sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Nanowrimo – Dia 22


Leia para descobrir o que você acha que consegue me ocultar, diz você. O que você percebeu que ainda não entendi, ou escondo de mim mesma?

De qualquer forma, penso que se algum dia alguém fizesse um filme disso que escrevo, e o que tenho escrito e que – você tem razão – não lembro, ele poderia começar com um piano, como o piano que ouço agora. Lindo.

E triste.

Não sei como você imagina que seja Clara ou como seja eu. Eu não importa, não quero falar de mim. Sou apenas alguém-ninguém que escreve esta história. Escreve para lembrar. De novo você tem razão. Mas como você pensa que é Clara? Vejo uma foto em minha frente, e ouço este piano e vejo este anjinho que me sorri. Poderia dizer a cor de seus cabelos, o formato de seu sorriso – mas ela sorri. E é o sorriso mais lindo do mundo. Um anjinho. Queria que essa foto tivesse se repetido para todo o sempre. Eu escreveria um livro só para tentar traduzir o que essa foto me passa, e o filme começaria com esse piano. Seu sorriso também é lindo, e fica ainda mais lindo quando olho para ele e as teclas do piano conduzem meu espírito para algum lugar bom.

Algum lugar bom, longe daqui.

Alguma pátria, de novo a linguagem de Sarah, algum lugar onde nada pode me ferir. Nem a mim, nem a ela.

E tenho vontade de chorar de novo.

Queria poder chorar escondidinha, e escondidinha já estou, apenas o piano me cerca, ele e seu espírito nas teclas que choram por mim, e colorem minha dor. Talvez coloram a dor de Clara. Sim, tenho certeza que esse piano é para dar algum sentido na dor daquela garotinha.

Lady Clara.

Clara do Sorriso Mais Lindo do Mundo.

Continuo escrevendo, e de novo as imagens aparecem e tão logo tento captá-las em palavras, elas somem.

Maria, mãe de Clara.

O que aconteceu com ela?

Ainda não sei.

Mas o homem moreno – deus, tenho que inventar um nome pra ele, qualquer nome – está tomando vinho. É sexta de noite. Por enquanto ele está calmo.

Clara tem medo. Maria também. Papai está bebendo de novo. Ele está calmo. Por enquanto. A casa continua no lugar. Clara e Maria também. Onde está o garoto, o do banho? Será que está tomando banho, aproveitando que o papai não vem? Mas ele é mesmo o pai? Não sei, uma coisa tão simples e não consigo perceber.

Maria das Incertezas.

Mas continuo escrevendo. Começo a suspeitar que não vou sair daqui enquanto não terminar essa história. Ou melhor, enquanto não entender essa história. Se você já entendeu, por que não me conta? Por que essa tortura?

Mais um pouco de sofrimento. Tudo bem. Vou continuar escrevendo, até que a dor passe, até que a confusão diminua, e isso talvez signifique que não vou sair deste quarto. Sinto um vazio que não cabe em palavras, que não cabe nem no buraco negro da galáxia. Será que Maria sentia o mesmo?

Não errei meu nome. Pensei, sem querer, mas pensei, na mãe de Clara. Pelo menos isso deduzo que seja. Maria é a mãe de Clara. Maria foi parar no hospital. Mas se ela está com Clara na casa (casa ou apartamento?), é porque Maria já voltou. Quanto tempo ela ficou lá? Talvez ela tenha tido mesmo depressão pós-parto, mas agora foi outra coisa. Clara não é mais recém-nascida. Será que Maria descobriu algo tão grave que a fez entrar em depressão a ponto de ser internada no hospital? Nesse momento, suponho, você se pergunta: ela sabia o que acontecia dentro de sua casa? Eu não sei. Sabia?

O piano continua tocando enquanto escrevo. Coloco fones de ouvido para não incomodar meus vizinhos dos quartos ao lado, e imagino o filme que fariam desta história mal escrita que estou tateando a cada noite. Pelo menos hoje, ouço um piano. E vejo a foto de Clara. Sorrindo como uma boneca com o sorriso congelado. O filme poderia começar com essa foto em um porta-retrato. O piano de trilha para a foto. Eu poderia descrever essa garotinha mais, e talvez seja o que você esperasse, talvez seja o que Sarah esperasse. Mas sei lá por quê, não consigo. Sei que ela é linda, e seu sorriso é como se guardasse a prova de algo divino que deve existir em algum lugar. Talvez você não acredite em nada disso, mas é porque você não vê a foto como eu vejo. E não sei se ela conseguiu sorrir assim de novo. A foto é permanente. A garota da foto não envelhece, não morre. E o sorriso não se desfaz.

