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sexta-feira, 3 de abril de 2020

Psicólogo & o beijo que mandei para o céu na formatura


Mês passado me formei psicólogo. Outro dia publico o texto explicando o contexto.

Por enquanto, curta aí o beijo que mandei para o céu e que a Fiergs levantou para aplaudir.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 190


1 de dezembro de 2015

21:25

A rainha perdida no alto do castelo volta à vida. Anoitece. Silêncio no asilo. Não tenho a menor ideia do que vou escrever – ninguém vai ler esta merda mesmo, para que se preocupar? Mas queria registrar que Cris saiu da ala das Meninas Que Voam Pelos Muros. Um dos médicos disse que não gosta da palavra “cura”, acho que mais ou menos como diziam – pelo menos vou escrever o que meu inconsciente dita neste instante – naqueles grupos que Claudius ia, que talvez a pequena Clara tenha ido, talvez Maria, a mãe, que sofria junto vendo o Sr. Doutor tomando uns traguinhos – mas ele não bebia. Ele voltou a beber depois de dez anos quando, em vez de cuidar de Maria, a mãe, internada em um hospital – parecido com este lugar onde estou, não posso deixar de mencionar – estava se divertindo com a cunhadinha jovenzinha, titia putinha que deveria ter cuidado da sobrinha. Lara.

Suspiro.

Sempre volto ao mesmo assunto: a pequena Clara. Sua mãe. Maria.

Maria, como eu.

Internada em um hospital. Como a doce Cris, que ficou na ala das Meninas Que Voam Pelos Muros.

Maria, a mãe, tentou se matar?

Meu deus, nunca tinha pensado nisso.

Será que foi isso que aconteceu naquele réveillon?

A pequena Clara também?

Sim, Lady Clara tentou. Meu deus, a coisa está voltando. Todos morrem no fim?

Como vim parar neste fim de mundo?

De novo, me volta o medo de enlouquecer.

O que soa irônico vindo de alguém neste fim de mundo.

Suspiro de novo.

Ouvi pelos corredores que Sarah está meio doente. Ela não ministrou a aula hoje. Fiquei na dúvida com aquele Lacan (quando acho que ela não pode vir com nada mais insano que o velho tarado, ela sempre dá um jeito de se superar), mas acho que ele falava em estádios do espelho, tipo assim: Clara vê outra Clara, Clara percebe que vê uma imagem de Clara, Clara percebe que vê a própria Clara. Mais ou menos assim. Quem diria, essas loucuras andam me contaminando, como se fosse possível piorar em um lugar desses.

Maria Psicanalista.

Meu deus, onde nós vamos parar?

Sei que Sarah, antes de adoecer, tinha liberado Cris para vir me ver. Aliás, talvez ela venha aqui daqui a pouco. Não entendi bem por quê, e se há mesmo um motivo (deve haver, esses psicanalistas do demônio não dão ponto sem nó), mas Sarah permite algumas regalias entre Cris e eu, tipo, visitas no quarto depois do horário permitido, jantar mais tarde, depois do horário oficial.

A história que não compreendo está se desenhando e ainda não consigo decifrar.

Penso em Lady Ballet, a pequena Daf. Tanta gente que entra e sai daqui e tenho dúvidas se elas existem ou são apenas frutos da minha imaginação, como talvez tudo o que escrevo trancada aqui. Dafne e sua novidade – estaria ela pintando como disse que ia fazer? Lembro que uma vez a Ballet falou em recaída, não sei por que lembrei disso agora. Todas temos coisas que queremos jogar fora, pensei agora. Coisas que entraram e devem sair. Vomitando ou escrevendo, que no fundo são a mesma coisa.

O Garoto Skinner.

Cheshire, que não vi mais em volta do chafariz, junto com Blossom e seu caderninho. Acácia, correndo de um lugar para outro.

Vou escrevendo e essa coisa que não consigo nomear – que pode ser dor, vazio, vida ou esperança – vai se ajeitando feito as melancias da carroça. Acho que é por isso que escrevo. Ainda não entendo qual a mágica que acontece que me faz cuspir, digo, vomitar essas palavras do de dentro de mim – e no fim algo acontece. Que pode ser uma luz, esperança, um sentido.

Um amor de mãe a espera de que sua pequena princesa volte.

Tenho vontade de chorar.

Mas sorrio.

