de Marcos, não sei. Não sei quem acha primeiro, e não importa. Claudius ainda não tinha voltado a beber. Lara não estava junto – ou estava, mas naquela manhã de domingo foi a titia-maninha comportada. E Maria, a mãe mais linda do mundo estava feliz, de ver seus lindinhos felizes também, comendo chocolates, explorando o ninho de palha forrado com algodão. Barras de chocolate, ovinhos, talvez balas de goma. Por mim a história podia terminar aí. Sei que ela não terminou ali e esse foi um recorte bom de algo maior que foi ruim, mas se isso for reescrever o passado, mesmo esse passado que não lembro, até porque talvez tudo dentro desta história, inclusive eu mesma, seja simbólico, tudo bem. Por mim a história poderia terminar aí. Hoje, agora.

Feliz Páscoa, pequena princesa.

19:10

segunda-feira, 23 de março de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 165



Segunda-feira, 23 de março de 2015

21:08

Sinto cheiro de outono. O friozinho volta aos poucos. Desde sexta passada, espero. Sarah me convidou para participar destes grupos de estudos que ela faz. Tipo assim, para eu ter mais ideias para minha história. Do grupo de vítimas de incesto, ela não falou mais. Disse que um dia talvez conhecesse, da mesma forma: para ter ideias para a história de Clara. Algum tempo atrás, disse que não teria o que fazer em um grupo desses e ela não insistiu. Apenas fez o convite. Talvez, um dia. Esse é mais um dos grupos que ocorrem aqui, e talvez esse para o qual ela me convidou seja parecido.

Talvez ela queira me convencer daqueles absurdos do velho tarado.

Talvez seja algo mais.

Esses psicanalistas sempre vêm com algo mais.

Mas nunca contam.

A gente tem que chegar lá, e acho que odeio eles um pouco por causa disso.

Não quero falar de abuso nenhum, nem lembro mais do que criei para a história de Clara. Talvez Maria, a mãe, tenha passado por isso com seu pai, e passado a desgraça adiante quando casou com aquele médico maldito, Dr. Claudius Que Quis Fazer Da Filha Sua Bonequinha. Bonequinha, talvez ele chamasse Clara assim, mas não se contentou em apenas olhar e tratar com carinho – e cuidado, pelo amor de deus – a bonequinha da família. Lara, a vagabunda, contribuiu para isso, quando ele voltou a beber depois de dez anos. Sei lá se contribuiu mesmo, talvez Claudius já tivesse traços. E talvez a bebida o tenha liberado para fazer o que ele lutava para não fazer. Não sei, apenas escrevo o que me vem a mente.

E em minha mente Claudius e Lara são dois filhos da puta.

Achei que nunca mais fosse escrever esta merda de história, e não ia mais falar do que aconteceu.

Aconteceu?

Mas era apenas uma história que criei para lembrar.

Meu deus, quanto mais escrevo, mais me enrolo, e mais chego perto daquele abismo.

Posso ser tanta gente dentro desta história maluca. De alguma forma, todos esses personagens têm algo de mim, e odeio esta história por causa disso. Posso ser Clara, posso ser Maria, a mãe. Claudius pode ser uma projeção minha, e eu ser a abusadora. Lara, titia vadia, pode ser eu também – por que sempre me dá um certo nojo quando penso em sexo? Aliás: não quero falar de sexo.

O piano soa ao longe. Ele é a única coisa capaz de me dar paz. Uma última esperança. O piano que talvez dê um sentido a esta merda de história mal contada. Muito mal contada. Maria Que Não Sabe Escrever. Mas que ainda sonha. Sim, ainda sonho.

Cheshire estava especialmente risonha hoje. Ela é uma risada ambulante. Não vi mais ela de pijamas, mas suas risadas continuam dando graça dentro da loucura, que é dela, que é de todas nós. Blossom também sorria. Acácia, vi de relance no corredor. Cheshire e Blossom trocavam seus jabs verbais, com Cheshire sempre ganhando, já que não para de falar um minuto. Elas combinaram de passear em volta do chafariz. Agora é noite de novo. O frio está voltando aos poucos. Não sei o que escrever, nunca soube. Desde o começo quando era apenas uma narradora a procura de uma história. Ainda sou. Ainda não quero enxergar. Ainda não consigo enxergar.