Talvez seja por isso que escrevo.

Para saber em que momento aquele sorriso de perdeu.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Nanowrimo - Dia 21


20: 44

Você diz que não admito as coisas.

Maria Que Não Admite As Coisas.

Mas do que você está falando? Escrevo para recuperar aquilo que não lembro. Talvez, sim, eu não queira lembrar. Se isso é não admitir, então talvez, como disse Sarah, eu faça isso para me proteger. Esses psicanalistas acham que a gente está sempre fugindo de alguma coisa. O que quer dizer basicamente: fugindo do passado. Mas escrevo para lembrar. Como vim parar aqui. Como era a minha vida antes da minha chegada a este quarto. A esta janela de onde observo a pracinha, alguns postes que iluminam o verde que há lá embaixo. A quadra de cimento onde as crianças jogam futebol. Uma quadra de areia onde as meninas jogam vôlei. A memória vai voltando conforme escrevo. Rá, por isso escrevo. Nem estou olhando mais para a pracinha, escrevo de memória, reescrevo de memória, como recomendava Scott Fitzgerald. Apesar de que não estou reescrevendo nada. Continuo pensando em voz alta. É como ter um gravador e eu falar para alguém, que provavelmente vai ser ninguém, ouvir minhas memórias. Mas não lembro nada.

E mal lembro o que escrevi ontem.

Acho que comentei que o homem magro e alto de cabelos lisos escuros trabalha em um hospital. Pensei que ele fosse enfermeiro, mas ele deve ser médico. Pode ser uma clínica, acho que já pensei isso. E em minha fantasia ele é ginecologista. O que talvez explique muita coisa. Gostava tanto de examinar as vaginas alheias que trabalhou também com sua filha, se bem que não sei se Clara era filha dele. Na verdade, e escrevo como se giletes cortassem meu braço isto, ele examinava Clara enquanto tomavam banho. No começo ela nada disse.

O tempo passou.

E ela continuou sem dizer nada.

Como ia dizer? E ia dizer o quê, para quem? Se sua mãe – só podia ser mãe – trocava suas fraldas, por que papai não podia examinar sua vagina, embora ela nem soubesse que aquela racha, porque ela não tinha o que o papai tinha no meio das pernas, se chamasse assim.

Ó, Clara.

A água escorria, junto com o sabão. Que caía feito lágrimas.

Lágrimas na chuva que ninguém ia ver, disse o Replicante no fim do filme.

Lágrimas no chuveiro ninguém vê também.

Ela podia chorar escondido. Mas em minha memória, digo, em minha imaginação, ela chorava no banho.

Tinha um garotinho também, mas ainda não sei quem ele é, ou como ele é. Acho que tinha os cabelos morenos. É possível que fosse filho do homem moreno – por que nunca lembro o nome desse homem? Acabo de escrever duas vezes o verbo “lembrar” em vez de “inventar”. Mas não é apenas uma história que estou tentando criar sei lá por quê? Será que, de alguma forma, ela está sendo inspirada por algo que aconteceu? Alguma notícia de jornal, quem sabe. Pode ter ficado no meu inconsciente.

Se Freud fosse vivo, será que ele leria estas cartas lançadas ao mar?

Poderíamos fazer um estudo de caso. Será que é isso que estou fazendo, um estudo de caso clínico? Mas de onde estou tirando isso tudo?

Maria, oh meu Deus, acabo de lembrar.

O nome da mulher, o nome da mãe é Maria.

É o mesmo nome que o meu.

Maria. Por que demorei tanto para batizar essa personagem?

Ela está no hospital. Recém separou, ou está separada, do marido. Ela é, ou era casada com o homem moreno cujo nome desconheço.

Mas o nome da mulher é Maria.

Tenho vontade de chorar.

Maria, Maria.