Tudo é sobre ela. Sobre o piano. Sobre a chuva. Sobre o alto do castelo. O jardim, o chafariz. Um amor de mãe que jamais esquece a filha. Jamais abandona a filha.

Jamais abandona.

E resgata sua princesa das profundezas do pântano.

Uma mãe jamais abandona, jamais esquece.

Maria, mamãe linda.

Pequena Sweet Lady Clara.

Não sei mais o que escrever, mas sinto que cheguei mais perto hoje.

Um pouco mais perto.

De resgatar uma princesa.

21:55

domingo, 22 de novembro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 189


22 de novembro de 2015

00:50

Uma nova madrugada está começando.

Silêncio no asilo.

Silêncio fora, barulho no de dentro de mim.

Visitei Cris hoje. Fui até a ala das Meninas Que Voam Pelos Muros. Apesar do dia quente, ela estava com um moletom negro invertido e de chinelos. Perguntei como ela estava. Ela ficou feliz de me ver. Doce Cris. Ela me contou que as garotas de lá esticam as mãos para andarem de mãos dadas com ela, e nesse momento nós duas saímos caminhando. De mãos dadas, como ela gosta. Cris disse que algumas das Meninas Que Voam Pelos Muros gostam de olhar para ela e para elas entre si enquanto tomam banho, algumas das mesmas que gostam de andar de mãos dadas.

− Isso aqui é uma coisa muito lésbica, disse ela.

Caímos na risada.

Doce Cris. Perguntei se ela ainda pensava em voar pelos muros.

Ela disse que hoje não.

Quis levar ela de volta, mas sei que não posso. Não posso resgatar ela do de dentro de si, e talvez Cris tenha o mesmo problema que eu: ambas queremos encontrar nossa pequena Clara.

Minha filhinha linda, garotinha especial. Não mais linda como um corte no pulso, mas apenas: linda.

Em minha mente de pretensa escritora, imaginei Clara tocando o piano de Maria, a mãe. Clara tocando seu próprio piano, ou o piano que um dia seria seu. Maria ensinando ela a tocar, talvez começasse com parabéns a você, depois fosse para o Beethoven, não sei.

Cris disse que tem uma das Meninas Que Voam Pelos Muros, que havia ido para lá porque tentara se matar na prisão, que sempre chama ela de Monique. Meu nome não é Monique, ela disse várias vezes, mas acaba sempre sendo chamada de Monique. Lembrei na hora de quando Sarah, falando daquele Winnicott, disse que a gente tem que conversar com o falso self para saber como ele pensa. Quer dizer, a gente não, só os perturbados dos psicanalistas. Conversar com o falso self é conversar com a loucura, entrar na paranoia alheia. Disse isso para Cris e sugeri, para não puxar briga com a Menina Da Prisão, que se ela quisesse chamar ela de Monique, que deixasse.

− Que diferença faz? Aqui eu posso ser quem eu quiser. Estou num hospício.

Rimos de novo.

Se todo mundo soubesse como faz bem para a sanidade vir para um lugar como esse, pensei, acho que este lugar deveria ser maior. Aliás, enquanto passeávamos, vi uma vez mais como este lugar é imenso. Paramos ao lado de um barranco de concreto, passando por um estacionamento (acho que eles colocam ambulâncias lá), caminhando pelos verdes, as pedras, longes do chafariz que Cheshire adora. Como nunca reparei em nada disto? Apenas tinha uma vaga memória de um riacho lá embaixo, em algum lugar disso que parece uma floresta, mas que na verdade é cheio de jardins e bancos, onde também sentamos para conversar.

Fiquei com medo de Cris querer voar pelos muros de novo. Hoje ela não vai, disse. Ainda há esperança. Podemos encontrar nossa pequena Clara. Aquela criança linda que era a mais linda do mundo antes que a vida fizesse esse monte de merda que fez. Sim, a pequena Clara está nos esperando, esperando a todas nós, Garotas Com Fendas, Meninas Que Voam Pelos Muros, Meninas Da Prisão, Meninas Que Sonham. Todas sonhamos, então ninguém vai pular pelos muros. Estamos vivas.

Sonhamos.

Podemos voar.

Não pelos muros, mas pela estratosfera. Sobre as nuvens, rumo ao céu. Onde encontraremos nossa paz, mas antes dele encontraremos aqui: nesta terra, neste solo. Neste lado dos muros enquanto não chegamos do outro lado. Então não haverá mais muros. E seremos todas rainhas dos castelos de nossos reinos encantados. Rainhas eternas.