Como termina a história da pequena Clara?

Talvez em um dia de chuva.

Talvez na próxima chuva.

Mas com ou sem ela, o piano vai continuar tocando sua melodia. Triste e linda.

E isso me faz sorrir.

E sentir como se estivesse de volta ao lar.

21:29

domingo, 15 de março de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 164

                             #PianoParaPequenaClaraNoJoSoares #josoares


15 de março de 2015

21:16

Cris está meio triste. Ela pediu para eu ficar por perto e nesse meio tempo me deu vontade de escrever – escrevo de outro lugar, não do meu quarto-cela, ao lado da única pessoa que deixo ficar por perto enquanto escrevo. Ela só não pode falar, este é o trato. Talvez ela apenas queira ter alguém com ela, talvez pense em sua família, da qual sei quase nada, assim como sei quase nada da minha – ou melhor: nada. Sei que ela deve ter existido, e talvez a história da pequena Clara, de Maria, a mãe, do maldito Claudius, doutor dos infernos, da vagabunda Lara, de Jonas e Marcos, tenha algo a ver com isso. Talvez seja por isso que sempre acho que vou conseguir viver sem escrever esta história horrível, que nem história é, sem chegar ao fim disso – e os fantasmas contidos nela voltam, e tenho que retomar a busca dentro desta caverna.

Sei que Sarah e seus delírios psicanalíticos tem alguma explicação para isso, assim como provavelmente aquele velho tarado, ídolo dela.

De alguma forma vai voltar, ouvi ela dizer um dia.

Aquilo que não quero ver. Aquilo que me dói.

Aquilo que tive de esquecer.

Aquilo que esqueci vai voltar, de alguma forma. E de alguma forma, já está voltando. Posso quase tatear, mas não sei dar nome. Não sei, como é a palavra, simbolizar. Por isso escrevo.

Blossom estava escrevendo em seu caderno semana passada. Hoje de tarde essas malucas estavam em volta da televisão vendo uma passeata de um protesto que aconteceu, cheio de bandeiras. Que diferença faz o que está acontecendo lá fora quando estamos todas presas aqui dentro, me pergunto – a menos que alguma de nós saia para viver em definitivo lá fora, o que não é impossível. Talvez quando eu descobrir como vim parar aqui, saia. Talvez quando eu lembrar.

Talvez quando eu quiser lembrar.

Blossom estava escrevendo em seu caderninho. Perguntei o que era, ela me disse que era uma carta de amor, depois disse que estava brincando, e olhou para baixo, procurando aquilo que se perdeu. Vi em seu rosto que ela devia estar escrevendo mesmo uma carta de amor e se arrependeu de ter me dito. Não sei se para alguém aqui de dentro, e só agora me pergunto isso. Cris me pergunta se quero jantar, respondo que daqui a pouco. A verdade é que quanto mais me afasto da história de Clara, mais difícil fica escrever.

Você sabe, sou uma péssima escritora. Péssima mesmo.

Mas em uma dessas madrugadas perdidas no tempo me ocorreu: esta história ruma para o fim.

Acho que já sei como ela termina.

Só não sei que sei.

Ou não quero saber que sei.

Esta merda de calor também ruma para o fim. Não sei mais em que estação termina esta história. Mas o penhasco, o penhasco do qual sempre fujo, se aproxima uma vez mais.

Quem sabe na próxima chuva?

21:43

terça-feira, 3 de março de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 163




Segunda-feira, 2 de março de 2015

23:56

Estou com problema de memória. Isso é óbvio, mas não me refiro a ter esquecido tudo antes do acidente ou seja lá o que foi que tenha me trazido a este lugar. Me refiro ao meu cérebro, ou aquilo que restou dele, estar se apagando mais a cada dia, e tive medo, não sei se pela primeira vez ou já tinha pensado nisso, de enlouquecer. Quero dizer, enlouquecer antes de chegar no fim desta maldita história e quanto mais me convenço de que sou capaz de seguir sem escrever, o fantasma de Clara volta para me assombrar.