Tinha depressão pós-parto, mas ela pode ter ido para o hospital por outro motivo. Aliás, talvez ela entrasse e saísse de hospitais. Ela tinha outra doença? Por que tantas dúvidas se são apenas personagens e modelo eles como eu quiser? Foi assim que comecei tudo isto, lembra? Um narrador à procura de uma história – e agora você já sabe que é uma narradora à procura de uma história.

Neste momento sei que estou escrevendo com a clara intenção de não pensar, de ignorar o que acabo de perceber, e quero escrever e escrever e escrever, até que os pensamentos, todos eles fiquem lá atrás, de preferência se percam na floresta infinita dos neurônios, perdidos para sempre em algum lugar inacessível da minha cabeça. Mas isso não é possível.

Não posso ignorar o que acabo de perceber, mesmo que talvez amanhã eu não lembre e quero mesmo não lembrar, mas neste momento é impossível esquecer.

E é então que começo a chorar.

21:11

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Nanowrimo – Dia 20



22:58

Sobre o que é esta história, você me pergunta.

Vai ter que continuar lendo. Porque eu também ainda não sei.

Falta pouco para terminar o dia, pensei em escrever simplesmente “não estou a fim de escrever hoje, e não vou escrever mais nada, e that’s it, chega de história”, mas quando vi já estava aqui escrevendo. A chuva voltou. Quase mudei de quarto hoje, mas na última hora permaneci aqui.

O homem de cabelos negros está longe. A mulher está longe. Eles não vêm para jantar. Clara tem que fazer a própria comida. Veja, uma criança cozinhando. Não tem algo errado nessa cena? Diga-me, tem ou não tem? Eles a deixaram sozinha em casa. Pode ter sido uma exceção – ou será que sempre a deixam assim? Talvez ele seja médico, um cidadão de prestígio cujo prestígio não pode ser abalado. Isso me faz pensar. Imagine um escândalo entre quatro paredes e por isso mesmo mantido entre quatro paredes. Não podemos acabar com a carreira do doutor, e desde que ele é um homem de prestígio, as pessoas podem tolerar alguns deslizes. Ele tem uma amante? A mulher que penso ser sua cunhada é também sua amante?

Como vê, continuo tentando montar essa história e a cada dia ela parece mais distante de mim.

Não sei por mais quanto tempo vou aguentar escrever essa porcaria, esse monte de palavras que ninguém vai ler. Nem você vai ler, você vai se cansar antes de mim. Mas eu preciso lembrar o que aconteceu e como vim parar nesta cela. Ou neste quarto, dá no mesmo. Por isso tento colocar as imagens dessa historinha em perspectiva.

Maria Sem Saber O Que Fazer.

O relógio sumiu ou simplesmente parei de pensar nele?

A chuva parece que sumiu também.

De novo estou com fome. Acho que detectei esse padrão em mim: escrevo sempre de noite, muitas vezes chove enquanto escrevo e, sei lá por quê, prefiro passar um pouco de fome do que parar de escrever. Estou em busca de mim mesma. Preciso lembrar. Não sei do que trata essa história – embora, de novo, intua como ela termina e ainda tenho um pouco de esperança de mudar o fim, antes do fim.

Por isso escrevo.

Mas vou parar de escrever em breve.

Estou perdendo minhas forças.

E começo a suspeitar que estou enlouquecendo também.

Enlouquecendo.

Caindo.

Dentro de mim.

23:12

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Nanowrimo - Dia 19



Estava cheia de ideias hoje. Maria Cheia de Ideias.

E de novo não anotei.

E de novo esqueci.

Pensei em não falar de Clara hoje.

Mas também pensei que tem algum motivo de por que não consigo criar um nome para aquele homem moreno que inventei. Se inventei, é só inventar. É só escrever, tão fácil. Mas talvez Clara também não saiba o nome dele. Eu sei, faz poucas linhas que disse que não ia falar nela. Então, o quê? Recaí? Falando nisso, hoje me ocorreu que esse homem cujo nome não consigo conceber, provavelmente por imaturidade intelectual, voltou a beber depois de dez anos abstinente. Isso é um dado interessante. Ele não bebia. Se Clara, de quem não vou falar hoje, era pequena, então talvez ela nunca tivesse visto ele beber. Mas depois de dez anos, ele voltou a beber. Foi assim: para comemorar que fazia dez anos que estava abstêmio, ele resolveu comemorar com um brinde. Não tenho certeza, mas em minha mente era um uísque caro. Escolha um. Johnnie Walker, Chivas, Cavalo Branco.

