sábado, 2 de novembro de 2013

Nanowrimo – Dia 2


Juro que pensei em não escrever, em não escrever hoje, e se não escrevo hoje não escrevo nunca mais. Mas nisso já estou escrevendo. Então apenas devo continuar caminhando nesta floresta até que o clarão apareça – ele vai aparecer, sei que vai. Vou caminhando enquanto a confusão e a dor vão ficando para trás, e sei que elas seguem meus rastros, também caminham, feito filhas que não querem ser largadas, não querem deixar o papai sair para trabalhar – não nos abandone, preciso de você, gritam elas. Mas eu, eu mesmo, também preciso de você e você, embora talvez ainda não admita, também precisa de mim. Sou o narrador a procura de uma história e você faz parte da minha história. Talvez não queira fazer parte, mas eu decidi que você faz parte. Chega de pedir permissão. Apenas decidi e continuo caminhando nesta floresta: você está comigo nesta jogada.

A minha busca, que é a busca de uma história, que bem poderia ser, pensei agora, a busca por uma identidade, já que ainda não sei quem é você e você tampouco sabe quem eu sou, é a minha busca por você também. Que é meu personagem, talvez meus personagens, talvez o homem, a mulher, a irmã e a criança de quem falei ontem, mas também não sei nada sobre eles. Talvez você seja um deles. Talvez você seja todos eles, e a minha busca que acho ser de um é de vários. Meus braços e pernas cansam de novo, mas preciso continuar escrevendo senão ambos vamos sumir. Lembra aquele filme do cara que colocava bombas nos lugares de serviço e a mulher tinha que escrever SAM sem parar, que era o nome do seu ex-namorado e que colocou a bomba sob o computador do escritório dela, sob pena de todos explodirem? É mais ou menos isso o que estou fazendo. Não posso parar de escrever, ou ambos vamos pelos ares. Já disse Onetti que não posso obrigar você a continuar me lendo, mas você não pode me impedir de continuar escrevendo, e isso faz muito sentido. A dor e a confusão vão ficando para trás, a falta de ter um lugar no mundo também. Neste momento, escrevo do meu lugar no mundo, da minha Pátria e cada palavra que escrevo é um tijolo a mais nesta construção. Que tem tudo para ceder aos ventos, às tempestades que certamente virão. Mas continuo caminhando, continuo remando, continuo escrevendo, porque é isso que fará você se materializar na minha frente.

O relógio, já reparou? Parece que ele aumenta de velocidade com o passar do tempo, os minutos e os segundos vão ficando menos, como se menos fosse o tempo, e ele é mesmo. Não deixe o tempo passar por você, passe pelo tempo, algum professor disse, e alguém de reputação estabelecida, talvez um filósofo ou poeta, ou poeta como todos os filósofos, deve ter dito isso antes, mas se parar para pesquisar vamos, você e eu, sumir sem deixar vestígios.

E agora?

Agora, não sei. Só sei que preciso de você e preciso que não se demore muito para aparecer, você cujo rosto ainda não conheço. Você, homem, mulher, irmã, criança. Será que é um animal de estimação que estou procurando? Como encontrar se não sei o que estou procurando?

Mas eu saberei quando encontrar você. Depois de encontrar, saberei.

8 comentários:

  1. Como encontrar algo se não sabemos que estamos procurando? Acho que sabemos, sempre sabemos que não sabemos e vamos, persistimos. Lembrei de alguém ter dito: eu não procuro, não procuro, entende? Não sei se entendo ou se entendi, não sei. Só sei que escrever é um exercício gostoso e quando a gente não pensa, flui. Será? Acho que o seu personagem é um… Isso! Grande abraço, até. :-)

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    1. Valeu, Helena, obrigado pela leitura atenta. Vou procurar meu personagem mais um pouco... agora. Abraços e vamos aos escritos de hoje!

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  2. Talvez devêssemos parar de procurar e deixar que nos encontre, porque quando procuramos não paramos em nenhum lugar e ai nos tornamos invisíveis

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    1. Belíssima reflexão, não tinha pensado nisso. ;)

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  3. Boa tarde. Iniciei a leitura agora e devo dizer que já me identifico com a escrita, cheia de incertezas e possibilidades. Acredito que irei gostar bastante do teu livro. Abraço.
    Tua colega,
    Jordana Martins.

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    1. Oi, Jô. Fico feliz de te ter por aqui. É uma narrativa cheia de incertezas mesmo, então faço votos de que tu siga na busca. ;) Obrigado pela leitura. Abraço grande!

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    2. A incerteza sempre me tem com ela. rs Certo. :) Agradeço por tu teres me apresentado à ela, para a narrativa.
      Um grande abraço!

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    3. Eu que agradeço pela leitura. A incerteza às vezes é angustiante, mas se a gente seguir caminhando, daqui a pouco ela se transforma em... outra coisa. ;) E aí, em que parte tu tá?

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