terça-feira, 19 de novembro de 2013

Nanowrimo - Dia 19



Estava cheia de ideias hoje. Maria Cheia de Ideias.

E de novo não anotei.

E de novo esqueci.

Pensei em não falar de Clara hoje.

Mas também pensei que tem algum motivo de por que não consigo criar um nome para aquele homem moreno que inventei. Se inventei, é só inventar. É só escrever, tão fácil. Mas talvez Clara também não saiba o nome dele. Eu sei, faz poucas linhas que disse que não ia falar nela. Então, o quê? Recaí? Falando nisso, hoje me ocorreu que esse homem cujo nome não consigo conceber, provavelmente por imaturidade intelectual, voltou a beber depois de dez anos abstinente. Isso é um dado interessante. Ele não bebia. Se Clara, de quem não vou falar hoje, era pequena, então talvez ela nunca tivesse visto ele beber. Mas depois de dez anos, ele voltou a beber. Foi assim: para comemorar que fazia dez anos que estava abstêmio, ele resolveu comemorar com um brinde. Não tenho certeza, mas em minha mente era um uísque caro. Escolha um. Johnnie Walker, Chivas, Cavalo Branco.

Eu não sei.

Também não bebo.

Digamos que fosse um Chivas. Um dezoito anos. Não, vinte anos. Ele ia comemorar seus dez anos com um vinte anos. E então ele tomou um gole. E destruiu a casa inteira. Bateu na mulher, bateu na filha (Clara? não sei se Clara era filha dele) e saiu por aí. Depois voltou. E no outro dia, comprou mais bebida. Mas por que não vi ele bebendo quando estava brincando na pracinha com Clara? Talvez ele ainda não tivesse voltado a beber. As coisas que crio, já que crio sem o menor planejamento, e continuo sem ter a menor ideia do que vou escrever antes de sentar aqui, talvez por esquecimento, talvez por não ser nem provavelmente jamais serei escritora, apenas vêm a minha mente. Confesso que gosto desse exercício de ir esticando as frases, porque é como esticar a vida, correr cem metros a mais quando a gente não aguenta mais correr. Acontece que de vez em quando eu me perco no que estava divagando.

Eu esqueço das coisas. Já disse isso?

Pode ter a ver com as dores que sinto pelo corpo. Pode ter a ver com algum acidente que deve ter ocorrido, e que talvez seja o que me trouxe a este quarto.

Escreva o que os leitores querem ler, diz você. Mas escrevo para mim. Ninguém vai ler. Por isso só tenho que agradar a mim. Sarah disse para eu descer fundo. Não sei se já consegui, mas juro que estou tentando.

Ouço canto de pássaros do outro lado da janela. Pássaros cantam à noite? Não é o som de corujas, é o mesmo cantar dos pássaros quando o dia nasce. Mas é noite, e ainda não é tarde.

Esta história é sobre Clara ou sobre mim?

Talvez seja sobre o homem cujo nome não consigo lembrar. Ou não consigo inventar. Você tem algum nome para me dar? Você que quem sabe me lê, mesmo que eu saiba que ninguém vai me ler, e nem quero. Assim posso escrever o que eu quiser. Porque se não for assim, não escrevo nada. Hoje ouvi Sarah falando, ou li em algum livro, não importa, que quando a criança sofre um trauma é como se uma enchente passasse e a gente não pode suportar tudo aquilo vindo, e por isso não consegue mais simbolizar, ou seja, não consegue falar sobre aquilo, nem brincar, já que a gente deságua nossas angústias nas brincadeiras. Ah, psicanalistas. Será que é por isso que Clara, quer dizer, Sarah disse para eu escrever? Escrever para desaguar as angústias. Ela acha que vou conseguir achar a chave do cofre se eu escrever. Por isso tenho escrito, mesmo sem vontade, mesmo sem inspiração ou a menor ideia do que vai vir na frase seguinte. Na verdade, nem estou escrevendo. Estou apenas pensando em voz alta. Ou pensando sem voz, mas com o auxílio do teclado. Pelo menos, desde que vim para cá, aprendi a digitar sem olhar para as letras do teclado, o que quer dizer que não sou uma inútil.

Não sou uma inútil, apesar do que disseram.

Tenho fome de novo, mas desta vez não vou parar de escrever para comer.

Por que o homem voltou a beber depois de dez anos? Sim, ele foi comemorar. Mas será que foi só isso? Talvez ele tenha se transformado em alguém que muitos não conheciam, pelo menos quem tinha algum vínculo afetivo com ele há menos de dez anos.

Sarah, assim como Tchekov, disse para escrever até os dedos quebrarem. Mas tenho me cansado e eles não quebram. Tantas coisas quebradas. Talvez lembre de mais coisas que se perderam pelo caminho, porque tenho certeza que foram várias.

E no quadro que vejo agora, a mulher está separada do homem moreno. A mulher está em depressão no hospital. A irmã ficou na casa. O homem está tomando banho com uma criança. Ele toca nela. Quem é a criança que não consigo ver?

Você vai dizer que é Clara, e penso nisso também, mas pode ser que seja um garotinho. Tem um garotinho, que acho que é mais velho do que Clara, e que eu não tinha visto antes. Eles não estão na praça, estão tomando banho. É outro filho do homem moreno? É sobrinho? Enteado? Não tinha pensado em enteado. Pensei que eles eram uma família, e até devem ser. Mas não sei que lugar ocupa cada um nesta história.

Penso em parar de escrever. Não apenas hoje, mas para todo o sempre. Ia fazer diferença para você? Para mim, não sei. Talvez o você a quem me dirijo, pensei agora, seja uma outra instância do eu, e você na verdade sou eu e eu sou você.

Ah, psicanalistas.

Mas talvez essa filosofia que estou inventando, assim sem inventar, esconda algo que ainda não consigo enxergar, um nó – ou vários nós – que não sei se vai, ou vão, ser desatados.

Acho que esta história não vai dar em nada. Vou parar por aqui. Chega.

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