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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Livro Novo

Comecei a escrever livro novo hoje.

Isso é tudo o que sei dele até o momento.

Tive uma aula muito fera sobre Procrastinação hoje, a arte de deixar para depois as coisas importantes. A arte de começar a fazer uma coisa e parar para fazer outra coisa, e parar para fazer outra coisa, ad infinitum. Tipo quando começo a escrever um texto e paro porque preciso ver os e-mails mais uma vez, até completar as 352 vezes que vejo e-mails por dia. Ou quem sabe quando começo a escrever um texto, e paro para ir lá fazer um café (neste momento me vem à mente a ideia de ir lá tomar mais uma xícara, mas vou exercitar o foco. Tenho que escrever, tenho que produzir, tenho que concluir o post para este blog de muitos acessos e poucos comentários, tenho que.). Paro para pensar: o que vem agora? Momento distração. Lembro que também pensei que hoje é um dia para estabelecer um horário de leitura, uma hora por dia pelo menos, podia ser das 11 até por volta da meia-noite, tipo o jazz (vamos ver quanto tempo vai durar, rá rá). Mas hoje ouvi que “nunca haverá um dia ideal” e pensei que o único dia realmente ideal é hoje. Então decidi começar a escrever livro novo hoje. Hoje que ganhei como exercício monitorar os horários do meu dia, das 7 da manhã até meia-noite (no quadradinho 14:30 da segunda-feira vou colocar, orgulhosamente, escrever. Quem sabe escrever livro novo). Sempre deixei para depois, no verão achava muito quente, no inverno muito frio, só vou escrever quando for outono, mas hoje o céu está maravilhosamente cinza (gosto de dias grey, e daí?). 

Então escrevo. 

Escrevo livro novo. 

Quer dizer, comecei a escrever livro novo. 

Sobre o que vai ser? Talvez depois que eu terminá-lo eu saiba do que se trata, que nem a Isabel Allende faz. Pensei que podia ter um personagem que não sabe o que vem a seguir (qualquer semelhança é mera coincidência, é-claro). Mas também pensei que poderia aproveitar o material dos vários e-mails catárticos que troco com uma certa constância (“Pequenas Obsessões”, é um bom título). Neste momento a ideia de tomar mais uma xícara de café, como Professor Girafales e Dona Florinda, volta a me assombrar. Não posso, tenho que escrever meu livro novo, digo para meu eterno interlocutor imaginário. Esse lance de fluxo de consciência é uma doideira, o texto capta praticamente o meu cérebro em voz alta, e já ouvi que escrevo como falo, que as pessoas (as que leem, sabia que a média de leitura do brasileiro é de um mísero livro por ano?) me veem falando quando escrevo aqui, me dá sono, penso que este raro momento está tão quieto que dava até para tirar um cochilo, ninguém ia perceber, mas não posso porque tenho que escrever livro novo. Antes, tenho que mandar este texto para a professora, aliás, queria deixar um abraço para a Carmem Castro, cuja aula me fez escrever hoje, inclusive tive a ideia para este post e para a frase “comecei a escrever livro novo hoje”, embora já tivesse pensado nessa frase antes. Ou acho que pensei (inconsciente se manifestando?). Acabo de lembrar que amanhã tenho aula sobre desenvolvimento infantil, daqui a pouco as provas já estão chegando, tenho quilos de coisas para ler. Fora os livros destruídos (75% da cultura da Grécia foi perdida, sabia disso?), a Arca da Aliança e as tábuas perdidas com os Dez Mandamentos na História Universal da Destruição dos Livros. Então preciso estudar e a xícara de café vai ficar para a próxima. Mas quem sabe um chimas? Ou olhar meus e-mails agora? Ver videos no youtube, tirar um cochilo, passear pela floresta enquanto o lobo não vem? 

Mas não era nada disso que eu queria dizer.

Só queria dizer que comecei a escrever livro novo hoje.

Mas por enquanto isso é tudo o que sei dele.

sábado, 20 de abril de 2013

1959 e a Regra das 10.00 horas


Descobri hoje o documentário muito fera 1959 - O ano que mudou o jazz, contando a história dos seminais Kind of Blue (Miles Davis), Mingus Ah Um (Charles Mingus), Time Out (Dave Brubeck) e The Shape of Jazz to Come (Ornette Coleman). Repare em 38:46, sobre a política de segregação racial endossada pelo governador Faubus e o protesto de Mingus na música Fables of Faubus, assim como nos gritos de “Yes we can” – “Barack Obama talvez não saiba, mas o jazz foi uma das razões pelas quais ele foi eleito”. E repare também no minuto 51: 12 – “A urgência desesperada de tocar de Ornette Coleman refletia a paranoia nuclear da Guerra Fria”.

