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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Por que ainda não traduziram On Writing, de Stephen King?


“O seu tempo é valioso e o meu também, e ambos entendemos que as horas que passamos falando sobre escrever não são as horas que passamos de fato escrevendo. Serei tão animador quanto possível, porque é minha natureza e amo este trabalho. Também quero que você o ame. Mas se você não quiser suar a bunda trabalhando, você não tem negócio algum tentando escrever bem. (...) Se Deus deu algo que você pode fazer bem, por que em nome de Deus você não faz? (...) Não se pode transformar um mau escritor em um bom escritor, nem um bom escritor em um grande escritor, mas é sim possível, com muito trabalho duro e perseverança, transformar um escritor competente em um bom escritor (...) TV é a última coisa que um aspirante a escritor precisa, e se você não vive sem saber as notícias da CNN e os jogos do ESPN, ou assistir Jay Leno todas as noites, está na hora de você se perguntar a sério sobre seu futuro como escritor (...) Para ser escritor, você precisa fazer duas coisas acima de tudo: ler muito e escrever muito. Até onde eu saiba, não existe outro caminho; não existe atalho.”

  
No fim de Oficina de Escritores, que considero a Bíblia para quem quer escrever (ou melhor, uma das Bíblias), Stephen Koch fala de On Writing – A Memoir of the Craft, de Stephen King, que ele considera talvez o mais útil e abrangente livro escrito sobre o ofício de escrever, e de onde grande parte (partes demais, eu diria) da Oficina foi tirado. Pois que tive a honra e a boa vontade de ler On Writing (esta edição da Scribner, com hard cover), no original em inglês, já que ele ainda não foi traduzido. Aliás, por que ainda não traduziram On Writing? Juro que quando o traduzirem compro um exemplar para reler.

O livro já começa bom, com King dizendo que sua intenção é contar como um escritor se forma, e não como ele é feito, já que para ser escritor a pessoa tem que vir com algumas peças de fabricação. Em seguida começam as memórias da infância, o pai que sumiu para sempre porque estava enterrado em contas, logo quando King era bem pequeno, depois uma baby-sitter que era “grande como uma casa”, que vivia o sufocando e peidando em sua cara, que ele lembra de ser “escuro, terrível, mas também gerava algumas risadas”, e nesse sentido ela também o preparou para a crítica literária. Sua voz nos conduz como se ele estivesse conversando com a gente. Aos seis anos de idade, ele plagiou uma história e deu para sua mãe ler, que gostou, mas quando confessou não ter sido ele quem inventou, ela disse: “Escreva suas próprias histórias, Stevie. Você pode fazer melhor que isso”. Então ele escreveu sobre quatro coelhos dirigindo um carro e ajudando crianças. Ela leu, perguntou se ele mesmo tinha escrito aquilo. Depois que ele confirmou, ela disse que aquilo bem poderia estar em um livro. Stephen disse que desde então nenhum elogio que recebeu em sua carreira foi melhor que aquele.
 