Sim, faz dias que não escrevo e jurei de novo que nunca mais ia escrever esta história horrível, terrivelmente mal escrita, um lixo que jamais será lido – mas então Sarah me para no corredor e pergunta se estou escrevendo. Ela deve saber que não. Não imagino como, mas esses psicanalistas veem coisas que não nos contam, não até a gente descobrir por nossa conta, ou admitir o que fingimos que não está lá.

Acho que odeio ela por isso.

Todas as nossas relações são baseadas em amor e ódio, ela me diz, então talvez ela ria escondido de mim.

Maria Sozinha No Canto Da Sala Com Todos Rindo De Sua Cara.

Não soa muito bem, mas pelo menos acho que Claudius, o Dr. Abusador, talvez esteja ficando escondido em algum canto desta história – e isso talvez seja bom, ele não ter mais aparecido em minhas livres associações. Sarah disse que a angústia é o afeto que fica vagando dentro de nós sem encontrar um porto e quando dizemos que não sabemos o que estamos sentindo, e de alguma forma isso é desconfortável, isso também é angústia.

Portanto, Maria Angustiada Que Escreve Para Se Livrar. Sem ter nada para escrever, como sempre, mas de alguma forma confiando que meu cérebro febril vai soltar as palavras certas. Só tenho que escrever, não pensar.

Mas tive uma visão bonita hoje. Na verdade, não foi hoje, mas registro agora. Vi elas três da minha janela: Cheshire, Blossom e Acácia. Elas estavam em volta do chafariz que Cheshire adora. Fiquei observando aqui de cima. Cheshire falava e ria, Acácia também falava, mas não ria – falava com aquele misto de alegria e tristeza contida dela, talvez uma loucura mansa. Elas duas pareciam duelar enquanto conversavam. Pelo que conheço das duas, cada uma deveria estar falando de um assunto diferente ou pelo menos ambas trocavam os assuntos muito rapidamente, feito jabs entre lutadores de boxe. E Blossom seguia quieta, como sempre. Às vezes tentava falar, e até conseguia, uma ou duas frases, e Cheshire e Acácia continuavam o carnaval verbal que era tão típico delas, e Blossom se recolhia de novo.

Fiquei com saudades delas, olhando aqui da minha janela, presa dentro de mim, tanto que me arrepio, tanto que quase choro.

E então penso em Maria, a mãe, tocando seu piano para sua doce garotinha. Sweet Lady Clara. Acho que tudo o que escrevo aqui, madrugada após madrugada, é sobre Clara. É sobre o piano. Sobre Maria, a mãe que se perdeu no tempo.

Talvez eu escreva para dar paz aos seus espíritos.

Não sei de onde veio essa frase, apenas escrevo o que me vem à mente em tempo real.

Talvez elas não tenham morrido ou talvez sim, e isso que escrevo aqui, às vezes em um desespero, é uma tentativa de mudar o passado. O final desta história. A cada madrugada, a cada vez que chove. O tempo talvez esteja para mudar. E isso me deixa feliz. E se é isso que se chama esperança, então talvez possa reacender este espírito errante aqui. E ver que aquelas três garotas, lindas em sua loucura, em volta daquele chafariz, perdido aqui no meio do pátio, deste lugar de onde falo, elas estão lá para mim. De alguma forma, elas vão estar lá me esperando. Acácia em sua loucura inocente, Cheshire, talvez a mais louca das três, a garota que passeia de pijamas e ri, e que rindo às vezes torna isso aqui suportável, embora também eleve o nível de insanidade que ronda em volta de mim, e Blossom. Sempre quietinha, pronta a largar um jab ou outro quando menos se espera. Elas vão estar lá esperando por mim.

Como Maria, a mãe.

Como Clara.

Como o piano que deve continuar tocando.

A espera de mim.

00:26

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 162



Quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

22:18

Estava no corredor, pensando que talvez chova amanhã e talvez esteja na hora de eu escrever, antes que chova, e ouvi:

− Ser louco é estar vivo.