Eu não sei.

Também não bebo.

Digamos que fosse um Chivas. Um dezoito anos. Não, vinte anos. Ele ia comemorar seus dez anos com um vinte anos. E então ele tomou um gole. E destruiu a casa inteira. Bateu na mulher, bateu na filha (Clara? não sei se Clara era filha dele) e saiu por aí. Depois voltou. E no outro dia, comprou mais bebida. Mas por que não vi ele bebendo quando estava brincando na pracinha com Clara? Talvez ele ainda não tivesse voltado a beber. As coisas que crio, já que crio sem o menor planejamento, e continuo sem ter a menor ideia do que vou escrever antes de sentar aqui, talvez por esquecimento, talvez por não ser nem provavelmente jamais serei escritora, apenas vêm a minha mente. Confesso que gosto desse exercício de ir esticando as frases, porque é como esticar a vida, correr cem metros a mais quando a gente não aguenta mais correr. Acontece que de vez em quando eu me perco no que estava divagando.

Eu esqueço das coisas. Já disse isso?

Pode ter a ver com as dores que sinto pelo corpo. Pode ter a ver com algum acidente que deve ter ocorrido, e que talvez seja o que me trouxe a este quarto.

Escreva o que os leitores querem ler, diz você. Mas escrevo para mim. Ninguém vai ler. Por isso só tenho que agradar a mim. Sarah disse para eu descer fundo. Não sei se já consegui, mas juro que estou tentando.

Ouço canto de pássaros do outro lado da janela. Pássaros cantam à noite? Não é o som de corujas, é o mesmo cantar dos pássaros quando o dia nasce. Mas é noite, e ainda não é tarde.

Esta história é sobre Clara ou sobre mim?

Talvez seja sobre o homem cujo nome não consigo lembrar. Ou não consigo inventar. Você tem algum nome para me dar? Você que quem sabe me lê, mesmo que eu saiba que ninguém vai me ler, e nem quero. Assim posso escrever o que eu quiser. Porque se não for assim, não escrevo nada. Hoje ouvi Sarah falando, ou li em algum livro, não importa, que quando a criança sofre um trauma é como se uma enchente passasse e a gente não pode suportar tudo aquilo vindo, e por isso não consegue mais simbolizar, ou seja, não consegue falar sobre aquilo, nem brincar, já que a gente deságua nossas angústias nas brincadeiras. Ah, psicanalistas. Será que é por isso que Clara, quer dizer, Sarah disse para eu escrever? Escrever para desaguar as angústias. Ela acha que vou conseguir achar a chave do cofre se eu escrever. Por isso tenho escrito, mesmo sem vontade, mesmo sem inspiração ou a menor ideia do que vai vir na frase seguinte. Na verdade, nem estou escrevendo. Estou apenas pensando em voz alta. Ou pensando sem voz, mas com o auxílio do teclado. Pelo menos, desde que vim para cá, aprendi a digitar sem olhar para as letras do teclado, o que quer dizer que não sou uma inútil.

Não sou uma inútil, apesar do que disseram.

Tenho fome de novo, mas desta vez não vou parar de escrever para comer.

Por que o homem voltou a beber depois de dez anos? Sim, ele foi comemorar. Mas será que foi só isso? Talvez ele tenha se transformado em alguém que muitos não conheciam, pelo menos quem tinha algum vínculo afetivo com ele há menos de dez anos.

Sarah, assim como Tchekov, disse para escrever até os dedos quebrarem. Mas tenho me cansado e eles não quebram. Tantas coisas quebradas. Talvez lembre de mais coisas que se perderam pelo caminho, porque tenho certeza que foram várias.

E no quadro que vejo agora, a mulher está separada do homem moreno. A mulher está em depressão no hospital. A irmã ficou na casa. O homem está tomando banho com uma criança. Ele toca nela. Quem é a criança que não consigo ver?

