Quase no fim do mês das vocações, a internet foi pro espaço de novo, uma ex-colega minha morreu esta semana, minha progenitora foi para o Leste Europeu hoje e amanhã teremos, quem diria, entrevista para emprego em outra cidade. Enquanto isso, um pouco de ficção para matar as saudades, outro conto da Isis:
Knoc, knoc, bateram na porta de Isis. Detestava o som de porta batendo, knoc knoc, não ia atender. Sempre nas horas erradas, nunca quando mais se sentia sozinha e queria companhia. Podia ser alguma coisa importante, não, devia ser o vizinho altista querendo vender seus quadros pintados com a boca, ou então mais uma conta, knoc knoc. Isis levantou da cadeira, passo rente ao chimarrão que pretendia tomar e entrar em contato com o Deus Vazio, e caminhou até a porta da sala. Suspirou, tentando não parecer irritada por emergir do fluxo constante de pensamentos nos quais estava mergulhada. Esboçou sua cara de paisagem e abriu a porta.
— Oi.
Era a Bebel Puft.
— Oi, Isabel, disse Isis, com ares de surpresa.
— Posso entrar?
Isis deu espaço para que a mulher grande que no dia anterior a tratara tão mal pudesse entrar. Perguntou se ela queria sentar, Isabel disse que não. Disse que ia ser direta. Isis colocou a mão por sobre o estômago mais uma vez. Aquela frase nunca era seguida de coisa boa, mas Isis não tinha mais como fugir. Estava em sua própria casa, e não podia sair correndo pela porta da frente. Ou podia? Seria uma boa ideia, talvez a impedisse de ouvir o que ela temia ouvir, mesmo que não tivesse a menor ideia de por que Isabel a estava visitando, ela que jamais vinha em sua casa.
— Acho que eu não fui legal com você ontem.
Isis disse que tudo bem, às vezes a gente tem uns dias meio estranhos mesmo.
— Tem uma coisa que eu queria dizer.
Isis trancou a respiração. Aquela frase também não era prenúncio de boas novas.
Geralmente não era.
— Lembra do Marcos?
Os polos dentro de Isis se deslocaram.
— Qual Marcos ? perguntou ela, com naturalidade.
— O seu ex.
Isis fez que sim, ainda com naturalidade.
— Sim. Foi o último homem com quem fiquei, antes de me tornar – como você me chamou ontem? – sapata.
— É verdade que vocês eram noivos, estavam até com o casamento marcado?
Isis disse que sim, mas aquilo fazia muito tempo.
— Vocês acabaram por que ele ficou com a Marylin, não foi?
Isis sorriu, disse que nem lembrava direito. Perguntou se Marylin era uma loirinha. Isabel disse que sim, a rainha do colégio. Isis, com desinteresse, disse que tinha se lembrado, é, foi por causa disso mesmo.
— Tem uma coisa que você precisa saber.
— A Marylin é lésbica?
Isabel fez que não. Estava com expressão grave. Ela caminhou de um lado ao outro da sala, percorrendo o olhar pelo sofá branco, talvez na tentativa de encontrar as palavras para dizer o que viera ali para dizer.
— O que foi? A Marylin morreu?
Isabel fez que não, ainda hesitando. Disse que tinham feito uma aposta. Ela e as gurias, as gurias da fotografia que Isis tinha ido procurar em sua casa, no dia anterior. Isis perguntou que aposta.
— Que Marylin não seria capaz de beijar o Marcos, um beijo de cinema, na hora em que ele estivesse esperando você sair do colégio.
Um instante de silêncio.
— Quer dizer que ela não era amante dele?
— Não.
