Tive uma ideia hoje. Talvez porque depois do stress
pós-traumático e pós-prova de hoje tenha me dado aquela urgência de
preciso-encontrar-meu-lugar-no-mundo, e isso geralmente significa escrever, e
cimentar palavras nesta pátria e esticando as frases como um corredor que,
mesmo cansado, sabe que não pode parar, decidi começar a remar logo, até porque
temos mais trabalhos e mais provas, então: escrevamos agora. Tem quem diga – e eu
discordo – que a etiqueta literária recomenda frases curtas, mas vejo como
minhas frases e meus fluxos vêm aumentando com o passar do tempo, e acho as
frases elásticas, escrevo como falo, então não há tempo a perder com um ponto
final. Ponto. E vejo como minhas digressões também vêm crescendo com o passar
do tempo (será coisa da idade?), lembro de Clarice Lispector, que adorava fazer
isso, e disse a certa altura de A Hora da Estrela, depois de várias páginas, que
a história ainda não havia começado. Se eu parar para respirar, tenho certeza,
vou me perder. Mas lembrei: a história ainda não começou. A história de como
criar uma história, das voltas e voltas que a gente dá antes de fazer o que tem
que fazer, mas talvez isso já seja fazer a coisa em si, de alguma forma.
Esqueci de colocar a hora em que comecei a escrever este
texto para cronometrar minha corrida, mas agora já era. O caso é que vinha
caminhando na direção do escritório da Distant Thunders, Inc., passei por um
banco em que, quando o tempo permite, sento para um chimas ou uma leitura, e
pensei em um personagem, já adulto, que se recusa a crescer, tipo um
adolescente de trinta e poucos anos (vejam que escrevi dois parágrafos e meio
só para dizer isso). Sim, mas e depois? Depois eu não sei, mas pensei que ele
poderia ser um funcionário público que ameaça explodir o lugar, porque quer
sair daquela vida e não pode (hmm, a coisa está surgindo). A Rosa Monteiro
disse que o artista/escritor é alguém que nunca chega realmente a crescer, sempre
imerso neste mundo de fantasia, típico da criança, e temos que produzir, para
justificar o nosso crescimento abortado à sociedade.
Em todo caso, neste breve espaço que foi a travessia do
parágrafo anterior até este, houve um telefonema e – o que eu estava falando
mesmo? Que tinha tido uma ideia para um personagem, que nem lembro mais como
era, ou lembro sim, mas agora ela já não me parece tão boa. Não importa. Vamos
continuar remando.

