terça-feira, 11 de novembro de 2014

Piano Para Pequena Clara – Dia 142




Terça-feira, 11 de novembro de 2014

21:44

Começo a escrever. Sabby disse que estou na difícil missão de decidir seguir em frente ou recuar, e em ambos casos vou me complicar ainda mais. Eu pularia do penhasco, Sabby, se não tivesse quase certeza que vou me espatifar lá embaixo. Maria Feito Caquinhos. Caquinhos do que poderia ter sido e não foi. Mas acho que Sarah não me diria isso. Ela sabe, malditos psicanalistas, que quanto mais tento fugir, mais o abismo se torna inevitável. Acontece que este voo, de uma montanha a outra, dói como nada em minha vida, esta vida que não recordo, poderia. E é algo, suspeito, que ainda não possa suportar.

Por isso vou escrevendo, devagarzinho, como Lady Brownie caminhando.

Ela caminha tão devagar, tão em câmera lenta por causa de sua doença, que às vezes até parece uma dança.

Teria isso ficado em meu inconsciente?

Sonhei com ela.

Esses dias ela me pediu, assim como quem não pede já pedindo, que talvez um dia eu pudesse escrever sobre ela. Uma historinha, um poema. Uma cena para Dafne pintar, pensei. Se eu soubesse escrever qualquer coisa, juro que escreveria para ela. Só que não sei. Aquilo que escrevo só escrevo porque ninguém vai ler (embora, volto a me assustar, acho que algumas dessas zumbis leem escondidas isso aqui, enquanto durmo ou me distraio).

Eu não saberia escrever nem sobre Brownie, nem sobre ninguém.

Porra, não sei nem escrever sobre mim mesma.

Mas sonhei com Brownie.

Estávamos sobre um palco. Ela caminhava sobre ele e um holofote acompanhava seus passos, em direção a mim. Bonjour, disse ela. O palco estava escuro. Iluminado apenas pelos passos delicados de Brownie. Tive certeza que ela era bailarina. Ninguém que não fosse poderia caminhar daquele jeito. Ela abriu os braços e começou a dançar uma valsa e ouvi o som de um piano. Não o piano triste e lindo que sempre ouço, mas um piano tocando uma valsa. Bonjour, bonjour, bonjour, cantava ela.

Ela veio até mim e segurou minhas mãos, me convidando para a dança. Nunca soube dançar, muito menos uma valsa, mas ela me conduziu. E animada por uma força que só pode ter sido divina, dancei. Dançamos. Bonjour, bonjour, bonjour, cantava ela. Bonjour, bonjour, bonjour, cantei eu. Duelamos, cada uma dizendo a saudação para a outra, feito espelho, feito bumerangue. Feito eco.

Ela estava linda. Vi que ela tinha nascido para aquela dança. Não posso deixar de registrar isso: eu também estava bonita. Linda, não sei. Linda, que se dane. Estávamos lindas. Metade da dança vestidas de bailarina, metade da dança vestidas de branco, metade da dança vestidas de preto. O holofote e o compasso do piano nos acompanhavam, acho até que eram eles que nos conduziam.

Não consigo imaginar Clara com 15 anos para dançar uma valsa com Dr. Estuprador. Não consigo imaginar Maria, a mãe, vendo aquele nojento dançar com sua princesinha. Não consigo imaginar Lara, titia putinha que dava pro papai enquanto a maninha vivia internada em hospitais, vendo essa dança. Mas talvez Jonas dançasse com Clara. E Marcos também.

Uma dança entre irmãos.

Ó Brownie, será que essa dança teria sido possível?

Ou foi apenas um sonho?

Porque se foi, quero voltar.

Quero voltar, Sabby.

22:04

domingo, 9 de novembro de 2014

Piano Para Pequena Clara – Dia 141



Sábado, 8 de novembro de 2014

23:52

Você me pergunta de onde tiro esta história, as palavras e personagens que povoam meu texto a cada noite. A melhor e mais honesta resposta é: não sei. Acho que não escolhi escrever esta história. Ela que me escolheu. Nunca, desde a primeira frase que escrevi aqui, mais de um ano atrás, me programei para escrever. Jamais soube o que ia escrever antes de escrever de fato. Apenas comecei a juntar palavras e as coisas foram surgindo. Tudo nesta história foi feito assim. Sarah chama isso de livre associação. Talvez você pense que tudo isso é uma projeção de minha mente. Clara, Maria. Todos eles. Claudius, Lara, Jonas, Marcos. Tudo isso é coisa da minha cabeça, basicamente. Tipo alter egos.

Meu deus, as loucuras de Sarah e daquele velho tarado estão mesmo me contaminando.

Eu não sei por que escrevo o que escrevo – ou sei e finjo que não sei, como talvez dissesse Sarah, ou talvez não dissesse, porque psicanalistas não dizem o que eles veem: esperam a gente ter nosso insight. E enquanto isso, amargamos esperando. Mas talvez amarguemos por algum motivo. Tudo tem um motivo, dizem eles.