E se você ainda não viu, acompanhe o personagem saindo para passear em uma cidade cheia de livros neste belo vídeo de aniversário da 4th Estate Books.

Um mês de outono e a história de Carol ainda aguarda eu escrever seu terceiro e último capítulo. Depois de uns dias sem computer, e enquanto leio sobre a regra das 10.000 horas de prática para se atingir a excelência de sua arte em Outliers - Fora de Série, vamos ao trabalho.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Concentração, Perseverança e Palavras por Minuto


“Em toda entrevista me perguntam qual a qualidade mais importante que um romancista deve ter. Isso é bem óbvio: talento. Não interessa quanto entusiasmo e empenho você põe em escrever, se for totalmente destituído de talento literário, pode esquecer a ocupação de romancista. Isso é mais um pré-requisito que uma qualidade necessária (...).
Se me perguntarem qual a segunda qualidade mais importante para um romancista, essa também é fácil: concentração – a habilidade de focar todos os seus limitados talentos no que for mais crucial no momento. Sem isso não se pode realizar nada de valor, ao passo que, se você for capaz de se concentrar eficientemente, conseguirá compensar um talento errático ou até a falta de talento. Eu geralmente paro para escrever de três a quatro horas todas as manhãs. Sento em minha mesa e me concentro totalmente no que estou escrevendo. Não olho para mais nada, não penso em mais nada. Mesmo um romancista muito talentoso e com a cabeça fervilhando de novas ideias provavelmente não consegue escrever uma linha se, por exemplo, estiver sofrendo com uma cárie. A dor bloqueia a concentração. Isso é o que quero dizer quando afirmo que sem concentração você não realiza coisa alguma.
Depois de concentração, a coisa mais importante para um romancista é, sem sombra de dúvida, perseverança. Se você se concentra em escrever três ou quatro horas por dia e se sente cansado após uma semana fazendo isso, não será capaz de escrever um livro longo. O que um escritor de ficção necessita – pelo menos aquele que sonha escrever um romance – é a energia para se concentrar todo dia durante meio ano, ou um ano, dois anos (...).
Felizmente, essas duas disciplinas – concentração e perseverança – são diferentes do talento, uma vez que podem ser adquiridas e aperfeiçoadas por meio de treinamento. Você aprenderá a ter tanto concentração quanto perseverança quando sentar todo dia diante de sua escrivaninha e treinar a mente a se concentrar em uma coisa só. Isso parece um bocado com o treinamento muscular de que falei agora há pouco. Você precisa transmitir continuamente o objeto de sua concentração para seu corpo todo, e se certificar que ele assimilou por inteiro a informação necessária para que você escreva todo dia e se concentre na tarefa diante de si. E gradualmente você expandirá os limites do que é capaz de fazer (...) Paciência é um componente obrigatório do processo, mas garanto que os resultados virão.
Em sua correspondência particular, o grande escritor de policiais Raymond Chandler certa vez confessou que mesmo que não escrevesse nada, obrigava-se a sentar em sua mesa todo dia e se concentrar. Entendo a finalidade por trás disso. Esse é o modo como Chandler arrumava para si mesmo a resistência física de que um escritor profissional precisa, aumentando tranquilamente sua força de vontade. Esse tipo de treinamento diário era indispensável para ele.
Escrever romances, para mim, é basicamente um trabalho braçal. Escrever, em si mesmo, é um trabalho mental, mas terminar um livro inteiro está mais próximo do trabalho braçal. Não envolve levantar peso, correr ou pular. A maioria das pessoas, contudo, enxerga apenas a realidade superficial da escrita e acha que os escritores vivem silenciosamente concentrados em um trabalho intelectual em seu gabinete ou escritório. Basta ter força para erguer uma xícara de café, imaginam, que você pode escrever um romance. Mas assim que você arregaça as mangas para começar, percebe que não é um trabalho tão tranquilo como parece. O processo todo – sentar em sua mesa, concentrar sua mente como se fosse um raio laser, imaginar alguma coisa em um horizonte vazio, criando uma história, escolhendo as palavras certas, uma a uma, mantendo todo o fluxo da história nos trilhos – exige muito mais energia, por um longo período, do que imagina a maioria das pessoas. Pode ser que você não mova seu corpo de um lado para outro, mas há um exaustivo e dinâmico trabalho operando dentro de você. Todo mundo usa a mente quando pensa. Mas um escritor veste um traje chamado narrativa e pensa com todo seu ser; e para o romancista esse processo exige pôr em ação toda a sua reserva física, geralmente ao ponto da estafa.”

