8 de outubro de 2014
23:38
Faz dias que não escrevo. Senti falta como uma viciada sem
sua droga. Sem seu alívio. Sem sua paz. Sem seu conforto.
Sem seu lar.
Cris achou um livro sobre suicídio. Li uns trechos. Me deu
vontade de escrever sobre isso. Se eu sair viva daqui, se sair daqui algum dia –
e para onde iria? –, talvez conte uma história assim. Tipo alguém que tenta
salvar suicidas, como um negociador. Mas, sei lá, vai ter uma pessoa que ele ou
ela não vai ter conseguido salvar, e a pessoa se mata, talvez por negligência
sua. E ele ou ela assume isso como uma missão: apagar um incêndio que talvez
não possa ser apagado. Ou mesmo que possa, sempre haverá a possibilidade do
incêndio voltar a queimar. Um negociador. Podia ser.
Até podia dedicar a história “àqueles que se foram cedo
demais”.
Na verdade, comentei isso com Sarah. E ela me perguntou por
que eu queria escrever sobre isso. Porque me chamou a atenção, respondi. É por
causa da Cris, ela perguntou. Sim e não, respondi.
Cris já tentou se matar.
− Você não pode salvar ninguém, disse ela.
Maldita. Talvez eu possa.
Suspiro.
Talvez não.
Mas se salvar a mim e fazer alguma coisa com a minha dor,
que talvez seja o que tenho tentado fazer desde o primeiro dia em que comecei a
escrever esta merda de história – esta merda de história que me faz ficar viva
e me mata ou queima, mas por algum motivo me dá esperança a cada noite – já vai
ter servido para alguma coisa.
Então você me pergunta: Clara está viva?
Ó, meu deus. Ela tentou se matar.
E não foi só uma vez.
Ela conseguiu? Ainda não sei.
Mas temo a cada noite e cada vez que me aproximo do abismo
penso: talvez ela tenha conseguido e talvez tenha levado mais gente com ela.
Deus, se você existe, se existe algo aí, por favor: permita
que este não seja o fim da história de Clara. Tenho vontade de chorar, uma vez
mais. Por Clara.
Por Maria, a mãe.
Por você e eu. Neste quarto pensando naqueles que se foram,
e naqueles que não quero que se vão. Não sei muito falar sobre isso. Mas sei
que existe algo que se foi. E algo que não quero que se vá. Hoje não. Ainda
posso mudar as coisas. Ainda posso mudar o que não aconteceu. Talvez o futuro.
O pesadelo dos pesadelos. Talvez ainda possa, quem sabe, mudar o destino. Ainda
não aconteceu. Talvez nem todos morram no fim. Talvez ainda dê para mudar.
Talvez a vida grite dentro desta outra vida que insiste em ir embora, e a vida
chama a vida, dizendo: fique mais um pouco.
Fique mais um pouco, garotinha.
Fique mais um pouco.
Amanhã você pode mudar de ideia.
E eu vou estar aqui. Estaremos e talvez possamos passear
pelos jardins. E não será o jardim celestial, ainda não. Ainda não. Vou estar
aqui, pequena Clara. Vou estar aqui te esperando.
Vou estar aqui te esperando, minha princesa linda.
23:57
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