Soberanas.

Com sentido.

Rainhas felizes.

Rainha deste lado do paraíso, querida Cris.

01:15

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 186


20 de outubro de 2015

21:33

Antes que chova, vou escrever.

Tive outra das aulas que Sarah ministra sobre essa gente louca que ela adora, e hoje ela falou sobre uma tal de Mahler, que dizia que quando o bebê nasce está na fase autista, durante o primeiro mês de vida, e ele só se importa com seu mundo interno; do segundo ao quinto mês ele fica na fase simbiótica, que não sabe exatamente o que vem dele e o que vem de fora; e lá pelo quinto, sexto mês... O que acontece mesmo? Esqueci. Mas fico me perguntando: como essa Mahler sabia disso? Chegava para o bebezinho e dizia: “fale mais sobre isso...”?

De qualquer forma, se bem me lembro, ela disse que no primeiro mês de vida o bebê ainda está em um prolongamento da vida intra-uterina, tipo, ele vai se portando como se ainda estivesse dentro do quentinho, castelo todo-poderoso e seguro do útero.

Que nem esse onde estou, pensei agora.

Acontece que nunca consigo criar uma infância tão infância para o meu bebê, Lady Clara. Minha criança linda. Minha princesinha. A Garota Cheshire me levou para ver o temporal que inundou tudo esses dias e abalou as estruturas do paraíso, mas por algum milagre não derrubou nada aqui, tirando as árvores, talvez por esta ser uma construção antiga, um hospital antigo, um asilo antigo, um cemitério antigo, um campo para almas penadas antigo. Não importa, mas lembro que vimos os relâmpagos que transformaram em dia a noite, que riscaram o céu, e a Cheshire disse que era lindo aquilo.

− Muito foda, foi o que ela disse.

E depois acrescentou que tinha medo. Dafne me disse que aquela exposição de artes para a qual Sarah tinha nos convidado, Festival Garotas Com Fendas, vai ser adiada. Agora que até cogitei, no escondidinho do de dentro de mim, ou na posição autista da Mahler, recém chegando do útero, mostrar um pouco desse monte de bobagem que escrevo aqui, mas tudo bem. Talvez Sarah tenha intuído que ainda não estou pronta.

Ainda não estou pronta. É por isso que não termino esta merda de história.

Mas antes que comece a chover, eu que só escrevo quando chove, e disseram que vem outro dilúvio talvez ainda hoje, me veio uma imagem na cabeça. Não sei se é invenção ou algum fiapo que escapou da floresta do meu inconsciente.

Maria que olha pela janela em um dia de chuva.

Parece uma foto interessante.

Mas não é essa imagem a que me refiro.

Uma garotinha em um dia cinza.

Um dia cinza que chove.

Uma garotinha caminha sobre a água, em um dia cinza, lindo feito um corte no pulso. Lindo feito a vida que ainda pulsa.

Cris, doce Cris. Que quer viver mais um dia. Como eu.

Às vezes pensamos pensamentos ruins. Queremos passar para o outro lado, e então decidimos ficar. Não podemos cruzar a ponte e depois decidir voltar atrás. Por isso não vamos.

Ficamos por aqui. Hoje.

Uma garotinha em um dia cinza, caminhando pelo verde da grama. Emolduradas pelo cinza do dia. Pelo cinza da vida. Maria Melancólica. Mas Maria Que Vive.

A pequena Clara que gostava de se atirar nas poças de água e escorregar pelas águas sobre as gramas, feito um bote rumo ao outro lado. Longe da dor. Me arrepio quando escrevo, mas de novo: não consigo parar. Não podemos passar para o outro lado, Cris. Não podemos, garotas. Temos que ficar aqui e fazer o melhor com isso que sobrou da vida – e se é isso que se chama esperança, então somos esperançosas. Talvez tenha sobrado muito mais do que consigamos ver. Dafne e sua novidade. Cheshire e sua risada. Tanta gente que entra e sai, e não sei como elas entram, nem saem.

Sabby, Acácia, Blossom. O Garoto Skinner. A Srta. Vygotsky. Sarah, a Sarah que sara.

Escrevi tudo isso e nem toquei no homem alto e moreno de cabelos lisos, Maldito Doutor Abusador. Talvez ele esteja morrendo dentro de mim.