Isis passeou os olhos pelo tapete da sala. Deu de ombros. Disse que bem, aquilo tinha sido há muito tempo, era passado, não tinha mais importância. Então perguntou se Isabel aceitava um chá, ela disse que sim, e Isis foi até a cozinha, colocou água na chaleira e a pousou sobre o fogão, que fez uma coroa de fogo embaixo dela, e Isis pediu licença, disse que precisava ir ao banheiro. Antes de entrar ali, olhou para o quadro O Grito na parede do corredor. Então trancou a porta, com cuidado para não ser ouvida. E finalmente entendeu o que Edvard Munch quis dizer. Isis não tinha voz, colocou a mão sobre as têmporas e quis gritar tão alto que as paredes a seu redor iam se entortar, derreter com sua fúria, num lago de fogo, tal qual inundadas por um vulcão, a lava da raiva e da dor, malditas sejam, filhas da puta, arruinaram sua vida por causa de uma aposta estúpida, e para quê? por que tudo aquilo? E Isis se curvou, também queria se atirar da ponte, mas não havia ponte, apenas o banheiro e seu espaço de cápsula, nada além daquela gorda nojenta a esperando na sala. Também era um personagem andrógino querendo gritar, porque Isis era homem, era mulher, mas se fez de mulher andrógina porque passou a vida a odiar os homens depois de depositar a promessa de uma vida, o sonho de casar e ter sua própria família, nas mãos do homem que a estava traindo com a Rainha do Baile, a putinha que todos no colégio queriam, e todos no colégio, ou todas – invejosas, recalcadas, assassinas – estavam rindo da sua cara, da sua ingenuidade: se derreter por um homem que estava colocando galhos e mais galhos em sua cabeça, uma vida que acabou antes de começar. E agora, depois de anos, ela descobre que seu ex-noivo, ex-quase-marido, ex-futuro-pai-de-seus-filhos, que jurou pela memória de sua vó que jamais a tinha traído, aquele cara: era inocente. As pessoas apagadas que estavam observando o personagem de longe provavelmente eram as suas amigas, rindo de sua cara ao observarem sua miséria a distância.
Isis saiu do banheiro e colocou a água, quase fervendo, na xícara. Colocou as ervas do chá a boiar e pegou um prato para cobrir o vapor e impedir que as propriedades medicinais fossem embora. Um laxante com gosto de hortelã, tiro e queda. Depois de alguns minutos, tirou o prato e, com cuidado uma vez mais para não fazer barulho, cuspiu sobre o chá e mexeu com a colher. Levou a xícara para a sala, perguntando a Isabel se ela preferia açúcar ou adoçante, ao que ela respondeu:
— Adoçante. Não quero engordar.
Isis sorriu e esticou a xícara para ela, o adoçante e a colher. Isabel tomou o primeiro gole. Agradeceu pelo chá.
— Então, sem ressentimentos? perguntou ela.
— Claro, sorriu Isis. Sem ressentimentos.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Pra quem acha que legalizar é o canal
Começando agosto, não encontrei o relatório do governo holandês, que disse não saber mais o que fazer com a maconha, já que o uso continua crescendo, continua havendo tráfico e violência por lá, assim como não encontrei o outro documento mostrando que 70% das pessoas com esquizofrenia já fizeram uso de maconha, ou que 1% dos usuários de maconha têm ideação suicida (considerando que 1% de todas as pessoas têm ideação suicida, 1% é muita gente).
De qualquer forma, achei um interessante artigo de quem esteve lá. E para quem ficou deslumbrado com o filme de nosso ex-presidente feito claramente porque sua popularidade estava em baixa, sugiro a leitura de quem realmente entende do assunto dizendo que a história não é bem assim.
De qualquer forma, achei um interessante artigo de quem esteve lá. E para quem ficou deslumbrado com o filme de nosso ex-presidente feito claramente porque sua popularidade estava em baixa, sugiro a leitura de quem realmente entende do assunto dizendo que a história não é bem assim.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Opus N.º 3 & Dream Theater
Na madrugada de hoje, enquanto tentava dormir, ainda mais que hoje tivemos o primeiro dia de new job all day long, estava pensando em escrever sobre o tal relatório do governo holandês, e achei oportuno depois que morreu a Amy para a rapeize ver que o papo é bem mais sério do que se imagina. Mas hoje, como o tempo está curto, posto um conto das antigas, hoje com a trilha que o inspirou. Como em página de livro de papel não tem música, acabei deixando o conto com a primeira estrofe da música como epígrafe. Mas como estamos na terra dos links, fui pesquisar e descobri que o Dream Theater está de música nova. Entretanto, o que me inspirou a escrever o conto, foi a maravilhosa versão de To Live Forever em Tokyo, e um dos solos mais lindos já tocados ao vivo, que por mim validaria uma estátua para o Petrucci. Ouça a primeira parte, depois a segunda parte, e boa leitura:
OPUS N.º 3
If I started from the top
And worked my way down
There’d be no reason
To live forever.
To Live Forever, DREAM THEATER.
Sonhei com este dia. Entrar pela primeira vez naquele prédio sem estar embriagado e com um motivo palpável – e pela primeira vez ela tomaria conhecimento de minha presença. Entretanto, jamais imaginei entrar ali a serviço.