O inspirado trecho acima, retirado de Do que eu falo quando eu falo de corrida, do escritor e maratonista Haruki Murakami, me incentivou a fazer um belo exercício de aquecimento, que a partir de hoje pretendo que seja diário, treinando os dedos e a concentração, com este belo teste para aumentar a velocidade de digitação. Digito relativamente rápido, sem olhar para o teclado, mas preciso estar em constante exercício. Seja através da correspondência eletrônica, seja atualizando estes trovões de muitos acessos e poucos comentários, seja compondo ficção. Até ler esse livro, tão bem escrito que até um sedentário confesso quanto eu é capaz de se encantar – desde que também seja encantado pela literatura –, achava que não praticava regularmente nenhum esporte (desde que mudei para apartamento, alguns anos atrás, o estudo e prática da bateria ficaram totalmente comprometidos, infelizmente, afinal a bateria não foi feita para condomínios). Mas se mantiver a concentração e a perseverança, começando por hoje, posso me exercitar e treinar meu instrumento, colocando óleo nas engrenagens da escrita.
Então, vamos ao foco.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Por que ainda não traduziram On Writing, de Stephen King?


“O seu tempo é valioso e o meu também, e ambos entendemos que as horas que passamos falando sobre escrever não são as horas que passamos de fato escrevendo. Serei tão animador quanto possível, porque é minha natureza e amo este trabalho. Também quero que você o ame. Mas se você não quiser suar a bunda trabalhando, você não tem negócio algum tentando escrever bem. (...) Se Deus deu algo que você pode fazer bem, por que em nome de Deus você não faz? (...) Não se pode transformar um mau escritor em um bom escritor, nem um bom escritor em um grande escritor, mas é sim possível, com muito trabalho duro e perseverança, transformar um escritor competente em um bom escritor (...) TV é a última coisa que um aspirante a escritor precisa, e se você não vive sem saber as notícias da CNN e os jogos do ESPN, ou assistir Jay Leno todas as noites, está na hora de você se perguntar a sério sobre seu futuro como escritor (...) Para ser escritor, você precisa fazer duas coisas acima de tudo: ler muito e escrever muito. Até onde eu saiba, não existe outro caminho; não existe atalho.”

  
No fim de Oficina de Escritores, que considero a Bíblia para quem quer escrever (ou melhor, uma das Bíblias), Stephen Koch fala de On Writing – A Memoir of the Craft, de Stephen King, que ele considera talvez o mais útil e abrangente livro escrito sobre o ofício de escrever, e de onde grande parte (partes demais, eu diria) da Oficina foi tirado. Pois que tive a honra e a boa vontade de ler On Writing (esta edição da Scribner, com hard cover), no original em inglês, já que ele ainda não foi traduzido. Aliás, por que ainda não traduziram On Writing? Juro que quando o traduzirem compro um exemplar para reler.

O livro já começa bom, com King dizendo que sua intenção é contar como um escritor se forma, e não como ele é feito, já que para ser escritor a pessoa tem que vir com algumas peças de fabricação. Em seguida começam as memórias da infância, o pai que sumiu para sempre porque estava enterrado em contas, logo quando King era bem pequeno, depois uma baby-sitter que era “grande como uma casa”, que vivia o sufocando e peidando em sua cara, que ele lembra de ser “escuro, terrível, mas também gerava algumas risadas”, e nesse sentido ela também o preparou para a crítica literária. Sua voz nos conduz como se ele estivesse conversando com a gente. Aos seis anos de idade, ele plagiou uma história e deu para sua mãe ler, que gostou, mas quando confessou não ter sido ele quem inventou, ela disse: “Escreva suas próprias histórias, Stevie. Você pode fazer melhor que isso”. Então ele escreveu sobre quatro coelhos dirigindo um carro e ajudando crianças. Ela leu, perguntou se ele mesmo tinha escrito aquilo. Depois que ele confirmou, ela disse que aquilo bem poderia estar em um livro. Stephen disse que desde então nenhum elogio que recebeu em sua carreira foi melhor que aquele.
 
