sexta-feira, 3 de abril de 2020
Psicólogo & o beijo que mandei para o céu na formatura
Mês passado me formei psicólogo. Outro dia publico o texto explicando o contexto.
Por enquanto, curta aí o beijo que mandei para o céu e que a Fiergs levantou para aplaudir.
domingo, 22 de setembro de 2019
Minutos Border - Projeto Borboleta
Gravei outro Minutos Border. Como prometido no vídeo sobre "cortes", agora falando sobre o Projeto Borboleta.
Espalhem por aí, se acharem que mais gente possa se identificar.
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Doces Meninas Com Quem Passei Uma Temporada No Inferno
Acabo de ler um post antigo deste blog, em que eu ainda estava pesquisando nomes para meu então livro novo. E agora minhas Doces Meninas Com Quem Passei Uma Temporada No Inferno estão publicadas em ebook.
Aqui estão minhas Doces Meninas.
E aqui está a matéria bacanérrima que saiu no Literatura RS.
sexta-feira, 19 de julho de 2019
segunda-feira, 20 de maio de 2019
Minutos Border
Gravei semana passada meu primeiro Minutos Border.
A ideia é tirarmos um minuto para falarmos sobre o transtorno de personalidade borderline.
Comentários, sugestões, deixem aí.
E espalhem a mensagem.
Em um dos próximos também vou falar sobre o Projeto Borboleta.
Mas por enquanto, curtam aí.
A ideia é tirarmos um minuto para falarmos sobre o transtorno de personalidade borderline.
Comentários, sugestões, deixem aí.
E espalhem a mensagem.
Em um dos próximos também vou falar sobre o Projeto Borboleta.
Mas por enquanto, curtam aí.
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
Vídeo de divulgação para meu romance Um Pouco Eterno
Gravei hoje um vídeo de divulgação para meu romance Um Pouco Eterno.
Curtam, comentem, espalhem a mensagem.
Curtam, comentem, espalhem a mensagem.
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Um Pouco Eterno; Trilogia da Adicção
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019
Distantes Trovões - O Livro
Queridxs
leitorxs do Distantes Trovões:
Hoje voltei a
pensar em transformar o #DistantesTrovoes (que
antes de ser um blog foi originalmente uma coletânea de meus contos) em livro.
Graças à
maravilha do #AmazonKDP, ele
poderia se transformar em ebook (antes de cair nas graças de uma editora, mas
isso também é detalhe).
Até pensei em escrever um prefácio falando sobre eles, e deixar à venda na Amazon. Todos eles são anteriores ao meu romance #UmPoucoEterno, mas sem eles - tenho certeza - não haveria nada do que veio depois.
E sim, tenho um grande carinho pelos meus babies renegados ao longo dos anos.
Distantes Trovões - o livro. Que tal?
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Meu romance Um Pouco Eterno está na Amazon
Meu romance Um Pouco Eterno está à venda na Amazon, e concorrendo ao Prêmio Kindle. Se ele ganhar, será publicado em livro impresso pela editora Nova Fronteira, com o apoio da Amazon.
Tenho ouvido coisas lindas no face do pessoal que já leu.
Pessoal do #FaClubeDeMaria, acho que vocês vão se identificar com esta história.
Tenho ouvido coisas lindas no face do pessoal que já leu.
Pessoal do #FaClubeDeMaria, acho que vocês vão se identificar com esta história.
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domingo, 1 de outubro de 2017
Piano Para Pequena Clara – Dia 213
30
de setembro de 2017
23:06
Faz
tanto tempo que não escrevo. Acho que uns dois meses. Mas hoje deu vontade de
escrever, embora – como sempre – eu não tenha nada para falar. Esses dias Sarah
me falou sobre a exposição do Queermuseu e da polêmica que gerou por mostrar
umas imagens de famílias.
Não
posso dizer como a minha, porque não lembro da minha.
Mas
de famílias ou de garotas ou de pessoas que talvez se enquadrassem na história
da pequena Clara. Pelo menos na família em que papai Doutor Claudius brincava
de médico com a filhinha Clara, batia na esposa Maria – sim, o mesmo nome que o
meu – e comia a cunhadinha Lara, com quem teve um filho não assumido, Marcos.
E
havia Jonas, filho de Claudius e Maria, a mãe.
Não
sei qual o sentido da arte. Uma das zumbis daqui, talvez tenha sido Daf ou
Sabby, porque elas também pintam e escrevem, disse que a arte desacomoda.