Quando chegamos, o estrago já estava feito. O fogo havia se alastrado por toda a construção. No lado direito, terreno baldio; no esquerdo, uma quadra de futebol de cimento. As demais casas da quadra dispunham-se quase coladas entre si, mas a uma distância segura do prédio. Já era um começo.
A pintura da cena compunha-se da estética das labaredas seduzindo o concreto, incitando-o a tombar no chão. Emoldurada pelo céu marinho-cinza-negro que só observava. Gritaria da multidão. Delimitar território, sempre tenho que dizer a mesma coisa? Piromaníacos cercavam o lugar, fascinados. Notei o pavor nos olhares de cada mãe e pai, cujos filhos haviam permanecido trancafiados nos apartamentos para evitar acidentes. Que ironia idiota. E posso jurar que nenhum daqueles novatos, pobres criaturas normais, estava mais verdadeiramente desesperado do que eu, com todos esses anos de experiência.
Entrei correndo no prédio, enquanto os soldados recém-chegados colocavam-se em posição. A escada nunca chega a tempo. Fui sozinho, ignorando qualquer racionalidade ou senso de trabalho em equipe. Percebi logo que o caminho era mais combustão do que material. Tentei me desviar dos objetos que vinham caindo. No percurso, fui contemplando o inferno a minha volta. Aquelas paredes que guardavam o meu segredo.
Pensei ter ouvido o fim do mundo, mas era apenas um extintor explodindo atrás de mim, perto das escadas. Não tenho o costume de rezar, mas naquela hora gritei para Deus não deixar desabar o prédio. E então, o corredor veio abaixo. Prossegui, pulando sobre as ferragens destroçadas que compunham o único caminho para chegar ao meu objetivo ou a qualquer outro naquele labirinto em chamas. Quarenta e cinco, quarenta e cinco. Ao me dependurar em uma das ferragens, segurei com força o metal. Sem luvas. Achei que ia derreter, não o ferro, mas minha mão. Caí de costas, o ar já raro se foi por completo. Uma dor forte demais para não ser fatal golpeou meu corpo. Levantei e as paredes esbarraram em mim. Quanto tempo ainda teria? Quarenta e cinco, quarenta e cinco.
O céu lá fora despencando, o prédio ali dentro também. O terceiro andar foi pior. Cortina de Fogo, a língua do dragão. Mais escadas. Ao segurar o corrimão, guiando o corpo para não ruir junto da arquitetura a minha volta, constatei que minhas mãos não possuíam mais pele. O ferro é um ótimo condutor de calor.
Olhos embaçados. Ardentes e ardidos. Quarenta e cinco, deus do céu!
A nuvem de fumaça fez o tempo parar. Não estávamos realmente ali. O mundo se transformara em um imenso fotolito amarelo e vermelho. Um animal gritando como a querer ser ouvido na estratosfera veio em minha direção. Desviei, lançando-me uma vez mais ao chão. Era mais fogo do que carne e pele. Por meio segundo senti pena dela. Acho que era uma adolescente loira, mas que diferença faz a cor? Ao girar meu pescoço, vi dois braços e duas pernas incandescentes saltando pela janela. Quarenta e um... Quarenta e dois, quarenta e três. Arrombei a porta. Estava jogada num canto, perto do sofá da sala. E tudo que vi quando olhei para ela foi:
— Fogo.
Peguei-a em meus braços – como fazem os heróis – e a levei. Ela tossia muito, duvido que dispusesse de suas plenas faculdades mentais. Seu corpo estava quente. O meu também. Voltei com ela, não lembro detalhes.
Transpassei aquilo que um dia foi a porta de entrada do edifício. O fotolito mudara de cor. Voltei a ter contato com o ar. Uma parede de oxigênio investiu contra meu corpo, uma represa destruída desaguando sobre a terra seca e quebrada. Comecei a chorar. Imperceptível, mas um choro é sempre um choro. Levaram-na para a ambulância e lá permaneceu. Eu, tombado.
Quando voltei a mim, o prédio já estava no chão. Consegui me levantar e me aproximei da ambulância. Ao chegar perto, ela me olhou agradecida. Salvei sua vida, podia pedir o que quisesse. “Um jantar?”, pensei ter ouvido. Como se tivesse lido minha mente, ela mordeu o lábio inferior e continuou a me olhar, esperando uma reação. Teria ela percebido alguma coisa? Visto-me algum dia pela janela de sua sala, agora um amontoado de cinzas? Bêbado? Bêbado, claro. Senti um frio imenso, maior que tudo. Ela me conhecia.