Depois das experiências com o jornal da escola, e com um conto que fez como uma releitura de O Poço e o Pêndulo, de Edgar Allan Poe, e terem perguntado por que ele perdia tempo escrevendo aquele lixo (onde ele acrescenta: “todo escritor, pintor, cantor, já teve alguém que perguntou “por que você está desperdiçando seu tempo com isso?”), King foi trabalhar na biblioteca onde conheceu Tabitha Spruce, com quem casou um ano e meio depois, e ainda é casado, e se apaixonou por sua poesia em um sarau entre amigos.
Quando finalmente conseguiu vender Carrie, em um contrato que foi de 2.500 a 400.000 dólares, King conta a triste história das duas garotas que inspiraram Carrie, as duas já mortas quando o livro foi publicado (uma por ataque epilético, a outra por suicídio). Ele também conta que jogou o esboço de Carrie no lixo, e foi sua esposa Tabby quem resgatou o texto da lixeira e disse que ele deveria continuar escrevendo, e que seu apoio foi fundamental para que ele seguisse a carreira de escritor. Em seguida sua mãe morreu de câncer no hospital, e depois que saiu O Iluminado (cujo protagonista é um escritor alcoólatra), King teve que admitir que estava falando dele mesmo, um escritor e adicto (ele também estava usando cocaína) e disse que pedir para um alcoólico maneirar na bebida é como dizer para alguém que está sofrendo de diarreia maneirar na caganeira.
A segunda parte do livro (Toolbox) fala nas ferramentas que todo escritor deve trazer consigo, e tê-las a mão quando precisar delas. Em primeiro lugar está o vocabulário (inclusive o vocabulário de rua) e a gramática, que vai melhorando conforme vamos lendo. No fim do capítulo anterior ele alerta que a partir de agora vamos falar a sério sobre o ofício de escrever, e se você não quer levá-lo a sério, feche o livro e vá fazer qualquer outra coisa. Como lavar seu carro.
“Não se deve pensar muito sobre onde o parágrafo começa ou termina, o truque é deixar a natureza fazer o resto. Se você não gostar mais tarde, então conserte. É sobre isso que é reescrever (...) O objeto da ficção não é o senso de correção gramatical, mas fazer o leitor bem-vindo e contá-lo uma história, e se possível fazer ele esquecer que está lendo (...) Escrita é pensamento refinado (...) O parágrafo de uma única frase está mais perto da conversa do que da escrita, e isso é bom. Escrever é sedução (...) A batida na qual o escritor desenvolve sua prosa, é a batida que ele escuta em sua cabeça. Descobrir essa batida é o resultado de milhares de horas de prática, e de dezenas de milhares de horas lendo (...) Estamos falando sobre ferramentas e carpintaria, sobre palavras e estilo, mas conforme vamos nos movendo (no texto) você faria bem em se lembrar que também estamos falando de mágica.”
 
King diz que lê onde pode e que salas chatas de espera foram feitas para ler (eu acho que ônibus também, mas anyway). Para ele, as manhãs pertencem a tudo que for novo – a composição atual. As tardes são para cestas e cartas. As noites são para leitura, família, jogos do Red Sox na TV e quaisquer revisões que não podem esperar. Basicamente, as manhãs são seu horário nobre para a escrita.
“Como todos os outros aspectos da boa escrita, a chave para escrever bons diálogos é a honestidade. A Legião da Decência pode não gostar da palavra merda, e talvez você também não, mas nenhuma criança vai correndo até sua mãe para dizer que sua irmãzinha defecou (...) Toda semana recebo uma carta (muitas vezes mais de uma) acusando-me (ofendida com o que meus personagens disseram). A chave é deixar os personagens falarem livremente, sem se importar com o que vão dizer a Legião da Decência ou o Círculo de Leitura das Senhoras Cristãs. Do contrário, além de ser desonesto, seria covarde, e a escrita de ficção não é trabalho para covardes intelectuais (...) Honestidade é fundamental (...) Como disse Frank Norris, o que me importa as opiniões deles? Eu contei a verdade (...) O que acontece com os personagens conforme a história progride depende do que descubro sobre eles conforme vou avançando (...) e se você continuar escrevendo, vai perceber que todos os personagens são parcialmente você.”

King fala sobre deixar o manuscrito recém-escrito descansar por umas seis semanas, ler, revisar e reescrever. A segunda versão é a primeira versão menos 10% (como sugeriu um editor em uma carta de recusa durante sua adolescência). Ele também fala sobre termos um Leitor Ideal (no caso dele, sua esposa) e mandar a cópia para seis, oito pessoas e pedir sua opinião sobre o que funciona e o que não funciona na história, antes de fazer a versão final.

“Você não precisa de aulas de escrita ou seminários mais do que precisa deste ou de qualquer livro sobre escrita (...) Você aprende melhor lendo muito e escrevendo muito e as lições mais valiosas são as que você ensina a si mesmo.”
 
* *

Os capítulos finais falam do acidente que quase o matou em 99, atropelado pela van de Bryan Smith, e de sua dolorida recuperação, e de como voltar a escrever o ajudou (“escrever não é a vida, mas às vezes é um jeito de voltar a vida”); também há um capítulo sobre edição e revisão, em que ele mostra como cortar e enxugar frases, citando seu 1408, e uma lista de seus livros favoritos. O que eu não entendo é por que ainda não traduziram esse livro por aqui. Aliás, quando estava quase terminando de ler o livro em inglês, descobri que “Escrever – memórias do ofício” foi traduzido em Portugal. Mas enfim, decidi fazer este mix de resenha e publicar em meu blog errante. On Writing é um grande livro (que esta semana se tornou meu companheiro de mochila no bus), um dos preferidos da casa. Quem escreve tem que ler.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Pratica diária com Clifford Brown