Depois das experiências com o jornal da escola, e com um conto que fez como uma releitura de O Poço e o Pêndulo, de Edgar Allan Poe, e terem perguntado por que ele perdia tempo escrevendo aquele lixo (onde ele acrescenta: “todo escritor, pintor, cantor, já teve alguém que perguntou “por que você está desperdiçando seu tempo com isso?”), King foi trabalhar na biblioteca onde conheceu Tabitha Spruce, com quem casou um ano e meio depois, e ainda é casado, e se apaixonou por sua poesia em um sarau entre amigos.
Quando finalmente conseguiu vender Carrie, em um contrato que foi de 2.500 a 400.000 dólares, King conta a triste história das duas garotas que inspiraram Carrie, as duas já mortas quando o livro foi publicado (uma por ataque epilético, a outra por suicídio). Ele também conta que jogou o esboço de Carrie no lixo, e foi sua esposa Tabby quem resgatou o texto da lixeira e disse que ele deveria continuar escrevendo, e que seu apoio foi fundamental para que ele seguisse a carreira de escritor. Em seguida sua mãe morreu de câncer no hospital, e depois que saiu O Iluminado (cujo protagonista é um escritor alcoólatra), King teve que admitir que estava falando dele mesmo, um escritor e adicto (ele também estava usando cocaína) e disse que pedir para um alcoólico maneirar na bebida é como dizer para alguém que está sofrendo de diarreia maneirar na caganeira.
A segunda parte do livro (Toolbox) fala nas ferramentas que todo escritor deve trazer consigo, e tê-las a mão quando precisar delas. Em primeiro lugar está o vocabulário (inclusive o vocabulário de rua) e a gramática, que vai melhorando conforme vamos lendo. No fim do capítulo anterior ele alerta que a partir de agora vamos falar a sério sobre o ofício de escrever, e se você não quer levá-lo a sério, feche o livro e vá fazer qualquer outra coisa. Como lavar seu carro.
“Não se deve pensar muito sobre onde o parágrafo começa ou termina, o truque é deixar a natureza fazer o resto. Se você não gostar mais tarde, então conserte. É sobre isso que é reescrever (...) O objeto da ficção não é o senso de correção gramatical, mas fazer o leitor bem-vindo e contá-lo uma história, e se possível fazer ele esquecer que está lendo (...) Escrita é pensamento refinado (...) O parágrafo de uma única frase está mais perto da conversa do que da escrita, e isso é bom. Escrever é sedução (...) A batida na qual o escritor desenvolve sua prosa, é a batida que ele escuta em sua cabeça. Descobrir essa batida é o resultado de milhares de horas de prática, e de dezenas de milhares de horas lendo (...) Estamos falando sobre ferramentas e carpintaria, sobre palavras e estilo, mas conforme vamos nos movendo (no texto) você faria bem em se lembrar que também estamos falando de mágica.”
 
King diz que lê onde pode e que salas chatas de espera foram feitas para ler (eu acho que ônibus também, mas anyway). Para ele, as manhãs pertencem a tudo que for novo – a composição atual. As tardes são para cestas e cartas. As noites são para leitura, família, jogos do Red Sox na TV e quaisquer revisões que não podem esperar. Basicamente, as manhãs são seu horário nobre para a escrita.
“Como todos os outros aspectos da boa escrita, a chave para escrever bons diálogos é a honestidade. A Legião da Decência pode não gostar da palavra merda, e talvez você também não, mas nenhuma criança vai correndo até sua mãe para dizer que sua irmãzinha defecou (...) Toda semana recebo uma carta (muitas vezes mais de uma) acusando-me (ofendida com o que meus personagens disseram). A chave é deixar os personagens falarem livremente, sem se importar com o que vão dizer a Legião da Decência ou o Círculo de Leitura das Senhoras Cristãs. Do contrário, além de ser desonesto, seria covarde, e a escrita de ficção não é trabalho para covardes intelectuais (...) Honestidade é fundamental (...) Como disse Frank Norris, o que me importa as opiniões deles? Eu contei a verdade (...) O que acontece com os personagens conforme a história progride depende do que descubro sobre eles conforme vou avançando (...) e se você continuar escrevendo, vai perceber que todos os personagens são parcialmente você.”

King fala sobre deixar o manuscrito recém-escrito descansar por umas seis semanas, ler, revisar e reescrever. A segunda versão é a primeira versão menos 10% (como sugeriu um editor em uma carta de recusa durante sua adolescência). Ele também fala sobre termos um Leitor Ideal (no caso dele, sua esposa) e mandar a cópia para seis, oito pessoas e pedir sua opinião sobre o que funciona e o que não funciona na história, antes de fazer a versão final.

“Você não precisa de aulas de escrita ou seminários mais do que precisa deste ou de qualquer livro sobre escrita (...) Você aprende melhor lendo muito e escrevendo muito e as lições mais valiosas são as que você ensina a si mesmo.”
 