Olhei para o lado. Ela tinha a pele morena, mais escura que a minha e os cabelos negros. Meus cabelos também são negros, embora ache, porque não lembro, que eles sejam pintados. Ela estava com um caderninho na mão, cuja capa tinha um cachorro, e estava escrito Blossom.

− Você é a Maria que escreve?

Sorri. E fiquei olhando para ela. Sorri do jeito que sorrio e notei que ela fazia algo parecido: sorrir olhando para o chão.

−Não gosto quando as pessoas ficam me olhando e pensando coisas. Isso é privilégio meu.

− Tudo bem, disse eu.

Ela fez um gesto no ar, como quem espanta uma mosca, como quem diz vamos deixar pra lá.

− Como você escreve a história que está escrevendo? ela quis saber.

Respondi que não sabia, apenas escrevia. E nem história era. Talvez apenas um amontoado de coisas, sentimentos, palavras sem nexo, que talvez formassem frases e na verdade isso não era importante porque ninguém ia ler o que escrevo.

− Por quê, ela perguntou.

Suspirei.

− Porque não sou escritora. E a história é uma merda.

Ela me disse que também escrevia escondido.

Ela. Blossom, resolvi batizar.

Escrever ajudava ela a sair da solidão. Ou lidar com ela. Nunca tinha pensado nisso, mas acho que escrevo pelo mesmo motivo.

Cris está aqui por perto. Lembrei agora quando escrevi que as melhores partes eram as que eu falava dela.

Blossom, fiquei pensando, deve ter uma dor parecida com a minha. Parecida com a de todas nós. Não saber por que e para que estamos aqui. O que foi a nossa história – e o que ela será. Esse é meu drama, Blossom. Reencontrar o que se perdeu. Talvez a inocência que me roubaram, e percebi olhando para ela, enquanto ela disse que não gostava que ficassem em silêncio, observando, tentando adivinhar seus pensamentos a partir de suas expressões faciais, que também devem ter roubado a dela. Bem, não viemos parar neste fim de mundo por acaso.

Roubaram de mim. Roubaram dela. Roubaram de Dafne, que ouvi dizer que vai sair daqui. Neste momento sinto saudades da minha pintora. Sinto saudades do piano.

Roubaram de mim.

Roubaram de Clara. A vida que deveria ter sido e não foi.

Roubaram de Maria, a mãe mais linda do mundo. Que tocava aquele piano para a filha mais linda do mundo, as melodias que não consigo mais tocar, não consigo sentir. Não consigo descrever. Sei que elas estiveram lá. E talvez ainda estejam.

Lindas feito um corte no pulso.

Sobre o que será que Blossom escreve? Talvez ela não queira que ninguém leia, talvez escreva em códigos. Talvez tenha seus traumas.

Bem-vinda ao lar, Blossom.

Talvez ela também escreva para lembrar.

Ou esquecer.

Sempre que fico tempos sem vir aqui e escrever, sempre sem ter a menor ideia de quais palavras virão, como diabos vou terminar um parágrafo, acho que posso viver sem escrever esta bosta. Mas não posso. Lady Clara me chama. Minha garotinha me chama e ela sabe que eu vou voltar.

 E enquanto não der paz a ela, não vou dar paz a mim.

Blossom sumiu no corredor. Baixei a cabeça e olhei pela janela. Talvez chova amanhã. E então escreverei de novo. E tocaremos aquele piano, Maria.

− Você promete que não vai escrever sobre mim, que não vou virar um personagem em sua história? Blossom voltou para perguntar.

− Prometo, respondi. Ela sorriu e foi embora.

Foi então que vindo de algum lugar perdido dentro de mim, comecei a ouvir e não havia ninguém para testemunhar. Eram sons confusos, até que decifrei: eram acordes de piano.

Suspirei. E soube naquele momento que não seria capaz de manter minha promessa. Desculpe, Blossom. E vim para cá.

Vamos tocar, Maria.

Clara precisa continuar ouvindo.

22:46