Segunda-feira,
9 de fevereiro de 2015
21:32
A
porta se fecha de novo. Sarah disse que eu tinha que continuar escrevendo senão
os bichinhos iam voltar. Por bichinhos, entendo, bichinhos mentais. Eles voltam
mesmo. Acho que o jeito de afastar o enxame é escrevendo, e cavando um pouco
mais. Uma dessas loucas me parou hoje e pediu para eu fazer um personagem
inspirado nela. Acho que está virando moda, uma coisa meio doentia, como talvez
tudo mais aqui, pedir para Maria, A Louca Que Se Tranca No Quarto Para
Escrever, também conhecida pela alcunha de A Louca Que Não Lembra, para que
conte a história dessas doidas anônimas.
Acho
que desde que Lady Ballet me pediu um presente de aniversário. E antes quando
Jade teve sua festa aqui, e deve ter se espalhado porque Cheshire, a garota que
é só sorriso, disse que escrevi sobre ela. Quer dizer, eu vou falando sobre
elas até que chego ao que realmente interessa: a pequena Clara.
Devemos
estar todas conectadas por um fio que ainda não entendo. Essa garota de hoje, minha
nova biografada, é pequena, como se quisesse ir para o bolso de alguém, o que é
um símbolo interessante para alguém que precisa de carinho. Ela é loira e
pequena. E fica balançando os pés na cadeira, como se fosse uma velha na
cadeira de balanço – aliás, hoje ela disse que o sonho dela é ter uma cadeira
de balanço, o que também é um símbolo interessante – sempre se balançando.
Perguntei como seria um personagem baseado nela, e ela me disse que tinha que
ser alguém alegre. Olhei fundo em seus olhos de bolitas verdes e entendi o laço
que nos une: todas nós somos ligadas por uma tristeza silenciosa no olhar.
Aquela tristeza de quem espera o trem chegar na estação. E ele nunca chega.
Ainda
assim, esperamos.
−
Vou escrever sobre você.
Ela
sorriu. Acho que devo ter, de alguma forma, nesse simples gesto, levado um
pouco de alegria para ela. Eu que achei que nunca servi para nada, quem sabe,
possa vir servir a alguém.
Ela
me deu um abraço e sumiu no corredor, disse que talvez a gente ficasse um tempo
sem se ver. Ela me olhou quando já estava quase sumindo e disse:
−
Acácia. Meu nome é Acácia.
Ela
ficou um instante em silêncio e ouvi sua respiração como quem esbafora esperança
e disse:
−
Obrigada, Maria.
Eu
sorri.
Acácia
sumiu no corredor.
Gostei
dela.
Também
vi Sabby. Ela estava com uma fita na cabeça. Estava com uma cara boa e quando
digo boa quero dizer que, provavelmente, ela não esteja pensando em morrer –
por hoje. Ela falou da outra garota, a tatuada de cabelos vermelhos, disse algo
como ela ter que reencontrar a – Savanah, lembrei agora. Disse que inclusive
uma estava dentro da outra, e por um instante me perguntei se Savanah não era
uma projeção ou Sabby tem personalidade dupla, algo assim. Mas eu vi Savanah,
então devemos estar todas loucas.
Somos
todas meio loucas, me disse Acácia, quando ainda não sabia que seu nome era
esse.
Somos,
então o que temos a perder?
Cris
me pergunta se escrevo sobre ela. Digo que sim. Deixo ela ficar por aqui,
embora ela não esteja por aqui agora, e só ela, desde que ela não me leia.
−
Essas devem ser as melhores partes, ela diz.
As
partes dela.
Sorrio.
Pensamentos
vêm e vão. Me pergunto o que eu mesma estou escrevendo neste exato instante: as
partes dela são as melhores. Talvez exista um sentindo inconsciente nisso.
Já
sei que você espera que Cris e eu terminemos ficando juntas.
Mas
já me ocorreu que ela pode ser minha irmã.
Ou
irmã, de alguma forma.
Talvez
eu também ame ela, de alguma forma.
Maria
Que Fala De Amor.
Sinto
saudades dela. E daí?
Nada
é o que parece ser.
E
tudo isso para dizer que nesses dias que não escrevi imaginei Maria, a mãe, que
gostava de contar histórias, e que talvez tenha ensinado Clara a ler e escrever
através da sopra de letrinhas. Maria, com carinho de mãe, juntou as letras e
formou uma frase. Maria que contava histórias, que lia para Clara. Clara, que
depois de aprender a escrever, talvez tenha contado histórias também. Uma das
duas, se estivessem vivas, talvez escrevessem um livro.
Ou
se estiverem vivas.
Estou
cansada. Não consigo mais escrever. Mas gosto de pensar que depois de Maria, a
mãe, escrever várias vezes a mesma frase, catando letrinha por letrinha,
naquela sopa que sempre escondia os caracteres, os símbolos, talvez depois de
anos, e é nisso que quero pensar hoje, Clara aprendeu a ler e finalmente
decifrou o que estava escrito todo esse tempo em seu pratinho:
Mamãe
ama Clara.
22:05
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