* *

Os capítulos finais falam do acidente que quase o matou em 99, atropelado pela van de Bryan Smith, e de sua dolorida recuperação, e de como voltar a escrever o ajudou (“escrever não é a vida, mas às vezes é um jeito de voltar a vida”); também há um capítulo sobre edição e revisão, em que ele mostra como cortar e enxugar frases, citando seu 1408, e uma lista de seus livros favoritos. O que eu não entendo é por que ainda não traduziram esse livro por aqui. Aliás, quando estava quase terminando de ler o livro em inglês, descobri que “Escrever – memórias do ofício” foi traduzido em Portugal. Mas enfim, decidi fazer este mix de resenha e publicar em meu blog errante. On Writing é um grande livro (que esta semana se tornou meu companheiro de mochila no bus), um dos preferidos da casa. Quem escreve tem que ler.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Projeto, Releitura, Impasse & Tolstoi

Depois de ter quebrado a cabeça na madrugada passada, e quebrar mais um pouco na tarde de inverno de hoje, tentando redigir objetivos e justificativas para o projeto da bolsa para tentar elaborar, concluir e colocar no mapa a história de Carol, neste blog errante de muitos acessos e poucos comentários, no intervalo para o chimarrão, deixo algumas dicas culturais. Não do que está acontecendo na cidade, que para isso temos outros blogs mais informativos, mas do que está acontecendo no escritório da Distant Thunders Administration no momento.

Em um dos mandamentos do Vizinczey, ali na resenha do post abaixo, ele falava para reler nossos livros favoritos continuamente, a fim de estudá-los e realmente compreendê-los. Pois que depois de dez anos comecei a reler meu clássico O Impasse. Li quando era adolescente, achei maravilhoso, e em 2002 li de novo, com a certeza de a narrativa ser mesmo muito boa. Vejo que com o passar dos anos minha admiração pelo texto não diminuiu. Também está na lista das releituras outro clássico, desta vez de Tolstoi, também lido há dez anos. Esta semana chega o Do que eu falo quando falo de corrida, e resolvi também reler Veríssimo, que também descobri em fins da adolescência, e foi a voz que me mostrou que a literatura podia ser cool.

Mas se você acessa este blog em busca de links de jazz, aqui vão as duas trilhas (por enquanto) desta segunda metade do ano, primeiro Chet Baker, e depois Cannonball Adderley, ao vivo em Nova York.

A cuia ronca, hora de retomar o trabalho.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Verdade e Mentiras na Literatura: Os Dez Mandamentos do Escritor

(Alguns dos) DEZ MANDAMENTOS DO ESCRITOR

1. Não beberás, não fumarás, nem usarás drogas

Para ser escritor, você precisa de toda massa cinzenta de que dispõe.

2. Não terás hábitos dispendiosos

Um escritor nasce do talento e do tempo – tempo para observar, estudar, pensar. Assim, você não pode se dar ao luxo de gastar uma única hora ganhando dinheiro para coisas supérfluas. (...) É preciso decidir sobre o que é mais importante, escrever bem ou viver bem. Não se atormente com ambições contraditórias.

3. Sonharás e escreverás, sonharás e reescreverás

Não deixe que ninguém lhe diga que está perdendo tempo olhando para o espaço vazio. Não existe outro modo de conceber um mundo imaginário.

4. Não serás vaidoso

A maioria dos livros ruins ficou assim porque seus autores tentaram justificar a si mesmos (...) Se você acha que é racional, sábio, bom, uma dádiva para o sexo oposto, uma vítima das circunstâncias, então é porque não se conhece o bastante para escrever.

5. Não serás modesto

A modéstia é uma desculpa para a preguiça, o desleixo, a autopiedade. Pequenas ambições evocam pequenos esforços. Nunca conheci um bom escritor que não estivesse tentando ser um grande autor.

6. Pensarás constantemente naqueles que são realmente grandes

“As obras do gênio são regadas com suas lágrimas”, escreveu Balzac, em As Ilusões Perdidas. Rejeição, escárnio, pobreza, fracasso, a luta constante contra as próprias limitações – esses são os principais acontecimentos na vida da maioria dos grandes artistas, e se você aspira a compartilhar com eles o destino deve se fortalecer aprendendo com eles.

8. Não adorarás Londres / Nova York / Paris

Frequentemente encontro escritores vindos de lugares remotos que acreditam que as pessoas que vivem nas capitais da mídia têm alguma informação especial sobre arte que eles mesmos não possuem (...) O provinciano é muitas vezes uma pessoa inteligente e talentosa, que acaba seguindo a opinião de algum jornalista ou acadêmico falastrão sobre o que constitui a excelência literária e trai seu talento (...) Mesmo que você more onde o vento faz a curva, não existe motivo para se sentir por fora. Se tiver uma boa biblioteca com brochuras de grandes autores e se os ler constantemente, você terá acesso a mais segredos sobre a literatura do que toda a mistificação cultural que dá o tom nas grandes cidades.