Você vai dizer que é Clara, e penso nisso também, mas pode ser que seja um garotinho. Tem um garotinho, que acho que é mais velho do que Clara, e que eu não tinha visto antes. Eles não estão na praça, estão tomando banho. É outro filho do homem moreno? É sobrinho? Enteado? Não tinha pensado em enteado. Pensei que eles eram uma família, e até devem ser. Mas não sei que lugar ocupa cada um nesta história.

Penso em parar de escrever. Não apenas hoje, mas para todo o sempre. Ia fazer diferença para você? Para mim, não sei. Talvez o você a quem me dirijo, pensei agora, seja uma outra instância do eu, e você na verdade sou eu e eu sou você.

Ah, psicanalistas.

Mas talvez essa filosofia que estou inventando, assim sem inventar, esconda algo que ainda não consigo enxergar, um nó – ou vários nós – que não sei se vai, ou vão, ser desatados.

Acho que esta história não vai dar em nada. Vou parar por aqui. Chega.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Nanowrimo - Dia 18


21:08

Por que tem que ser uma família, você me pergunta. Tem razão. Visualizei uma família, não sei se são. Deixe ver... O homem pode estar cuidando de Clara, a mulher, o que ela faz? Mas a mãe ainda está no hospital. Ou é a irmã que está no hospital? Tive ideias acerca disso madrugada passada, e de novo não dormi, e de novo não anotei. Tenho sono enquanto escrevo isso. E sei lá por que, aqui ao lado, tem um folheto de um grupo de autoajuda para pessoas que sofreram incesto. Filhas e filhos abusados pelos pais.

Neste momento um frio me atravessa a espinha, de cima a baixo. O que isso tem a ver comigo? O que isso tem a ver com Clara?

Talvez nada, como nada eu queria que tivesse a ver com algo horrendo como isso. Mas existe um grupo de recuperação para pessoas que sofreram incesto. Por que esta merda está aqui?

Não sei, por isso escrevo.

Foi você quem largou isso aqui?

Foi Sarah?

Você, que acho que é meu irmão, na verdade é Sarah? Sarah, que penso ser a terapeuta, uma das únicas pessoas com quem falo fora deste quarto, é na verdade minha irmã? Foi ela a abusada?

Por que não anotei aquilo que me veio à mente madrugada passada? Decerto era a chave disso tudo. Enquanto isso, apenas escrevo e continuo a escrever até que a dor passe, até que a dor faça sentido – Deus, um sentido. Mas não estou com dor agora. Estou apenas com silêncio. É noite, e ninguém brinca na praça. O armazém está de novo fechado. Por que não há mais cenários nesta história? Por que não consigo sair deste redemoinho – o homem moreno, a mulher, a irmã, Clara – nem sei o nome dos outros, ainda não sei seus nomes. Ou sei, mas esqueci. Décimo sétimo dia consecutivo que venho aqui na esperança de que algo surja. Algo está certamente surgindo, mas ainda não consigo decifrar o quê.

Meus braços doem. Estou enclausurada aqui, como a princesa presa na torre do castelo, para usar uma figura da fantasia que sempre gostei. Mas não há príncipe nenhum para vir me salvar. E tudo que posso fazer é continuar a escrever, porque você acredita que isso vai me salvar. Vai me fazer lembrar. Se eu não consigo lembrar como vim parar aqui, pelo menos podia ter novas ideias para esta historinha que estou tentando montar.

O homem trabalha no hospital. Ginecologista, tive um baque agora. Ele é ginecologista. Talvez ele trabalhe em uma clínica, talvez até tenha um consultório. Sim, ele tem um consultório e uma sala apropriada para examinar as vaginas alheias. Não sei o seu nome, mas ele não está mais vestindo preto. Está vestindo branco e examinando vaginas. É isso o que ele faz. Urologista? Não, ele é ginecologista mesmo, agora tenho certeza. Será que esse abuso que não consigo decifrar tem algo a ver com isso? Ele pode ter violentado uma paciente, quem sabe até uma paciente menor de idade. Será que a mulher teve depressão e foi para o hospital por causa disso, quando descobriu? E a irmã, ela sabia? Quem mais sabia?

Pode ser uma corporação, uma organização, algo assim, muita gente envolvida no tráfico de escravas brancas, prostituição infantil.

Não, acho que estou delirando.