Lembro de Sarah ter dito que a psicanálise também desacomoda.
Ela
falou que o velho tarado dizia que ninguém mente. Que quando alguém diz que não
era bem aquilo que ela queria dizer, é porque era exatamente aquilo que ela
queria dizer. O inconsciente é mais poderoso do que se imagina, e lá não há mentira:
a gente quer e finge que não quer. Mas não pode enganar.
Tipo
assim, se a gente quiser colocar sentimentos no cantinho da sala, e deixar de
castigo, eles voltam.
Feito
memórias que a gente não consegue apagar.
De
onde tiro a história da pequena Clara?
Suspiro.
Mas
encontrar um sentido na dor, mesmo que eu não entenda de onde ela vem, nem para
onde ela vai, talvez já seja um bom motivo para escrever estas bobagens que
jamais serão lidas. Talvez os espíritos anônimos das Meninas Com Fendas que,
suspeito, me leem quando durmo, precisem descansar e para isso também preciso
continuar tentando contar esta história.
Que
nem história é.
Apenas
um corte no pulso, e de novo olho para as cicatrizes em meus braços.
Fazia
tempo que não pensava no incêndio, que talvez seja o fim disto tudo.
Como
vim parar neste asilo?
Sei
que passei de novo pelo Corredor Eterno, onde pouco tempo atrás eu estava recebendo
coisinhas intravenosas e lá fiquei ao saber que o bichinho que mordeu Lady
Brownie me mordeu também, e agora sou a Maria Em Slow Motion, caminhando
devagarzinho. Parando aos poucos. Bem os poucos. Feito uma vida chegando ao
fim, com pernas queimando por dentro, como se não bastasse meus braços e suas
queimaduras.
Uma
vida chegando ao fim, mas que insiste em continuar caminhando. Em slow motion,
sim, mas sempre em frente.
Sou
a Maria Que Quer Estar Viva.
O
piano que jamais saiu dentro de mim. Ele toca enquanto escrevo.
Lindo
feio um corte no pulso.
Encontrar
um sentido na dor.
O
piano que chega aos meus ouvidos e toma conta de mim.
Feito
um abraço de mãe.
Feito
Maria abraçando sua princesa Lady Clara.
Tenho
vontade de chorar quando escrevo isso.
Posso
ver Maria, a mãe, tocando o piano de cauda negro, sobre o tapete branco da
sala, em sua casa que parecia um centro comercial de tão grande. Maria tocava
para sua filhinha linda.
De
novo, tenho vontade de chorar.
Mas
preciso continuar. Chorando ou não, caminhando ou não.
O
Corredor Eterno fez sua mágica em mim, e tenho que fazer minha mágica e
descobrir com termina a história da pequena Clara.
Talvez
em um incêndio.
Talvez
não.
Talvez
ainda possa mudar o fim da história, porque sou a Rainha Todo-poderosa e soberana
em meu castelo. Que não sabe o que fazer, Maria Perdida.
Por
isso escrevo.
Enquanto
o piano continuar tocando, devo continuar escrevendo.
Talvez
não seja nenhum absurdo retratar cenas assim na arte. A vida é absurda. Se a
arte recria a vida, então recriemos esta vida que não basta. Se ela não pode
ser, que passe a ser – e encontremos um sentido na dor.
Na
dor da pequena Clara, que é a mesma minha, e talvez sua, ó espíritos errantes
das Meninas Com Fendas. Meninas Que Voam Pelos Muros, Meninas Que Se Cortam.
Porque no fundo somos todas uma só. E quero mais que tudo libertar vocês, como
a mim mesma, dentro deste Asilo Eterno.
Do
qual não sei se sairemos um dia.
Mas
que, enquanto o piano segue tocando e iluminando meus cantos escuros, abriga
uma saída. Sim, no fim de tudo haverá amor. É o que mais desejo para mim e para
você.
Dançaremos
abraçadas. Feito Lady Brownie dizendo bonjour, bonjour, naquele sonho que tive.
Um
sonho bom.
Sonhei
com você hoje, embora ainda não nos conheçamos.
E
foi um sonho bom, embora eu não me lembre.
O
velho tarado disse que a gente não lembra que lembra.
Mas
está lá.
Onde
está o amor, onde está a família que quero encontrar. Está tudo lá, no porão do
dentro de mim.
Canso
fácil. O bichinho da slow motion me faz parar, escrever cansa, pensar cansa.