Os trechos acima são do livro Verdade e Mentiras na Literatura: Os Dez Mandamentos do Escritor (Ed. Autores Associados, 2011, 512 pgs.) de Stephen Vizinczey. A primeira vez que ouvi falar sobre os Mandamentos foi no começo de maio de 2007, quando estava perambulando por uma das lojinhas de Bariloche e encontrei um trecho deles em um livro chamado El Taller Del Escritor. Encontrei outros trechos dos Mandamentos na internet, em espanhol. Gostei tanto do texto que fiz uma citação no romance em que estou trabalhando, no capítulo inicial, quando o protagonista entra em uma livraria e vê um banner com “Os Dez Mandamentos do Escritor”, de Stephen Vizinczey, e já tinha publicado eles na versão antiga deste blog. Mas foi só neste ano, quando catei o blog de Vizinczey na internet e escrevi para ele, que ele em pessoa me disse que o livro tinha sido lançado no Brasil no ano passado, e que adoraria que eu descobrisse o livro em meu blog.

Vizinczey, que se considera menos um escritor do que um reescritor, trabalha constantemente seus textos. O livro é uma coletânea de resenhas e ensaios, escritos entre 1986 e 2010, encabeçados por seus perspicazes mandamentos, fluindo através de sua escrita precisa e sua imensa cultura histórica e artística, ainda mais se considerarmos que muitos deles foram escritos na época anterior a internet. Desde o Primeiro Mandamento, ele já deixa claro que a criação literária tem quase nada a ver com festas e noites de badalação, e sim com trabalho duro, perseverança e foco. Incita ao estudo e releitura constante dos clássicos, e o contato diário com a palavra. Para ele, ser escritor é como se dedicar à excelência em um instrumento musical: um dia sem praticar e a coisa vai embora. Tendo estudado na adolescência para ser maestro, aprendeu desde cedo o valor da disciplina e da constância. “Não deixarás passar um dia sem reler algo grandioso”, diz o Sétimo Mandamento. O estudo constante, diário, das obras-primas. O que faz a grandeza dos livros essenciais? Qual a sua estrutura, quais os mecanismos de suas vozes narrativas, como seus climas foram construídos? Vizinczey dá a dica: é preciso ler um bom livro pelo menos cinco vezes para realmente entendê-lo.

No Segundo Mandamento, ele nos conta que depois do fim da derrota da Revolução Húngara, foi para o Canadá sabendo apenas 50 palavras em inglês, e quando se deu conta de que era um escritor sem uma língua subiu até o topo de um edifício alto em Montreal com a intenção de saltar, mas perante o medo da morte, e mais ainda de ficar paralítico, decidiu em vez disso se tornar um escritor em língua inglesa. Foi aprendendo mais do idioma escrevendo roteiros, depois fundando uma revista literária e trabalhando na rádio como escritor e produtor. Pediu demissão e pagou do próprio bolso a publicação de seu primeiro livro (sem contar as três peças banidas anteriormente pelo regime comunista na Hungria), In Praise of Older Women, que foi a primeira e única novela com a publicação paga pelo próprio autor a atingir a lista dos best-sellers do Canadá. Vizinczey também fala sobre o poder destrutivo da crítica, o poder de vida e morte sobre quem deve ser lido e quem deve permanecer no ostracismo, dizendo que é preciso ter coragem moral para dizer que achou um lixo o que todos adoram, e louvar as qualidades de um texto que todos falam mal. É preciso ter coragem para pensar por si mesmo, para assumir suas escolhas. Como quando criticou o livro de William Styron que ganhou o Pullitzer, Confessions of Nat Turner, dizendo que é tão absurdamente equivocado sobre a natureza humana e a escravidão, sendo tão impensável um negro olhar para os senhores escravocratas como (mesmo que só alguns) sendo pessoas decentes quanto um judeu pensando o mesmo dos oficiais nazistas. E graças a esse texto ácido, a imprensa evitou resenhar ou mesmo comentar seu An Innocent Millionaire, que fez sucesso por mais de duas décadas em várias línguas, e quando o respeitado editor Lewis H. Lapham quis resenhar o livro em sua coluna no The Wall Street Journal foi vetado. E porque ele insistiu, foi demitido.

Também estão presentes na coletânea os dois trechos de Vizinczey, citados pela escritora madrilena Rosa Montero em seu A Louca da Casa:

Há dois tipos básicos de literatura. Um ajuda você a entender, o outro ajuda a esquecer; o primeiro ajuda você a ser uma pessoa livre e um cidadão livre; o outro ajuda as pessoas a manipular você. Um é como astronomia; o outro é como a astrologia.