Mas tem algo errado nesse quadro. As peças vão se aproximando, e escrevo porque não sei como elas se encaixam. Hoje à noite talvez tenha o bom senso de manter uma caderneta à mão. As chaves para essa história me surgem de madrugada. Raramente de dia. Mas tenho que estar preparada. Meus braços cansam de novo, e sinto como se eu estivesse cansada demais para continuar, sem nem ao menos saber se você está aí, se existe alguém aí, do outro lado desta folha, ou deste monitor, ou seja lá onde você me lê. Não é como se eu estivesse cansada, estou mesmo cansada. E de novo estou com fome. Talvez tome um banho também.

Às vezes não gosto de olhar para o meu corpo, mas não quero falar disso.

Não hoje.

Não quero falar de vergonha. Nem de culpa. Sobretudo, culpa.

Tenho marcas do fogo ainda. E acho que elas vão seguir comigo. Se não for no corpo, tenho certeza que no espírito. Para o resto da vida.

Onde estava Clara nisso tudo?

Hoje não chove. Mas ainda é noite. Só que não vai ser para sempre. Vou sair do outro lado do túnel. Ah, vou. Não me importa mais se você está aí. Eu estou, depois de tudo o que aconteceu, e é isso o que importa.

E o que aconteceu, você pergunta.

Tenho que reencontrar Clara. Só ela pode me contar como cheguei aqui.

21:34

domingo, 17 de novembro de 2013

Nanowrimo - Dia 17


Então  você pensou que esta história era sobre a pequena Clara e descobriu que o ponto de vista não é de um – como chamam? – Narrador Onisciente, mas de uma menina trancafiada em um quarto chamada Maria, e é essa a personagem principal. É isso? Não sei. Pode ser e pode não ser. Meu nome é Maria – quer dizer, Maria é meu primeiro nome, do qual não gosto – mas ainda estou tentando recuperar a história de Clara? Por quê, você pergunta. Não lembro nem da minha, então se eu inventar – partindo do principio que estou inventando, e não sei de onde vêm essas imagens, se observo ou apenas vejo na tela da mente –, talvez a minha história seja recuperada. Ser é ser notado, li num livro hoje. Aliás, andei folheando uns livros impressos de gente publicada, e achei este aqui tão pobrinho. Mas não sou, ou pelo menos não me considero, escritora. Apenas escrevo, essa carta única lançada ao mar, e que provavelmente ninguém lerá.

Mas sou a personagem principal? Gostei da ideia. Será que já fui a personagem principal algum dia? Principal para alguém?

Veja, algumas imagens se esfumaçam em minha mente quando penso isso, e elas vão embora tão rápidas quanto chegam, feito sonhos, e que a gente imagina terem sido bons, sente que foram bons, e tem saudades, uma saudade doída de lá – mas segundos depois de acordar, não lembramos de mais nada.

Por isso escrevo.

Preciso de Clara tanto quanto ela precisa de mim. E preciso de você, por isso escrevo noite após noite (ontem era de tarde quando escrevi, você tem razão). E talvez, pensei agora, tudo isso que parece fazer algum sentido, aos poucos, pode ser apenas um delírio. Talvez você não esteja mais aí, nem nunca esteve, e estou escrevendo para ninguém. Talvez você nem seja meu irmão, nem se chame Jonas, e eu jamais tenha tido irmão.

Pai e mãe?

De novo uma imagem fugaz, algo que não consigo acessar, aparece e some em minha memória. Não sei. Por isso escrevo. Sarah, às vezes, me deixa tão doente tentando lembrar, tentando mergulhar no fundo mais fundo de mim. Lady Sarah. Mas essa história não é sobre Sarah, a terapeuta. É sobre Clara. Ainda é sobre Clara. E talvez sobre aquela família – partindo do princípio que são uma família. Devem ser, ou por que um homem e uma mulher brincariam com uma garotinha na praça? Ainda há a questão da irmã, mas ainda não sei onde ela se encaixa. Parece-me, mas agora já não tenho certeza, que a mãe tinha ido para o hospital por depressão pós-parto. Mas Clara não era mais recém nascida. Será que ela tinha um irmão? Será que alguém foi abandonado, ou adotado, ou algo assim?

Hora de jantar. Estou mesmo com fome e você sabe que uma hora eu tenho que comer. Amanha eu continuo.

sábado, 16 de novembro de 2013

Nanowrimo – Dia 16



E então tenho vontade de chorar.