Mas
sei que escrevi e escrevi e ainda não disse o que queria dizer. O abismo se
aproxima de novo. Penso em uma exposição para a pequena Clara. Daf disse que
tinha pintado novos quadros de Maria, a mãe, pegando a pequena Clara pelas
mãos, talvez girando ela no ar, brincando com seu nenê, e acho que nenhuma
delas tinha rosto.
Qual
é a cor do cabelos dos personagens que tento descrever? Como é o rosto de
Maria, a mãe? De Claudius, esse homem que demorei tanto a batizar? Lara, Jonas,
Marcos? Conheço apenas minhas irmãs-zumbis porque vejo elas, e mesmo assim elas
aparecem e somem por essas alas e quartos e grades e tudo mais pelo que tenho
passado.
Anjos,
diriam as Meninas Que Voam Pelos Muros. Somos anjos querendo voltar para casa.
Mas
ainda não é hora. Sei que no tempo certo, estaremos juntas, você e eu. E haverá
amor.
Você,
com quem já estive ou estarei no futuro.
De
onde tirei isso?
Não
sei, Sarah disse que era apenas para escrever, sem pensar, sem censura, feito
livre associação. Meus dedos cansam. Acho que por hoje está bom. Chegamos mais
perto do abismo.
Mas
também chegamos mais perto de algo que talvez se chame amor.
Então
suspiro, porque sei – agora eu sei – no fim de tudo haverá amor.
23:49
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quinta-feira, 3 de agosto de 2017
Piano Para Pequena Clara – Dia 212
Quinta-feira,
3 de agosto de 2017
22:21
Dois
meses sem escrever esta merda de história, minhas bobagens inúteis que jamais
serão lidas. A coisinha de Brownie continua me cansando, e agora sou a Maria
Cansada, que aos poucos vai se tornando a Maria Em Slow Motion. Será que foi
por isso que não escrevi mais?
Não
sei, e não importa. O caso é que não estou mais na Casa, nem na Ala das Meninas
Que Voam Pelos Muros, ou na Ala das Meninas Que Se Cortam. Nem no Corredor
Eterno. Mas continuo escrevendo esta História Eterna que, acho, nunca vai
chegar a lugar algum.
Acho,
mas existe uma pontinha de medo, que no fundo é esperança, de que sim, ela
termine. E no fim de tudo haverá amor.
Meu
deus, não sei se o que passa pelos meus braços e pernas agora é a coisinha
desmielinizante que habita em mim, ou apenas saudade. O piano que me traz de
volta, que não me deixa desistir, que insiste que eu continue escrevendo e
escrevendo, esticando as frases feito um cérebro que cansa mais que os outros,
mas que mesmo assim não desiste.
Sarah,
a psicanalista perturbada deste Asilo Infinito, perturbada como todos os
adoradores do velho tarado, diria que tenho pulsão de vida.
Maria
Com Pulsão de Vida.
Que
ouve um piano em sua mente, que pode ser alucinação, doce como um corte no
pulso.
Mas
pode ser saudades, com cheiro de infância feito um brownie.
Saudades
com cheiro de infância.
Me
arrepio quando escrevo isso.
O
abismo se aproxima.
Dois
meses sem escrever esta merda, achando que conseguirei fugir dele, mas ele
sempre me encontra.
Então
tenho aquele medinho, que no fundo é esperança, ou esperança que no fundo é medo,
de que – tenho sim medo de escrever o que vou escrever agora – a resposta de
como termina a história da pequena Clara esteja enterrada dentro de mim.
Quero
fugir desse lugar, e talvez por isso odeie escrever esta merda de história.
Queria esquecer, mas esqueço que esqueci, e aquele lugar aos poucos vai vendo a
luz do dia.
Sarah
diria que isso é o retorno do recalcado.
Tenho
que parar de escrever este texto, minha bexiga está estourando, mais um
probleminha que a coisinha de Brownie me legou.
Mas
ninguém vai se importar se eu parar para ir ao banheiro, como ninguém jamais se
importou.
Cada
palavra que escrevo aqui, suspeito, tem um significado maior do que consigo
ver. Sarah ia adorar isso.
Tenho
quase certeza de que ela sabe como termina a história da pequena Clara, e quem
sou eu dentro da Mitologia de Maria. Mas ela não vai me contar. Malditos
psicanalistas. Ela quer me ver chegar ao fim disso. Partindo do princípio que
haja um fim, porque em um dos textos sobre o qual ela falou em uma de suas
aulas havia a temática da errância na psicose, que é como este texto que não
chega a lugar algum, não se apoia sobre nada. Mas há marquinhas, como as
marquinhas na psicose.