E falando da diferença entre Stendhal e a maioria da ficção de outros autores (e que bem poderia ser a diferença entre o autor maduro e o escritor jovem); ele fala sobre nós mesmos quando está concentrado em si mesmo, ao passo que os outros escrevem sobre si mesmos até quando estão falando sobre outras pessoas.

Em Louvor das Mulheres Maduras e O Milionário Inocente estão fora de catálogo aqui no Brasil, mas este Verdade e Mentiras na Literatura é um belo panorama para conhecer o texto e as ideias de Vizinczey. E para quem quiser saber mais da editora, pelo Twitter ou Facebook:

http://twitter.com/jovem_leitor

http://twitter.com/editoraautores

http://www.facebook.com/autoresassociados

terça-feira, 1 de maio de 2012

Somos eternos enquanto estamos narrando

A gente pode ser Peter Pan o resto da vida, desde que produza com isso, desde que escreva, porque temos que justificar a nossa existência para a sociedade e o porquê de carregarmos essa agridoce esquizofrenia de estar sempre inventando coisas, lugares, pessoas, acontecimentos, mudando o real, seja lá o que for o real.

Para ser, temos que nos narrar, e nessa conversa sobre nós mesmos há muitíssima conversa fiada, nós nos mentimos, nos inventamos, nos enganamos. Nós inventamos nossas lembranças, que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos. Nossa identidade reside na nossa memória, no relato de nossas autobiografias. Os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de uma escrita que dura a vida toda e assumem o papel de protagonistas. Não se pode falar da invenção narrativa, sem se dar conta que a primeira mentira é o real.


E cita Stephen Vizinczey, que diz : “o autor jovem sempre fala de si mesmo, até quando fala dos outros; ao passo que o autor maduro sempre fala dos outros, até quando fala de si mesmo.”

Terminei agora A Louca da Casa, da escritora madrileña Rosa Montero, mistura de romance, ensaio e autobiografia. Fazia tempo que eu não ficava triste quando terminava um livro, com aquele gosto ruim de ter que dizer adeus. Mas pelo menos ficamos um pouco mais juntinhos, ao escrever estas palavras, e, como ela disse, somos eternos enquanto estamos narrando.

Quer um presente melhor para o Dia do Trabalho, ainda mais com o dia lindo de Outono que faz lá fora?

PS - Não esqueça de ver esta linda coleção de fotos para quem ama os livros, e uma homenagem aos livreiros.

sábado, 3 de março de 2012

Leituras em março & new jazz

Enquanto o minuano vem chegando devagarinho e provo novos cafés, começamos o mês em que tem início o glorioso outono, e hoje estreei o presente que ganhei com duas joias do new jazz: os bem interessantes Matthew Halsall e Austin Peralta. Mas tenho que deixar o som bem baixinho, pois já não bastava os livros que tinha na lista de leitura dos próximos meses, este março vem chegando com importantes aquisições literárias. Falando em jazz, temos na fita a biografia de Charles Mingus e, de volta à literatura, a biografia de Clarice. Ganhei hoje também mais um Llosa, e vou reler o Robôs, Bombas e Mutantes, que li quando tinha dez anos, e um dos livros da série O Executor, que sempre namorei na época que a revista do círculo do livro povoava minhas fantasias infantis, que foram o prenúncio da literatura que viria mais tarde. Tenho uma dívida eterna com as histórias de aventura, e tenho certeza que não escreveria hoje, e sobretudo não estaria escrevendo em um começo de madrugada de sábado, se não fossem aquelas histórias. Aliás, como lembrou Assis Brasil, nos idos de 99, no primeiro dia de oficina, quando eu disse que gostava de escrever aventura, as duas primeiras histórias do mundo ocidental são aventuras.

Mas isso tudo depois de terminar Rimas da Vida e da Morte, que está me fazendo pensar em uma voz mais sagaz para recontar a história de Carol, que aliás faz dias que não pego. E vou aproveitar para pesquisar no clássico acadêmico Aspectos do Romance, outro presente. Aquecendo os motores para terça, quando começo a nova oficina do Diego.

Enfim, muito trabalho pela frente.

E isso me deixa feliz.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Os Fantásticos Livros Voadores do Sr. Morris Lessmore

Estava eu preso frente à página em branco, tentando reescrever um flashback da história de Carol, quando fui ver os geniais Fantásticos Livros Voadores do Sr. Morris Lessmore.