Abri a boca para balbuciar qualquer bobagem que – tinha certeza – seria correspondida. Ela aguardou. Quis. Uma mão forte me puxa pelo ombro e aponta o caminhão vermelho que já está partindo. Os últimos soldados sobem. Mais trabalho. Sirenes ligadas, a do caminhão e a da ambulância que parte apressada. Sem um abano sequer. Tanta luta, tanto ensaio, tantas noites e para quê? Entro no caminhão sem pele nem alma. O homem grita, ninguém ouve. Quem sabe no próximo incêndio?
OPUS N.º 3
If I started from the top
And worked my way down
There’d be no reason
To live forever.
To Live Forever, DREAM THEATER.
Sonhei com este dia. Entrar pela primeira vez naquele prédio sem estar embriagado e com um motivo palpável – e pela primeira vez ela tomaria conhecimento de minha presença. Entretanto, jamais imaginei entrar ali a serviço.
Quando chegamos, o estrago já estava feito. O fogo havia se alastrado por toda a construção. No lado direito, terreno baldio; no esquerdo, uma quadra de futebol de cimento. As demais casas da quadra dispunham-se quase coladas entre si, mas a uma distância segura do prédio. Já era um começo.
A pintura da cena compunha-se da estética das labaredas seduzindo o concreto, incitando-o a tombar no chão. Emoldurada pelo céu marinho-cinza-negro que só observava. Gritaria da multidão. Delimitar território, sempre tenho que dizer a mesma coisa? Piromaníacos cercavam o lugar, fascinados. Notei o pavor nos olhares de cada mãe e pai, cujos filhos haviam permanecido trancafiados nos apartamentos para evitar acidentes. Que ironia idiota. E posso jurar que nenhum daqueles novatos, pobres criaturas normais, estava mais verdadeiramente desesperado do que eu, com todos esses anos de experiência.
Entrei correndo no prédio, enquanto os soldados recém-chegados colocavam-se em posição. A escada nunca chega a tempo. Fui sozinho, ignorando qualquer racionalidade ou senso de trabalho em equipe. Percebi logo que o caminho era mais combustão do que material. Tentei me desviar dos objetos que vinham caindo. No percurso, fui contemplando o inferno a minha volta. Aquelas paredes que guardavam o meu segredo.
Pensei ter ouvido o fim do mundo, mas era apenas um extintor explodindo atrás de mim, perto das escadas. Não tenho o costume de rezar, mas naquela hora gritei para Deus não deixar desabar o prédio. E então, o corredor veio abaixo. Prossegui, pulando sobre as ferragens destroçadas que compunham o único caminho para chegar ao meu objetivo ou a qualquer outro naquele labirinto em chamas. Quarenta e cinco, quarenta e cinco. Ao me dependurar em uma das ferragens, segurei com força o metal. Sem luvas. Achei que ia derreter, não o ferro, mas minha mão. Caí de costas, o ar já raro se foi por completo. Uma dor forte demais para não ser fatal golpeou meu corpo. Levantei e as paredes esbarraram em mim. Quanto tempo ainda teria? Quarenta e cinco, quarenta e cinco.
O céu lá fora despencando, o prédio ali dentro também. O terceiro andar foi pior. Cortina de Fogo, a língua do dragão. Mais escadas. Ao segurar o corrimão, guiando o corpo para não ruir junto da arquitetura a minha volta, constatei que minhas mãos não possuíam mais pele. O ferro é um ótimo condutor de calor.
Olhos embaçados. Ardentes e ardidos. Quarenta e cinco, deus do céu!
A nuvem de fumaça fez o tempo parar. Não estávamos realmente ali. O mundo se transformara em um imenso fotolito amarelo e vermelho. Um animal gritando como a querer ser ouvido na estratosfera veio em minha direção. Desviei, lançando-me uma vez mais ao chão. Era mais fogo do que carne e pele. Por meio segundo senti pena dela. Acho que era uma adolescente loira, mas que diferença faz a cor? Ao girar meu pescoço, vi dois braços e duas pernas incandescentes saltando pela janela. Quarenta e um... Quarenta e dois, quarenta e três. Arrombei a porta. Estava jogada num canto, perto do sofá da sala. E tudo que vi quando olhei para ela foi:
— Fogo.