Então
sou Maria, a louca.
Mas
houve Claudius, papai abusador e médico alcoólatra que voltou a beber depois
dez anos em abstinência, quando fez um brinde nos seios de Lara, a titia
gostosinha putinha que ficava se refestelando para o cunhado, que deveria ter
ficado com a esposa Maria, a mãe, internada em um hospital no dia de réveillon –
sim, o mesmo réveillon em que o Doutor Abusador voltou a beber, e não se
contentando com a cunhadinha, quis namorar sua filhinha Clara.
Maldito
seja. Se há alguma justiça no céu, ou no inferno, espero que ele esteja
queimando.
Lento
como uma esclerose.
Sinto
cortes no espírito ao escrever isso. Mas eu disse que talvez no fim haja amor,
então preciso continuar escrevendo.
Ainda
houve o filho Jonas, que era muito calado, acho que em decorrência de um
trauma. Talvez ter visto mamãe dar um tiro no papai, pensei agora. Maria deu um
tiro em Claudius. Isso faz sentido. Ela quis defender Clara, ou defender a si
mesma, já que Claudius batia nela. Mas havia também Marcos, filho não assumido de
Lara com Claudius, e que todos acreditavam sem pai. Marcos tentou defender
Clara de Claudius. Ele bebeu no lugar dela, quando Claudius de um gole de não
sei o quê, talvez fosse vodka, para a pequena Clara, que na época devia ter
cinco anos.
De
onde tiro essas coisas, eu, péssima escritora?
Talvez
no dia em que descobrir isso, descubra como termina esta história.
E
descubra também como estas queimaduras vieram parar em meus braços.
Mas
não quero falar do incêndio, porque a coisinha me cansa, meus braços e dedos e
o espírito cansam. A vida me cansa, mas ainda não desisti dela.
Suspiro.
O piano continua tocando dentro de mim.
Lento.
Mas continua tocando.
E
enquanto ele continuar tocando, continuarei a escrever e enquanto continuar escrevendo
e esticando frases e parágrafos para longe da dor que deve partir, e deve fazer
um sentido para que as outras Marias não desistam antes do parágrafo terminar, haverá
vida, porque além do parágrafo existe vida. Existe pulsão.
E
lá está o amor que procuro e com o qual sonho toda noite.
E
sei que ele virá para mim, assim como virá para minhas irmãs neste Asilo
Infinito.
O
piano vai baixando, o piano que me acalenta.
O
piano que dá sentido a tudo.
Então,
sim: no fim de tudo haverá amor.
22:59
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sábado, 3 de junho de 2017
Piano Para Pequena Clara – Dia 211
Sexta-feira,
2 de junho de 2017
23:16
Alguma
coisa aconteceu.
Alguma
coisa que ainda não entendo.
Por
isso escrevo.
Nesse
mês que recém terminou, passei dez dias ou podem ter sido dez anos, não sei, em
um mesmo corredor deste asilo infinito, deitada em uma cama, com tubos enfiados
em minhas veias e uma poção mágica que doía a cada vez que erravam a veia.
Presa no mesmo corredor, caminhando de um lado a outro, o mesmo Corredor
Eterno, presa no mesmo dia sem fim.
Acho
que o bichinho que mordeu Lady Brownie me mordeu também, e fui gradualmente me
transformando na garota que anda em slow motion. Maria Que Tem Que Parar.
Ouvi,
nesses dias perdidos no tempo, em que ainda não consigo decifrar, que um cara
chamado Chris se matou. Descobri quando alguém nesse Corredor Eterno estava
ouvindo uma música que lembrou o piano que ouço de tempos em tempos, mas tinha
um som diferente. Falava de um sol de um buraco negro, e esse Chris perguntava
se ele não ia vir.
Você
não vai vir?
Me
arrepio uma vez mais quando escrevo, esta história maldita que não me deixa
descansar.
Nem
você, que talvez ainda me leia quando cochilo, eu que sou a Maria Insone.
Pensei
que esse Chris devia ser um Menino Com Fendas. Como Peter Steele.
Como
nós todas, Meninas Com Fendas, à espera deste sol de buraco negro – um sol
dentro de um buraco negro, não tinha pensado nisso.
Esperança.