E agora estou escrevendo de novo.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Turrentine e a Chuva

Chove lá fora. Para quem detesta verão e carnaval (like me), os trovões de Xangô vêm anunciar novos começos, pintados com lindos relâmpagos que transformam a noite em dia, e a esperança de baixar a temperatura e conceder um alívio à Forno Alegre. A trilha da semana, porque o jazz me faz sonhar com o outono, é Stanley Turrentine, que descobri recentemente, e me faz sentir cheiro de café no ar, visualizar uma cafeteira italiana, daquelas que o Bill gostava de passar, e escrever. Andei pintando um pouco mais o rosto de Naomi hoje, e também me alimentado com o belo Gracias por El Fuego, que tem me feito pensar.

A chuva diminui. A esperança fica. Novos começos nos aguardam, enquanto a semana engatinha.

Antes de sair, entretanto, não esqueça de visitar a livraria à noite.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Mais Palavra por Palavra

"Tente não ter pena de si mesmo quando a vida parecer difícil e solitária. Você parece querer escrever; então escreva. Você tem sorte de ser uma daquelas pessoas que desejam construir castelos de areia com palavras, que estão dispostas a criar um lugar onde a imaginação pode perambular. Construímos esse lugar com a areia das lembranças; esses castelos são nossas lembranças e nossa inventividade transformadas em algo tangível. Portanto, uma parte de nós acredita que, quando a maré começar a subir não teremos perdido nada, porque, na verdade, era só um símbolo que estava na areia. Outra parte de nós acha que vamos encontrar uma maneira de desviar o oceano. Isso é o que separa os artistas das pessoas comuns: a crença, arraigada em nosso coração, de que construímos bastante bem nossos castelos e que, de alguma forma, o oceano não vai destruí-los. Acho maravilhoso ser assim."

Anne Lammot, in: Palavra por Palavra, Ed. Sextante, pg. 210-211.

Primeiro post com computer novo - depois de dez anos, troquei de computador -, enquanto suamos aflitos na cidade-sorriso de Forno Alegre, no sempre horrendo verão. Semaninha começando. Andiamo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Palavra por Palavra

No fim de Oficina de Escritores há uma lista de leitura sobre livros falando sobre o ofício de escrever. Entre eles, um chamado Bird by Bird, que fala sobre as preocupações em ter confiança no difícil processo de produção de um texto, e parecido com “um programa de doze passos para a recuperação da auto-estima orientado por uma espécie de irmã mais velha que se levanta no meio da reunião e anuncia com voz forte ‘meu nome é Anne Lamott e sou uma escritora assustada.’ O livro revela como avançar – e continuar avançando – diante da dúvida, do autodesprezo, do pânico, da fúria competitiva, do desejo de fugir, da incapacidade de trabalhar, da convicção de simplesmente não ser capaz de escrever.” Li isso e pensei que não tinha como um livro desses ser ruim.

Pois que depois de terminar os dois cursos de formação neste mês (te mete!), e sabendo que o livro fora traduzido e editado por aqui, comecei a ler Palavra por Palavra, um saboroso passeio pelas angústias da criação. Tem algumas pérolas, tais como precisarmos escrever três páginas ruins de um esboço ruim para na quarta página o texto realmente começar a fluir. Anne diz que não existe fórmula mágica, a gente tem que sentar na cadeira (onde o processo realmente começa) e disciplinar o inconsciente para produzir em determinados horários, seja às seis da manhã ou às dez da noite. Ela assegura que a grande recompensa é a escrita em si e não a publicação. Mesmo quando seus primeiros livros ganharam edição a insegurança não diminuiu, e só no quarto livro começou a ganhar algum dinheiro – antes disso, era apenas uma escritora morta de fome. Escrever foi tudo o que restou à menina cheia de complexos e excluída desde sempre, que se considerava uma inútil em tudo, mas que herdou a paixão e a disciplina do pai, também escritor e leitor diuturno. Tornar-se escritora foi sua única saída, e sua redenção. Ela também fica irritada quando o telefone toca e está trabalhando (que bom que não sou só eu), mesmo que o trabalho no momento seja unicamente observar a tela em branco.

E estou recém no começo do livro.

Enquanto isso, temos a vida seguindo em frente e aquele gostinho de estar fazendo alguma coisa por ela em uma segunda-feira de manhã. Hoje com Lester e Oscar, que me fazem sonhar que este calor horrendo já se foi e hoje está um lindo dia de outono.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Namore uma garota que lê

Começando dezembro, leio o bonito texto sobre namorar garotas que leem, enviado pela minha Namorada que Lê.

Merci, Mademoiselle!