Peguei-a em meus braços – como fazem os heróis – e a levei. Ela tossia muito, duvido que dispusesse de suas plenas faculdades mentais. Seu corpo estava quente. O meu também. Voltei com ela, não lembro detalhes.
Transpassei aquilo que um dia foi a porta de entrada do edifício. O fotolito mudara de cor. Voltei a ter contato com o ar. Uma parede de oxigênio investiu contra meu corpo, uma represa destruída desaguando sobre a terra seca e quebrada. Comecei a chorar. Imperceptível, mas um choro é sempre um choro. Levaram-na para a ambulância e lá permaneceu. Eu, tombado.
Quando voltei a mim, o prédio já estava no chão. Consegui me levantar e me aproximei da ambulância. Ao chegar perto, ela me olhou agradecida. Salvei sua vida, podia pedir o que quisesse. “Um jantar?”, pensei ter ouvido. Como se tivesse lido minha mente, ela mordeu o lábio inferior e continuou a me olhar, esperando uma reação. Teria ela percebido alguma coisa? Visto-me algum dia pela janela de sua sala, agora um amontoado de cinzas? Bêbado? Bêbado, claro. Senti um frio imenso, maior que tudo. Ela me conhecia.
Abri a boca para balbuciar qualquer bobagem que – tinha certeza – seria correspondida. Ela aguardou. Quis. Uma mão forte me puxa pelo ombro e aponta o caminhão vermelho que já está partindo. Os últimos soldados sobem. Mais trabalho. Sirenes ligadas, a do caminhão e a da ambulância que parte apressada. Sem um abano sequer. Tanta luta, tanto ensaio, tantas noites e para quê? Entro no caminhão sem pele nem alma. O homem grita, ninguém ouve. Quem sabe no próximo incêndio?
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quarta-feira, 20 de julho de 2011
Working Man
Pois que alguns minutos depois de postar o texto abaixo, a internet e o telefone aqui do Pombal Palace foram para o espaço de novo, e essa chuva diária não contribuiu em nada para voltarmos aos trabalhos internéticos. De volta ao batente, glória ao Pai, esse julho tem me saído melhor que a encomenda. Na semana retrasada, tivemos cinco dias maravilhosos de Curso de Inverno (de atualização), e fiquei muito tentado a escrever sobre o relatório do governo holandês, o que talvez faça em um futuro próximo. E então, há uma semana, soube da possibilidade bem real de um de meus trabalhos (aquele que tem horário para entrar e sair) se tornar efetivamente um emprego (desses com horário para entrar e sair), o que aconteceu sexta-feira passada. É claro que meu tempo diminuiu consideravelmente, mas se lembrar dos mais de 30.000 que conseguiram escrever um romance em um mês no ano passado, se eu tiver disciplina, dá pra seguir produzindo literatura.
Não sei se é coincidência de inverno, mas durante a redação da maior parte de meus últimos textos, estava chovendo – como está chovendo agora enquanto escrevo. Não importa. A vida segue em frente. Tentando manter o foco e a perseverança para equilibrar os pratos da literatura e administrar o tempo, porque agora they call me the working man.
Não sei se é coincidência de inverno, mas durante a redação da maior parte de meus últimos textos, estava chovendo – como está chovendo agora enquanto escrevo. Não importa. A vida segue em frente. Tentando manter o foco e a perseverança para equilibrar os pratos da literatura e administrar o tempo, porque agora they call me the working man.
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quarta-feira, 13 de julho de 2011
Dia Mundial do Rock
Depois de alguns dias com os cabos desplugados por aqui (leia-se: sem internet), no Dia Mundial do Rock, como a lista das preferidas dos famosos está meio levezinha, homenageamos os deuses do rock and roll com a melhor banda do universo, direto do mesmo ano em que aconteceu o Live Aid, de onde saiu o dia de hoje.
Em breve, leitores-fiéis e anônimos: e-mails respondidos, novas mensagens, posts & um pouco de literatura.
Up the irons.
Em breve, leitores-fiéis e anônimos: e-mails respondidos, novas mensagens, posts & um pouco de literatura.
Up the irons.
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segunda-feira, 4 de julho de 2011
Nassar & Sinopses
Um ano depois da morte de meu pai, em 61, me desliguei de fato dos negócios da família, tinha um projeto literário, que eu não trocava por nada. Me espanto ainda agora com o vigor daquele meu projeto, que me levou a abandonar a faculdade de Direito no último ano, me levou a me desinteressar da carreira universitária e me levou a me desinteressar de um negócio incipiente mas próspero, pra não falar de outras coisas que abandonei, essas sim doidas.
