Estas são as primeiras palavras que escrevo com computer, teclado e, principalmente, monitor novos. Depois de uns dias out of system, aproveito a quinta-feira (teoricamente o dia em que meus outros compromissos se aliviam) e estreio ferramenta nova. Para mim que escrevo – para você que me lê, sei que não faz muita diferença. Mas estou acostumando com digitar em um novo teclado (a velocidade vai voltando aos poucos, parece como reaprender a andar), e acostumando com a tela nítida e caracteres grandes, incrivelmente claros, depois de ver meu monitor, fiel companheiro por exatos 10 anos, agonizar meses a fio. Novos começos, não é mesmo? A vida tem que seguir em frente. Claro que agora vou – imagino – aumentar minha cobrança interna para produzir literatura. Aliás, tenho que reler alguns textos, polir, esculpir, reescrever. O mais difícil, como tudo, é começar. Mas começar é preciso, de algum modo. Como disse Stephen Koch, na frase de abertura de sua Oficina, “só existe uma maneira de começar: é começar agora”.
Pelo que ando lendo sobre Miles Davis e Dostoiévski, os caras eram extremamente dedicados. Quer dizer, os grandes sempre foram dedicados, independente da área. Miles ia na biblioteca e no museu pegar emprestadas partituras de Stravinsky e outros clássicos para aprender e estudar, coisa que muitos de seus ídolos jamais fizeram. Dostoiévsky foi leitor diligente, construindo seu talento com constância e disciplina ao longo dos anos (a frase do dia: “Quero escrever um romance, e não descansarei enquanto não conseguir”). E isso com contas batendo, fome, prisão, exílio fora e dentro de sua própria terra natal. Mesmo que tenham se passado anos, eles me ensinam a mesma coisa: continue resistindo, ignore as dificuldades, siga em frente. Se não fosse a sua perseverança, beirando o inabalável, eu não estaria divagando sobre sua obra em um fim de tarde em pleno outono de 2011.
Também vou poder estudar, agora com as aulas mais claras frente aos meus olhos. E tentar manter meu foco. E enquanto penso em como encerrar este texto, lembro de Coltrane, que fazia solos quilométricos quando estava na banda de Miles, e depois em sua carreira solo, justamente por não saber como encaixar e concluir a sequência de notas sobre as quais vinha improvisando. Mas como não sou Trane, é melhor ficar por aqui.
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quinta-feira, 9 de junho de 2011
quinta-feira, 2 de junho de 2011
RIP completa 18 anos
Enquanto a presidente do complexo onde fica a Distant Thunders Corporation e minha progenitora foi dar uma bandinha para fugir do frio, e antes de fazer o chimas e começar a trabalhar em meu escritório, vi a maravilhosa neblina e o friozinho mágico de um outono típico da cidade-sorriso. Há exatos 18 anos, no mitológico ano de 1993, tive os dois primeiros períodos da quarta-feira de biologia, e a professora pediu um trabalho para a quinta. De tarde, lembrei de uma tia minha falando sobre um certo conhecido nosso, que tinha o passado muito sofrido, pelo menos na visão dela, e vi que ela falou aquilo com uma certa admiração pela superação dele, como quem diz “depois de tudo, ele ainda está aí”. Com aquela eterna história adolescente de precisar ser aceito, pensei eu mesmo em um amigo imaginário, que também tinha tido um passado turbulento, de muitos excessos, e hoje era um cara super certinho, que andava na linha, talvez como uma reparação a si mesmo e ao mundo. A história veio para mim tão pronta que decidi escrever no caderno. Nascia ali o personagem RIP, cuja autobiografia levei horas datilografando, então catando milho, tecla por tecla, quando ganhei minha primeira máquina de escrever, que tenho até hoje, minha Brother GX-6750. Tirei alguns xerox e dei para vários amigos, inclusive uma professora de literatura, dois anos depois. Mas naquele dia acabei não fazendo o trabalho de biologia, e rodei no fim do ano (por apenas dois décimos, então a história ficou meio mal contada). Mas isso não importa. Tenho o caderno onde escrevi a autobiografia do RIP até hoje, e carrego junto a vocação registrada nas linhas de um personagem com o qual escrevi mais dois extensos contos (um deles um calhamaço mandado por carta para vinte pessoas anos atrás). E segui escrevendo, e estou escrevendo em uma quinta-feira de manhã, 18 anos depois. Embora tenha feito, e esteja fazendo, outras coisas da vida, continuo produzindo literatura. A melhor maneira de virar gente grande mas sem perder o encanto é, de alguma forma, continuar resistindo. O RIP virou gente grande, e posso identificar traços dele em Pedro Revell e Carol, protagonistas das duas narrativas mais longas que escrevi até hoje.
Então aproveito minha rápida semana de home alone para mergulhar mais na cuidadosa tradução de Robertson Frizero para as Cartas de Dostoiévski, em edição de luxo, repletas de suas convicções sobre o fazer literário (ele diz gostar muito do trabalho de Pissemski, “um mestre em contar histórias”, mas acha lamentável ele escrever rápido demais, “muito rápido e em demasia. Um homem deve ter mais ambição, mais respeito por seu talento e ofício, e mais amor pela arte. (...) Os personagens colossais, criados pelos autores colossais, em geral nascem do trabalho demorado e persistente”).
Além disso, temos várias pautas para os próximos dias, como produzir o que faltou para o Laboratório de Autores, começar a rever a Sétima Temporada da série preferida deste blog, talvez começar de novo o Faulkner, talvez começar a ler o Kind of Blue (o livro, não o disco), estudar, escrever para as teachers (18 anos depois, me tornei um bom aluno, rá!), e mandar alguma contribuição para o Escritores Independentes, que foi criado a partir dos textos da oficina.
E vamos que vamos, que a hora é agora.
Então aproveito minha rápida semana de home alone para mergulhar mais na cuidadosa tradução de Robertson Frizero para as Cartas de Dostoiévski, em edição de luxo, repletas de suas convicções sobre o fazer literário (ele diz gostar muito do trabalho de Pissemski, “um mestre em contar histórias”, mas acha lamentável ele escrever rápido demais, “muito rápido e em demasia. Um homem deve ter mais ambição, mais respeito por seu talento e ofício, e mais amor pela arte. (...) Os personagens colossais, criados pelos autores colossais, em geral nascem do trabalho demorado e persistente”).
Além disso, temos várias pautas para os próximos dias, como produzir o que faltou para o Laboratório de Autores, começar a rever a Sétima Temporada da série preferida deste blog, talvez começar de novo o Faulkner, talvez começar a ler o Kind of Blue (o livro, não o disco), estudar, escrever para as teachers (18 anos depois, me tornei um bom aluno, rá!), e mandar alguma contribuição para o Escritores Independentes, que foi criado a partir dos textos da oficina.
E vamos que vamos, que a hora é agora.
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