De dentro dessa história.

Que espera a próxima chuva. Assim como aquela garotinha linda, a Menina Mais Linda Do Mundo espera. Um passeio pela chuva, por que não?

Talvez esta história termine em um dia de chuva.

E ninguém morra.

Mas sei que Clara vai passear, e sim: ser feliz.

22:01

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 184


Quinta-feira, 1 de outubro de 2015

23:03

− Nossa estrutura tem marquinhas como em um cristal, disse Sarah.

Era outra de suas explanações em nossa pequena sala de aula. Pelo menos aquele dia me pareceu pequena e – não posso deixar de registrar que pensei isto – aconchegante. De novo ela voltava a citar o velho tarado, o messias dela, e acrescentou: − Se a estrutura for frágil, ela pode ruir.

Tive uma vontade de chorar, mas foi só um segundo, tipo um sopro, um cochicho, um espirro de melancolia, e imaginei tudo isso que me rodeia ruindo, como teias de aranha ou cacos de um vaso que se quebrou e não pode ser consertado, um castelo de cartas talvez esperando esse sopro do qual falei.

Estou cansada. Nem sei por que decidi escrever nesta merda de novo.

Não sei. Não gosto de escrever. Não gosto porque dói.

Mas também não consigo parar.

Acho que as provocações de Sarah são apenas para eu começar a escrever. Porque ela sabe que não vou parar depois de colocar a primeira letra, a primeira palavra, as frases que vão sendo vomitadas de dentro de mim.

De dentro de mim.

Onde está a resposta.

Malditos psicanalistas. Sarah conseguiu me infectar.

Então ela disse na aula que estava pensando em fazer uma feira das artes, um salão do sonho. Isso depois de ela dizer que essas pessoas que escrevem vivem permanentemente em dois mundos, e por “essas pessoas”, suponho, ela se referiu a mim, porque me olhou de soslaio quando disse isso, e citou aquele Winnicott, do sou-eu-mas-não-sou-eu, e falou em um tal de espaço transicional, que para os artistas é matéria, mas também é sonho.

Um sonho bom, pensei. Um sonho sem dor.

Meu deus, sem dor.

Então ela falou nesse salão que ela talvez faça e cada uma de nós tinha que aparecer com algo que soubesse fazer bem. Qualquer coisa. Mesmo que fosse um sonho.

Lady Ballet disse que poderia tentar dançar. Uma dança, por que não?

Lady Brownie disse que faria seus brownies. Com cheiro de infância, lembrei.

Dafne disse que poderia pintar. Que inclusive tinha pinturas novas. E uma novidade.

Blossom disse que poderia citar um pensamento. Uma citação de Nietzche.

A Garota Cheshire disse que traria ela mesma.

E riu.

Minhas irmãs de asilo foram conversando e suas vozes foram ficando distantes, e já nem sei se aquela sala era pequena, embora me tenha parecido naquele momento, e elas foram para o corredor, e não vi mais nada, fui apenas caindo dentro de mim.

Será que Sarah espera que eu fale da minha história para uma plateia?

Se eu não estivesse tão cansada, talvez me arrepiasse. Talvez chorasse.

Então, mesmo cansada, me arrepio.

Talvez sorrisse.

Talvez cantasse.

Que bom que pelo menos isto que estou escrevendo agora ninguém vai ler.

Não sei, acho que nunca soube, o que sentir.

Penso no pátio lá embaixo. Escuro. Deserto. Se Cris estivesse por aqui, talvez fugíssemos para um passeio. Talvez, não sei.

Mostrar minha história? Que nem é uma história, não é nada, mostrar esta merda?

Mostrar Claudius, aquele filho da puta miserável? Lara, aquela vadia?

Mas então temos Jonas, que talvez fosse um bom irmão, mesmo – tenho pensado nisso – ele também vivendo dentro de seu mundo, e talvez só lá. Temos Marcos, que defendeu Clara, quando Claudius quis que ela bebesse, e ele bebeu em seu lugar. Temos a pequena Clara.

Minha menina linda.

E temos Maria.

A mãe.

Não sei se suficientemente boa, e não quero pensar nisso agora.

Temos Maria.

Maria como eu.

Minhas meninas.

E talvez elas mereçam uma outra chance de voltarem a vida.

Voltarem? É só uma historinha que inventei.