Escondidinha, porque agora você já sabe que sou mulher.

Você sempre soube, mas não assumi antes meu gênero porque a condição de mulher me incomoda. Me aceitar mulher, e que fui mulher antes do tempo, me incomoda.

Não quero falar disso agora.

Se tivesse nascido homem, o passado, esse passado que se apagou da minha memória, mas que noite após noite tento recuperar aqui através da escrita, poderia ser mudado? Acho que sim, porque dizem que homens sabem se defender melhor do que mulheres, mas talvez – talvez, não sei – eu não tivesse sido condenada por ser bonita.

E então as memórias se vão, tão rápido quanto vieram.  Sarah diz que não lembro porque não quero lembrar. E por que não quero, pergunto a ela. Para me proteger, ela responde.  Ah, psicanalistas. Odeio a ideia de que estou me protegendo, que estou com... o quê? Medinho? Odeio pensar nisso. Por isso escrevo.

Talvez – repito, talvez, não sei – ela esteja certa.

O que você se lembra de sua infância, ela me perguntou outro dia. Não muito, respondi. Lembro do cheiro do café e em como aquilo era bom, e lembro quando coloquei um pouco de borra de café na boca para experimentar e achei aquilo amargo. Veja, bom e amargo. Talvez seja uma metáfora interessante para a infância, talvez para a adolescência também. Menino, essa deve ser uma metáfora interessante para a vida inteira. Menino ou menina, você sabe, é só uma expressão. Sei que a lembrança do cheiro do café me trouxe algo de bom, e neste momento penso em parar de escrever para tomar um café. Talvez esse seja um laço entre o passado e o presente, algo que me fez atravessar o bom e amargo do passado para desaguar aqui. E o que mais, além do café, ela perguntou. Não muito mais. Então, escreva.

Escreva para lembrar.

Escreva para ressignificar, que é um termo que os psicanalistas adoram.

Escreva para mudar um passado. Inventar um passado, que nem inventamos a nós mesmos, como dizia Rosa Montero.

Mas o que essa historinha que inventei, sei lá a troco de quê, sobre o homem alto e moreno, a mulher, a irmã e a criança – que agora sei que se chama Clara – tem a ver? Provavelmente nada, é apenas uma historinha, como todas as historinhas. Mas tem me distraído aqui neste quarto, dia após dia. Sarah acha que vai surgir alguma coisa daí, meio que por – como se chama? – livre associação. Não sei, mas às vezes me cansa escrever, me cansa essa história.  Não sei onde ela começa, ainda não sei qual o nome dos personagens – mas é insistente essa ideia de que ela terminou mal. Mas não é uma história sobre o presente? Não é apenas uma história que estou inventando? Ela está acontecendo agora. Não pode ter terminado mal. Ela nem terminou.

Hoje é sábado e agora é de tarde. Acho que é a primeira vez que escrevo de dia. Nem tinha pensado em escrever, mas a história me chamou, assim, devagarinho, Maria, venha me escrever, e nem adiantou eu dizer que não gosto de ser chamada de Maria, que nunca gostei do meu primeiro nome. Ela continuou me chamando e quando vi já estava aqui. Escrevendo essa historinha que ninguém vai ler. Que vou jogar no lixo depois. Que vou deletar o arquivo e se por ventura eu imprimir, como já foi sugerido (por Sarah?), vou rasgar tudo. E não terei que me preocupar com nada que foi escrito aqui. Já disse, mas vou dizer de novo, porque talvez você seja esquecido como eu: tenho uma vaga memória do que está escrito aí em cima, lá atrás, escrevo e depois esqueço. Assim como foi com a vida.

Mas uma hora, uma hora ou algum dia, isso vai ter que mudar. E não sei se quero que mude, não sei se vou estar preparada, e acho que não, então... por enquanto, por hoje, pelo menos, deixamos como está.

Hoje não tem ninguém brincando na praça. A família feliz não está lá. E por que não está? Deveriam, não? Por que o homem moreno não levou Clara para a pracinha se hoje é sábado? Por que ela não está brincando, e onde ela está que não está na pracinha?

Suspiro.

E neste momento me dá vontade de chorar de novo.