Agora que vou ter mais uns dias de folga aqui no escritório da Distant Thunders Administration, e consegui hoje retomar a história de Carol, criei um arquivo com o nome de Contagem Diária de Palavras (hoje consegui 224). Anne Lammot falava em escrever 300 palavras por dia, todos os dias. John Braine falava em 350, Stephen King em 1000. Não importa, o lance é praticar, e praticar hoje, que afinal é o único dia que temos. Para celebrar, gravei outro dos cds em mp3 que o Jazzman me deu de presente, e ouvi hoje pela primeira vez o muito fera Clifford Brown, joia raríssima como só os grandes conseguem ser. Mas é claro: ele praticava bastante, e esse é o segredo da destreza em qualquer arte.

Tenho que colocar a leitura em dia, e temos mais o rolar de dados da próxima semana. Mas enquanto isso, celebremos a vida com o clássico atemporal Cherokee.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Nassar & Sinopses

Um ano depois da morte de meu pai, em 61, me desliguei de fato dos negócios da família, tinha um projeto literário, que eu não trocava por nada. Me espanto ainda agora com o vigor daquele meu projeto, que me levou a abandonar a faculdade de Direito no último ano, me levou a me desinteressar da carreira universitária e me levou a me desinteressar de um negócio incipiente mas próspero, pra não falar de outras coisas que abandonei, essas sim doidas.

Raduan Nassar, entrevista a Edla Van Steen. In: Viver & Escrever – vol. 2. Ed. Lpm.

No dia mais frio do ano, lembro que Caio F. dizia que esta é uma cidade de verões amazônicos e invernos russos, e comecei hoje uma semana de seminários & estudos all day long aqui em São Petersburgo Alegre. Antes disso, semana passada, descobri o mundo mágico das sinopses, e comecei o longo mas prazeroso processo de reescrever um livro. No capítulo sobre Trabalhar e Retrabalhar, na minha oficina preferida, Stephen Koch aconselhava a fazer uma sinopse depois de terminar a primeira versão de um livro, e sugeria fazer uma sinopse por dia, até ter a história compacta, presa em uma cápsula. É um exercício muito legal sobre casar acontecimentos e reviravoltas dentro da narrativa, pensar melhor a relevância de certos personagens e certos diálogos. O grande desafio é recontar uma história que levou três anos e meio para ser escrita, mas como seria contada hoje. Escrevi duas sinopses em dois dias, e pretendo escrever mais nos próximos. Conforme o tempo permitir, claro. E jogar com o tempo para continuar lendo meu primeiro Faulkner, que já percebi ser uma aula sobre diferentes narradores.

E amanhã vamos a 0º. É mole?

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Primeiro post no new computer

Estas são as primeiras palavras que escrevo com computer, teclado e, principalmente, monitor novos. Depois de uns dias out of system, aproveito a quinta-feira (teoricamente o dia em que meus outros compromissos se aliviam) e estreio ferramenta nova. Para mim que escrevo – para você que me lê, sei que não faz muita diferença. Mas estou acostumando com digitar em um novo teclado (a velocidade vai voltando aos poucos, parece como reaprender a andar), e acostumando com a tela nítida e caracteres grandes, incrivelmente claros, depois de ver meu monitor, fiel companheiro por exatos 10 anos, agonizar meses a fio. Novos começos, não é mesmo? A vida tem que seguir em frente. Claro que agora vou – imagino – aumentar minha cobrança interna para produzir literatura. Aliás, tenho que reler alguns textos, polir, esculpir, reescrever. O mais difícil, como tudo, é começar. Mas começar é preciso, de algum modo. Como disse Stephen Koch, na frase de abertura de sua Oficina, “só existe uma maneira de começar: é começar agora”.