Mas estamos sempre em dois mundos, Sarah, você tem razão. Maria, a mãe, precisa viver, nem que seja em minha historinha. Clara precisa viver.

E com ela, eu também.

Meu deus, eu também.

23:31

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 183



Quinta-feira, 24 de setembro de 2015

21:44

Chove, choveu tanto, chove todos os dias.

Não agora, mas choveu hoje.

E ela veio pelo corredor e me segurou pela mão enquanto eu olhava pela janela. Virei para o lado, assustada.

− Pensei em voltar a dançar. A fazer os passos que eu fazia. Se a Brownie pode sonhar em caminhar, eu também posso sonhar com minha poesia.

Era Lady Ballet. Ela estava com ar diferente, talvez porque ande enamorada, mas acho que era algo mais. Notei um fundo de melancolia, o mesmo que noto em todas nós, garotas com fendas, e ela apontou para a chuva.

Tive vontade de chorar.

E por isso mesmo, sorri.

Entendi naquele momento que ela estava esperando eu vir para minha cela e escrever. Sangrando, sorrindo, dançando, amando, odiando e tudo mais que viesse pelo caminho, porque cada vez que escrevo vêm mares revoltos – mas que às vezes acabam em lagoas tranquilas.

Prometi a ela que iria escrever hoje, porque estava chovendo, e quando chove, sabemos, cúmplices: escrevo. A Garota Cheshire também é minha cúmplice. Mesmo que não a tenha visto ultimamente, e nem sei se ela ainda está neste asilo, porque personagens entram e saem daqui, de mim, de todas nós, mas cada vez que olho para o chafariz lá embaixo lembro da garota que é mais sorriso do que garota, a risada que é a própria encarnação da loucura e da beleza que ronda por esses corredores.

Então sei que tenho que escrever.

Não só por isso, mas também porque a dor voltou. Ou Dor, maiúscula de respeito. Ela volta cada vez que paro de escrever esta história que corre atrás do próprio rabo.

Que procuro a pequena Lady Clara.

E não encontro.

Mas sei que ela está lá. Estamos todas, perdidas dentro de mim, e isso pode significar flertar com a loucura neste lugar onde somos todas...

Normais.

Sei que Sarah falou em um tal Winnicott, um papo muito louco de falso self e verdadeiro self, que é mais ou menos assim: sou eu, mas não sou eu. Ou não sou eu, mas sou eu. Talvez nessa frase que escrevi assim sem pensar, como tudo o mais nestas palavras que ninguém lerá, esteja o coração de tudo que procuro. A resposta daquela família de dores, abusos e alguns amores que acabaram se perdendo. Maria, a mãe, Clara, Jonas, o irmão que era considerado estranho, muito quieto. Seria ele autista? Teria ele ficado assim depois de uma ou várias surras de Claudius, Dr. Filho Da Puta? Dr. Abusador, Dr. Maldito Seja, Dr. Queime No Inferno?

Sou eu, mas não sou eu.

Não sou eu, mas sou eu. Talvez esteja aí o coração desta história de merda.

Balanço a cabeça, mas ela não está doendo, não agora. Sou a rainha todo-poderosa no alto de meu castelo. No reino das meninas com fendas.

Lindas e doídas.

Sei que esse Winnicott também falava de uma mãe suficientemente boa. É claro que quando ouvi Sarah falando isso, provavelmente mais uma de suas charadas psicanalíticas, pensei, porque isso ainda me faz revirar na cama de madrugada: Maria, a mãe, foi suficientemente boa?

Ó, Maria você foi?

Será que a melhor mãe do mundo foi suficientemente boa?

Será que ela poderia ter parado o que aconteceu com Clara? Com Jonas, que também era seu filho? Suspiro.

Maria, mãe suficientemente boa. Sou eu, mas não sou eu. Talvez aí esteja a chave. Algo está para acontecer. Hoje quando parou a chuva, fiquei olhando aquele céu cinza, branco, sem cor, lindo, feito uma explosão nuclear. Talvez essa história termine em um dia de chuva. Talvez em um incêndio. Talvez, ó meu deus, em um incêndio e um dia de chuva.

A luz que nos cegou a todas.

Mas não importa. Suspiro uma vez mais. A dor está indo embora. O texto, cujo sentido jamais descubro, vai se mostrando para mim. Para você, que talvez me leia quando durmo ou me distraio.

Maria, mãe suficiente boa.

Obrigado, Sarah.

22:09