Raduan Nassar, entrevista a Edla Van Steen. In: Viver & Escrever – vol. 2. Ed. Lpm.
No dia mais frio do ano, lembro que Caio F. dizia que esta é uma cidade de verões amazônicos e invernos russos, e comecei hoje uma semana de seminários & estudos all day long aqui em São Petersburgo Alegre. Antes disso, semana passada, descobri o mundo mágico das sinopses, e comecei o longo mas prazeroso processo de reescrever um livro. No capítulo sobre Trabalhar e Retrabalhar, na minha oficina preferida, Stephen Koch aconselhava a fazer uma sinopse depois de terminar a primeira versão de um livro, e sugeria fazer uma sinopse por dia, até ter a história compacta, presa em uma cápsula. É um exercício muito legal sobre casar acontecimentos e reviravoltas dentro da narrativa, pensar melhor a relevância de certos personagens e certos diálogos. O grande desafio é recontar uma história que levou três anos e meio para ser escrita, mas como seria contada hoje. Escrevi duas sinopses em dois dias, e pretendo escrever mais nos próximos. Conforme o tempo permitir, claro. E jogar com o tempo para continuar lendo meu primeiro Faulkner, que já percebi ser uma aula sobre diferentes narradores.
E amanhã vamos a 0º. É mole?
Raduan Nassar, entrevista a Edla Van Steen. In: Viver & Escrever – vol. 2. Ed. Lpm.
No dia mais frio do ano, lembro que Caio F. dizia que esta é uma cidade de verões amazônicos e invernos russos, e comecei hoje uma semana de seminários & estudos all day long aqui em São Petersburgo Alegre. Antes disso, semana passada, descobri o mundo mágico das sinopses, e comecei o longo mas prazeroso processo de reescrever um livro. No capítulo sobre Trabalhar e Retrabalhar, na minha oficina preferida, Stephen Koch aconselhava a fazer uma sinopse depois de terminar a primeira versão de um livro, e sugeria fazer uma sinopse por dia, até ter a história compacta, presa em uma cápsula. É um exercício muito legal sobre casar acontecimentos e reviravoltas dentro da narrativa, pensar melhor a relevância de certos personagens e certos diálogos. O grande desafio é recontar uma história que levou três anos e meio para ser escrita, mas como seria contada hoje. Escrevi duas sinopses em dois dias, e pretendo escrever mais nos próximos. Conforme o tempo permitir, claro. E jogar com o tempo para continuar lendo meu primeiro Faulkner, que já percebi ser uma aula sobre diferentes narradores.
E amanhã vamos a 0º. É mole?
terça-feira, 21 de junho de 2011
Altair Martins e Minhas Madeixas Pop
Cheguei faz pouco da brilhante conversa de Diego Petrarca e Lorenzo Ribas com o Altair Martins, meu ex-professor e colega de coletâneas, que me disse que usou meu conto “Madeixas Cor de Sangue” em suas aulas nas escolas de Segundo Grau e no curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos, para minha total surpresa. Aliás, a primeira coisa que ele falou quando me viu foi “Madeixas Cor de Sangue!”, evocando o conto publicado no livro Contos de Bolsa da editora Casa Verde há quase 5 anos. Queria ter anotado todas as pérolas que foram faladas hoje à noite, tais como a literatura ser sempre autobiográfica, nem que seja só um pouquinho, mas um farelo do autor sempre está presente no texto; o Narrador também é um personagem, muito da história se constrói a partir de sua voz, o como se conta; se nem todos vão ler o texto, ele não precisa ser entendido por todo mundo; “nós pesquemo um peixe” está correto gramaticalmente, desde que eu entenda o nível de significância no qual estou inserido; mais importante do que sermos biográficos é sermos bibliográficos, porque nosso texto dialoga com o que já foi escrito antes; mesmo que muitos textos estejam escritos em terceira pessoa, na verdade o autor está falando em primeira pessoa, mas disfarçado de terceira, a tal autobiografia ficcional; a linguagem em literatura, assim como o teatro sem a obrigação televisiva de ter piadinha, são sinais de Resistência, de uma recusa em aceitar a mediocridade estabelecida.