Pelo que ando lendo sobre Miles Davis e Dostoiévski, os caras eram extremamente dedicados. Quer dizer, os grandes sempre foram dedicados, independente da área. Miles ia na biblioteca e no museu pegar emprestadas partituras de Stravinsky e outros clássicos para aprender e estudar, coisa que muitos de seus ídolos jamais fizeram. Dostoiévsky foi leitor diligente, construindo seu talento com constância e disciplina ao longo dos anos (a frase do dia: “Quero escrever um romance, e não descansarei enquanto não conseguir”). E isso com contas batendo, fome, prisão, exílio fora e dentro de sua própria terra natal. Mesmo que tenham se passado anos, eles me ensinam a mesma coisa: continue resistindo, ignore as dificuldades, siga em frente. Se não fosse a sua perseverança, beirando o inabalável, eu não estaria divagando sobre sua obra em um fim de tarde em pleno outono de 2011.

Também vou poder estudar, agora com as aulas mais claras frente aos meus olhos. E tentar manter meu foco. E enquanto penso em como encerrar este texto, lembro de Coltrane, que fazia solos quilométricos quando estava na banda de Miles, e depois em sua carreira solo, justamente por não saber como encaixar e concluir a sequência de notas sobre as quais vinha improvisando. Mas como não sou Trane, é melhor ficar por aqui.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Escrevendo com 24-7 Spyz

Antes de ir para a última aula da oficina free de formas breves, resolvi matar as saudades do grande 24-7 Spyz, a melhor banda que você jamais ouviu falar – acho que o Marcelo foi a única pessoa para quem falei do Spyz que sabia quem era. Li por aí que eles vão lançar disco novo este ano (e lembrei que fiz uma homenagem a eles no um pouco eterno livro. Mas sobre isso falo mais em outro post).

Enfim, ouvi depois de anos o muito fera Face the Day, para mim sério candidato a um dos melhores momentos da década que recém acabou, mas também escrevo ao som de Heavy Metal Soul by the Pound, que comprei com parte dos royalties literários do Sex’n’Bossa.

Legal que depois de várias semanas me amarrando, comprei um novo bloquinho para viagens literárias enquanto caminho ou ando de bus, ou simplesmente sem tempo para desenvolver a ideia toda em texto. Na Bíblia de Koch, ele recomenda: reserve tempo para os cadernos. Não lembro se já comentei isso aqui, mas o mote do que se tornou o um pouco eterno livro foi tirado de uma cadernetinha minha do Menino Maluquinho que está repleta de ideias para contos, diálogos e muitos outros adubos que talvez jamais gerem plantas maiores, mas o insumo deve ser contínuo. Sempre. Como dizia o professor do clássico-da-sessão-da-tarde Jogue a Mamãe do Trem, um escritor escreve.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Porto Alegre, 30 de agosto de 2010

Right on: conseguimos.

Sentado em um dos bancos da Catedral Metropolitana em meio ao silêncio celestial e os barulhos da segunda-feira de manhã acontecendo do lado de fora, escrevo no caderno sobre meu colo o parágrafo final da narrativa que teve sua gênese no nada saudoso janeiro de 2006. Uma turma do jardim de infância invade meu silêncio e o isolamento espiritual deste caderno, que comprei junto com uma caneta mágica que não tenho mais, com a clara intenção de escrever O Livro. Claro que com pretensões astronômicas a narrativa não fluiu muito. Mas vamos do início, enquanto as crianças silenciam e tiram fotos da Catedral e agora saem em fila indiana. Pois bem, no muito longo janeiro de 2006, me sugeriram escrever sobre um assunto x, e naqueles dias distantes conheci a linda How far will we go do Kip Winger, e essa música provocou a fagulha inicial, tão necessária para querer contar uma história, embora naquele ponto não tinha, nem poderia ter, ideia do que queria escrever. Tinha imaginado contar a história toda em um dia, talvez influência de Jack Bauer e sua turma, cuja Quarta Temporada me ajudou a atravessar aquele mês. Tinha me programado para escrever tudo em três meses, mas levei mais de três anos. Na verdade, ainda tinha mais da metade do um pouco eterno livro para escrever, que foi concluído dia 13 de dezembro daquele ano. No reveillon de 2007, quando cheguei em casa, ouvi How far will we go e comecei o esboço inicial, no histórico caderno onde escrevi a autobiografia do RIP aos 15 anos, cuja redação do texto em detrimento de um trabalho de biologia me rendeu uma reprovação no fim do ano.