Sei
que passeei pelo Corredor Eterno, olhando das janelas para uma parte
desconhecida do asilo, e deixe-me dizer que jamais imaginei vir para esta parte
do asilo, muito menos tomar a poção mágica que me inundou, mas vá lá, a gente não
sabe o que vai acontecer. Nem sei como termina a história da pequena Clara, nem
se ela termina, e acabei esquecendo dela.
Mas
essa merda sempre volta, tipo o retorno do recalcado, ai, Sarah, e seus
absurdos psicanalíticos.
O
caso é que quando passeei pelo Corredor Eterno, com portas fechadas e abertas
dos quartos ao lado, e gente de branco, não sei se anjos ou fantasmas, que
vinham furar meus dedos algumas vezes ao dia, eu com o cateter pendurado no
braço para que minhas irmãs soubessem que são minhas iguais, revivi o que senti
na Ala das Meninas Que Se Cortam, quando mostrei minhas cicatrizes, e quando
fui acolhida pelas Meninas da Fita Preta e as Meninas do Projeto Borboleta.
Ao
verem meu cateter, passei a pertencer.
Uma
vez mais, reencontro minha família.
Meu
deus, me arrepio quando leio o que acabo de escrever.
Minha
família.
Tudo
volta para ela.
Sweet
lady Clara, a garotinha que é o coração de tudo que escrevo, esperando o piano
de sua Maria, mamãe querida, e talvez de uma forma que ainda não compreenda, ou
não possa, ou não queira, ou não esteja pronta para entender, essas histórias
todas se cruzam.
Não
pensei mais em Claudius, doutor maldito abusador, nem Lara, a titia putinha,
que estava se divertindo com o cunhadinho, enquanto Maria, a mãe, estava
internada no hospital.
E
você que talvez me leia já deve adivinhar o que vem a seguir: internada em um
hospital parecido com este lugar.
Que
bom que ninguém jamais vai ler essas bobagens que escrevo aqui.
De
qualquer forma, escrever, assim para alguém-ninguém, mesmo que você só exista
em minha mente, talvez me ajude a sair do outro lado, e mesmo que agora, depois
das semanas no Corredor Eterno e da poção mágica entrando em minha veia todo
santo dia, e o bichinho de Brownie que me fez caminhar devagarzinho, não tenha
a menor ideia do que seja este lado e aquele lado.
Brownie,
a garota em slow motion que faz doces com cheiro de infância.
A
infância que não lembro.
Mas
que tento criar, se não for mais possível recuperar. Cada vez que escrevo.
Vi
pessoas, tive conversas. Não sei se foi sonho, mas em minha mente tudo foi
real. Real e não real. Tipo um sonho que na verdade pertence a uma vida
passada. Penso em Brownie uma vez mais, lembro do sonho que tive com ela em que
dançávamos juntas, cantado bonjour, bonjour, bonjour.
Dançaremos
de novo, Lady Brownie?
Ouço
em minha mente Chris cantando wash away the rain, eu que sou a Maria que
escreve quando chove, mesmo que não tenha escrito nos dias chuvosos que
fizeram, porque talvez a história da pequena Clara termine mesmo em um dia de
chuva.
E
porque talvez ainda não esteja pronta para terminar essa história. Pelo menos
sem ter uma outra história começando, um novo começo para substituir a dor que
deve partir. Levada para longe pela chuva.
Então
acredito que sim, Brownie: dançaremos juntas de novo, e sentirei esse cheiro de
infância dos brownies, e sorrirei, princesa arteira que sou. Feito aquela
garotinha que volta em meus sonhos, e que deve ter mesmo existido. Feito uma
vida passada. A princesa do papai que não queria ter sido sua amante, maldito
seja. Talvez ainda possamos consertar as coisas. Talvez possamos encontrar um
sentido na dor.
Talvez
o Corredor Eterno tenha vindo para me mostrar, o que não consegui ver desde a
primeira linha que escrevi aqui. Talvez a poção mágica nas veias e o andar em
slow motion, o fôlego que chega curto, também.
Não
tinha nada para escrever, como jamais tive desde a primeira palavra que escrevi
aqui, nesta História Infinita. E então a mágica que ainda não consigo nomear,
porque consigo nomear quase nada, e isso deve ser sintoma de alguma coisa, ai,
psicanalistas do inferno – e então a mágica acontece. E meus dedos tomam o
fôlego e a velocidade que minhas pernas não possuem mais. Pelo menos, hoje.