E um dos meus preferidos: a verdadeira biografia de um escritor são seus escritos.
Mas só no fim o Altair me disse que usou meu “Madeixas Cor de Sangue” em suas aulas, a princípio sem falar meu nome, mas apresentando o texto (que os alunos deveriam opinar se era conto ou poesia) com “esse conto fala de uma mulher ruiva, e o autor é um ruivo”. E foi conversando depois da entrevista que falei sobre a novela que escrevi, mas na qual ainda tenho muito que trabalhar (atenção: não confundir com o um pouco eterno livro, que é um romance), e falei que a Naomi (que era outro dos meus Contos de Bolsa) e a tal mulher de cabelos vermelhos viraram personagem nessa novela, o que o Altair achou muito legal, dizendo que aquela mulher dá pano pra manga. Já estava pensando mesmo em reescrever essa história, pensando melhor o ponto de vista do Narrador, da voz com que a história é conduzida. A noite de hoje foi um alento. Aliás, já estamos armando leituras críticas para as próximas férias. E ouvindo tudo o que ouvi hoje, tive mais fé na autonomia do escritor, de realmente escrever segundo suas próprias escolhas literárias e sustentá-las. Por exemplo, já que falei em Naomi. Algumas pessoas perguntam de onde tiro o nome de meus personagens, e por que não coloco nomes “brasileiros”. Naomi vem de Naomi Rachel, uma das filhas de Stephen King, e não posso chamar de Maria ou Josefina ou Ana Cláudia uma personagem que antes de eu imaginar suas formas físicas já tinha o nome de Naomi, e isso vale para todos os outros personagens. Nome de rua a gente muda; personagem, não.
Mas enfim, já que andou rolando pelas aulas do Altair, e para você que provavelmente não é um leitor antigo deste blog, para abrir os trabalhos no primeiro dia inteiro de inverno, deixo este breve conto in red:
MADEIXAS COR DE SANGUE
Ela tinha os cabelos cor de sangue, mas decidiu não se matar. Tinha os cabelos cor de vinho, e tampouco podia beber. Tinha os cabelos cor de fogo, então rezou por paz. E encontrou novas madeixas, que sabiam que cor de dor rima com cor de amor, e perderam o medo de se trançar.
E um dos meus preferidos: a verdadeira biografia de um escritor são seus escritos.
Mas só no fim o Altair me disse que usou meu “Madeixas Cor de Sangue” em suas aulas, a princípio sem falar meu nome, mas apresentando o texto (que os alunos deveriam opinar se era conto ou poesia) com “esse conto fala de uma mulher ruiva, e o autor é um ruivo”. E foi conversando depois da entrevista que falei sobre a novela que escrevi, mas na qual ainda tenho muito que trabalhar (atenção: não confundir com o um pouco eterno livro, que é um romance), e falei que a Naomi (que era outro dos meus Contos de Bolsa) e a tal mulher de cabelos vermelhos viraram personagem nessa novela, o que o Altair achou muito legal, dizendo que aquela mulher dá pano pra manga. Já estava pensando mesmo em reescrever essa história, pensando melhor o ponto de vista do Narrador, da voz com que a história é conduzida. A noite de hoje foi um alento. Aliás, já estamos armando leituras críticas para as próximas férias. E ouvindo tudo o que ouvi hoje, tive mais fé na autonomia do escritor, de realmente escrever segundo suas próprias escolhas literárias e sustentá-las. Por exemplo, já que falei em Naomi. Algumas pessoas perguntam de onde tiro o nome de meus personagens, e por que não coloco nomes “brasileiros”. Naomi vem de Naomi Rachel, uma das filhas de Stephen King, e não posso chamar de Maria ou Josefina ou Ana Cláudia uma personagem que antes de eu imaginar suas formas físicas já tinha o nome de Naomi, e isso vale para todos os outros personagens. Nome de rua a gente muda; personagem, não.
Mas enfim, já que andou rolando pelas aulas do Altair, e para você que provavelmente não é um leitor antigo deste blog, para abrir os trabalhos no primeiro dia inteiro de inverno, deixo este breve conto in red:
MADEIXAS COR DE SANGUE
Ela tinha os cabelos cor de sangue, mas decidiu não se matar. Tinha os cabelos cor de vinho, e tampouco podia beber. Tinha os cabelos cor de fogo, então rezou por paz. E encontrou novas madeixas, que sabiam que cor de dor rima com cor de amor, e perderam o medo de se trançar.
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