Comecei a narrativa propriamente dita em 20 de março de 2007, quando começa o outono e o dia no qual se passa a história. Lembro que, como sempre deixei tudo para depois, disse que só ia escrever quando estivesse friozinho, e no dia seguinte ouvi na íntegra pela primeira vez A Love Supreme, que John Coltrane humildemente dedicou a Deus. Até hoje quando passo pela escadinha que conduziria ao apartamento e à gaveta do computador, sobre a qual comecei a escrever este livro, penso em Resolution, em ter um propósito e nas cartas de Vargas Llosa, quando ele sugeria que a vocação literária deveria ser tratada como uma servidão livremente escolhida por suas ditosas vítimas, e que só aqueles que se dedicam à literatura como a uma religião, dedicando seu tempo e esforço, seriam capazes de escrever uma obra que os transcenda. Acontece que a minha caneta travou, e entrei num desespero e vazio pós-um-pouco-eterno-livro por achar que nunca mais seria capaz de escrever nada. Foram madrugadas e madrugadas insones, de vazio literário, mas continuei escrevendo neste caderno, e as páginas foram cobertas de lamentos e anseios e como na falta do teclado, a caneta corta igual, fatiando meu coração no vazio das madrugadas, aqueles escritos todos foram condensados em quinhentos caracteres, que gerou o conto de mesmo nome, publicado dia 1° de dezembro no Contos de Algibeira, na Alameda dos Escritores, perto da fonte onde fiz um pedido (mas isso é assunto para outros posts). Na sequência do conto, assinalei que a musa não aparece, Deus está de greve e também entrei na paranoia de não ser mais capaz de escrever por não ter musa. Escrevi em algum lugar perdido neste caderno que a musa ia aparecer antes da conclusão da narrativa. No dia 12 de junho de 2008, meses depois de eu ter trabalhado em uma livraria e meses antes de trabalhar com o queniano Roger na Feiarte, Dia dos Namorados e um dia antes do Dia de Santo Antônio, Deus saiu de greve. Mas a narrativa continuava trancada, difícil de sair.

Foi quando pela primeira vez tentei uma bolsa para escrever um livro, tinha apenas a 1ª versão de 1/3 do livro. E não ganhei. Então, no mesmo dia, me determinei a escrever este livro de qualquer maneira. Até ali, o texto já havia sido escrito em dois apartamentos do Pombal, no caderno entre mesas de cozinha e a tal bancada com a gaveta do computer, mais um trecho - não posso deixar de registrar - sentado de costas para o Centro Cívico e de frente para o Nahuel Huapi, em Bariloche, entre abril e maio de 2007, para finalmente migrar para o computador, onde foi escrito o restante. Então tentei uma bolsa pela segunda vez. E pela terceira, e pela quarta. Não sei se recusaram o texto ou o projeto. Mas penso em tentar uma quinta vez. Afinal, o que recém terminei foi apenas a primeira versão - versão é contar a história do início ao fim, a história inteira, como disse Hemingway e aprendi lendo a Bíblia. Então, acho que ainda tenho meses de trabalho. Que bom. Como disse Llosa, a maior recompensa da vocação é o exercício da vocação. Claro que também contou, no início deste mês das vocações que já está acabando, ler sobre o poder mágico dos prazos destes caras que escrevem um romance em um mês, o outono deles, mesmo outono (e fim de verão) sobre o qual escrevi, e me determinei a terminar o livro (bem, pelo menos a 1ª versão) até o fim do mês, et voilà.

Quando comecei a contar a narrativa - a história acabou tomando outros rumos, que bom, sinal de que ela se emancipou de mim - tinha imaginado I'll be over you para orquestrar uma cena de beira de estrada, perto do fim, e hoje vou ouvi-la, caiba ela ou não. Então para encerrar minha estada na Catedral, em meio a pessoas perplexas que passam para rezar, agora são 11 e 23 e o meio-dia me chama, queria deixar um abraço afetuoso para o Marcelo Martins, meu grande amigo e colega de Resistência & Perseverança nesta floresta que é a literatura (e, por que não, a vida) e que leu e resenhou grande parte do meu novo rebento. E claro, beijos para minha querida Alice, que sempre me diz para continuar escrevendo, sinal de que tudo vem a seu tempo. Na pauta dos próximos dias, conforme o tempo e minha boa vontade permitirem, estou pensando em ir até a sala de estudos/aquário do curso em que estava estudando e eu mesmo canetear as folhas impressas e ver o que fica e o que sai para uma próxima versão. Também temos outro celeiro para o qual ainda não tinha mandado meu rebento anterior, que pedia uma sinopse que eu não tinha, mas agora tenho, e a luta continua. Por fim, depois de gravar o Requiem de Brahms para a presidente da Distant Thunders Corporation, acho que vou lavar aquelas xícaras estilosas que ela trouxe de Buenos Aires e estrear com um café celestial, talvez acender um incenso, quem sabe fazer uma oração. Com certeza agradecer. Foi um longo caminho até a frase final, mas: conseguimos.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Dia do Escritor Atrasado