Lembrei daqueles grupos que Claudius ia. Hoje, não. O futuro a Deus pertence, pareço
ouvir vindo não sei de onde.
Chris
toca no céu. Solando agora em seu Corredor Eterno. Como Peter Steele. Como você
e eu.
Então
sei que dançaremos de novo, ó doce garota dos brownies. Feito princesas
coreografando em um sonho bom.
À espera do sol dentro do buraco negro.
00:04
domingo, 30 de abril de 2017
Piano Para Pequena Clara – Dia 210
Sábado,
29 de abril de 2017
23:30
Faz
frio no asilo. Mesmo assim, saí um pouco aqui da Casa e caminhei pelo campo lá
embaixo. Senti o frio, a umidade, a noite. O piano voltou para mim. Não sei
mais se foi sonho, delírio, vontade: parecia a música que falava na mulher
cristã, ouvi as teclas, a voz de Peter Steele, explicando toda a dor e o amor
do mundo.
Neste
asilo sem fim.
O
caso é que, antes do frio, este frio mágico que amo, caminhei por aqui. Tinha
me esquecido como este lugar é grande, como há outros prédios, janelas, grades,
quase apartamentos por aí. Queria ver de novo o chafariz que fazia Cheshire
dançar e sorrir, vestindo seu pijama, mas fui até a ala das Meninas Que Voam
Pelos Muros. Pelo visto sou mais conhecida do que imagino pelas minhas irmãs-zumbis,
porque senti que olhavam para mim e comentavam.
Ouvi
trechos de um tal jogo da Baleia Azul, e uma delas jogou esse jogo. O último
desafio, depois de coisinhas como subir em um prédio alto e cortar as palmas das
mãos – também passei pela ala das Meninas Que Se Cortam, notei várias com a
fita preta no braço esquerdo, mas poucas com as borboletas desenhadas no corpo –
e o desafio final é se matar. Ouvi uma das garotas que jogou esse jogo e
conseguiu sair antes do fim porque alguma boa alma, suponho, entrou em contato
com ela, de forma anônima, e disse que ela valia a pena.
Valemos
a pena, garotas.
Talvez
essa seja a lição que temos que aprender.
Sei
que ela conseguiu sair do jogo a tempo, sem ter as reprimendas que disseram que
ela ia ter caso o fizesse, e ela falou para as outras não entrarem nessa
roubada.
Uma
ou outra concordou, mas vi cabeças acenando, mais por curiosidade do que por
concordarem, no sentido de que ficaram pensando: por que não?
A
doença não tem cura, lembrei, e talvez Claudius tenha ouvido isso em algumas
daquelas reuniões que frequentava antes de voltar a beber depois de dez anos em
abstinência, quando estava se divertindo com a cunhadinha Lara em uma noite de réveillon
– quando deveria ter cuidado de Maria, a mãe, internada no hospital.
Maldito,
filho da puta.
Doutor
Abusador, espero que esteja queimando no inferno.
Se
existe mesmo uma mágica que me faz escrever o que escrevo, e só pode existir
porque jamais sei o que vou escrever antes que as palavras saiam de mim, vindas
não sei de onde, acho que lembrei de Claudius, pai de Clara, porque lembrei que
Sarah disse que havia na internet um projeto chamado Pode Gritar, com relatos
das meninas que passaram pelo que a pequena Clara passou.
Em
algum momento, Claudius deve ter dito para Clara, como talvez já tenha escrito
aqui, que ninguém ia acreditar nela, não havia nada de errado naquilo, era
apenas um pai amando sua filha, não conte para sua mãe, se você contar ela não
vai acreditar, ninguém vai acreditar, você é uma criança, um dia você vai
entender.
Talvez,
e essa é a minha dúvida enquanto escrevo: a pequena Clara tenha entendido.
Não
sei se tarde demais.
Não
sei se ela falou.
Não
sei se ela escreveu.
Me
arrepio.
Ela
pode não ter falado, porque não podia, porque não conseguia falar. Quero dizer
a ela: conte sua história, pequena Clara.
Escreva,
se você não consegue falar.
Ó,
meu deus.
Escreva,
se você não consegue falar.
Conte
sua história, pequena Clara.
Conte,
que um dia o mundo vai ouvir.
Se
não puder ouvir, que leia.
Feito
mensagens lançadas ao mar. Ou do alto do castelo, doce princesa.
Ou
do alto do quarto de um asilo frio.
E
um dia: a dor vai passar, meu amor.
23:57
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