Em homenagem ao Dia do Escritor, que foi ontem (e, claro, celebrei produzindo ficção), deixo o professor Stephen Koch, que sempre reservava uma parte de cada workshop para alertar seus alunos sobre o perigo de seguir a vocação literária, das dolorosas recusas, do pouco ou nenhum dinheiro e da probabilidade de fracasso, vendo a turma inteira murchar na cadeira. Até que um aluno corajoso o encarou em uma conversa particular:

"Professor Koch, há algo que o senhor parece não entender. Eu sei que sua intenção é boa, mas esse negócio de que nunca vamos chegar a lugar nenhum, que nunca vamos ganhar um tostão, que ninguém nunca vai nos dar a mínima - o senhor acha que é novidade para nós? Acha que nunca ouvimos falar disso? Todos nós temos um tio lá fora que vive nos dizendo exatamente as mesmas coisas, o tempo todo. Talvez o senhor saiba mais e se expresse melhor, mas, basicamente, está nos dizendo o mesmo que esse tio nos diz. Ouvimos isso desde o dia em que lemos aquele livro que nos empolgou e nos fez querer ser escritores. Todos nós temos alguém que não para de repetir: 'Esqueça, não vai dar certo, você vai fracassar'. O senhor acha que ninguém nos diz como é difícil? Que ninguém nos previne do fracasso? Todo o mundo faz isso. Precisamos é de alguém, de uma só pessoa, talvez o senhor mesmo, que não nos diga isso, alguém que, pelo menos uma vez, nos diga que é difícil, mas não impossível. Alguém que diga 'vá em frente'. Que diga que é ótimo fazer isso, que é a melhor coisa a fazer, que não há nada melhor, que nos diga para tomar coragem e fazer. Alguém que não olhe para nós pensando que somos um bando de pirralhos fantasistas e autocomplacentes, que devíamos jogar a toalha, sermos simplesmente bons moços, estudar direito e crescer. O senhor receia que estejamos iludidos? Tudo bem, estamos iludidos. Mas faça um favor: deixe-nos iludidos, porque nós vamos continuar."

Enquanto isso, estreando erva nova e tomando um drink, seguimos na luta.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

RIP, Uruguai & Disciplina Literária

Esta é a semana de aniversário de 17 anos do RIP, o personagem cuja autobiografia rendeu meu primeiro conto e uma reprovação em biologia no fim do ano. Pensei em republicar “Os Quatro Cavaleiros” em homenagem, mas por enquanto aproveito que a mãe de nome erudito foi passar o feriadão no país de Horacio Quiroga, e lendo a coluna de Cássio Pantaleoni no portal Artistas Gaúchos sobre a pouca bagagem literária dos muitos que querem escrever, mas poucos querem ler, sigo tentando retomar minha leitura de um conto por dia antes de dormir. Vejo como faz falta leitura & produção diárias. John Coltrane dizia que se você passar um dia longe de seu instrumento, ele vai passar uma semana longe de você. Parafraseio, traduzindo para literatura: se você passar um dia longe de seu texto, ele vai passar uma semana longe de você. É verdade. Estou há dias preso em um diálogo entre dois personagens sobre uma ponte, que parece não andar. É claro, como li na Bíblia, a gente tem que escrever e seguir em frente, lutando contra a insistente autocrítica, resistir à voz que declara o texto enfadonho, chato, clichê.

Sábado teremos Solitude, de volta aos palcos do Brothers, vou matar um pouco as saudades das baquetas, embora confesse que coisas assim me fazem pensar seriamente em nunca mais tocar bateria. Bem, entre uma música e outra, talvez dê para treinar alguns backsticks. Enfim, a gente tenta dar nosso melhor a cada dia. E um dia de cada vez, é possível.