Então talvez sejam símbolos – sim, vou entrar na loucura mais um pouco – e cada uma dessas pessoas tenha significados outros. O piano com certeza tem. Mas não ouço ele agora e confesso que tudo aqui está silencioso e no silêncio me perco. O piano me organiza, mesmo que ainda tenha dúvidas se ele existe.

Ele existe, sim.

Paro um pouco de escrever.

Fecho meus olhos.

E escuto.

Meu deus. Como é lindo. Como é triste. E como a vida pulsa naquelas teclas. A beleza nasce da dor. A cor que tento encontrar noite após noite, madrugadas sem fim. A cor que não pode ser descrita, diria Dafne. Só sentida. Maria, a mãe, tocando para sua bonequinha linda. Maria, que era espancada por Claudius. Maria que vivia em hospitais. Maria como eu.

De novo, tenho vontade de chorar.

O piano que me rasga.

Que me conforta.

Cada dia que escrevo, que sinto em algum lugar perdido dentro de mim, que o piano segue sua melodia, suas teclas, seus acordes, chorando, sorrindo, celebrando, vivendo: é um dia a mais de vida para todas nós.

O piano, em minha mente de péssima escritora, não está na mesma sala, sobre o tapete claro. Está calor. Penso que o piano está ao lado de um riacho. Tem uma cachoeira nas costas de Maria e Clara brinca na água. Não me diga que isso é impossível: é minha história, escrevo do jeito que eu quiser. O piano está ao lado de um rio que corre. Será isso simbólico? Talvez o piano nunca mais esteja lá. Mas está hoje. E está calor. Não chove. O piano é como um deus do rio. Sua melodia faz o rio correr. Clara molha os pés na água que segue, como a vida que deve seguir. Jonas está brincando no meio das árvores altas. Muito altas. Há um balanço e Jonas está sobre ele. Na verdade é uma cadeira de borracha e há uma corda gigante que liga uma árvore na outra. Jonas vem voando na cadeira, riscando o ar entre as árvores. Ele balança seus pés suspenso no céu. Clara sorri. Diz que quer ir também. Maria disse que vai levar ela. Maria não está tocando mais o piano. Mas a melodia segue.

Claudius não está por perto.

Claudius talvez nunca tenha existido.

Nesta pintura ele nunca existiu.

Nem Lara.

Sem papai nem titia que deixaram a pequena Clara morrer antes da hora.

Nesta pintura, não há morte. Não há dor. Apenas uma família feliz.

Filinha, mamãe. Maninho.

Talvez um fim-de-semana. Uma sede campestre. Um fim-de-semana que poderia ter durado uma vida inteira. E no dia de hoje, sei que ele durou. Tenho vontade de sair daqui, correr para dizer para Dafne pintar este quadro. Perguntar se Sabby tem uma nova poesia. De dor, que seja, qualquer poesia é uma poesia de amor. Lady Brownie talvez fizesse um doce, e eu ia esperar ela vir com seu jeito devagarzinho para que eu mostrasse minha novidade para ela. Jade não vi mais, mas talvez ela viesse também, e talvez trouxesse seu namorado, se é que ela ainda está namorando.

Seria uma reunião de família.

Que é tudo o quanto eu quero sonhar hoje.

Uma família linda.

E feliz.

00:17

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Piano Para Pequena Clara – Dia 140



Quarta-feira, 5 de novembro de 2014

22:12

Só vou escrever agora porque não tenho a menor ideia do que vou escrever a seguir. Talvez seja esse confiar em algo que não enxergo e que dita as palavras que vou colocando aqui, sem pensar, noite após noite, que me faz seguir em frente. Estou cansada. Mas antes que decida desistir, desisto de desistir.

Não sei se é memória ou alucinação.

Mas ouço o piano.

Sarah deixou uns textos por perto, e desconfio que ela estava esperando a minha curiosidade me fazer pegar um ou outro escondido, que falavam sobre trauma e memória. Quem tem um trauma não consegue representar. Clara não conseguia brincar para descarregar suas angústias.

E eu nunca sei o que vou escrever.

Deve haver uma similaridade nisso.

O passado não passa, é revivido – mas a gente não lembra o que aconteceu. Li fragmentos e me deu um afã de vir aqui escrever estas palavras que ninguém vai ler. Mas desconfio que não uma, mas algumas pessoas me leiam escondidas. Sabby disse que a vida sem poesia não é vida; é apenas uma coisa que a gente passa, assim, por passar. Dafne disse que mesmo a vida mais cinza tem outras cores.

Cores lindas.

Talvez o que eu faça aqui, Maria Paranoica Que Acha Que Tem Gente Que Lê Esta História De Merda Sem Que Eu Saiba, seja procurar outras cores para a história de Clara.

Minha menina linda.

Dói como um corte no pulso, mas também é lindo como um corte no pulso.

Olho as cicatrizes em meus braços, depois as queimaduras, uma vez mais.

Quero encontrar coloridos para esta história horrível. Papai que abusava da filhinha, batia na mamãe, comia a titia, alcoólatra que voltou a beber depois de dez anos. Tem algo que esqueci?

Sim, a parte boa.

Não sei qual é. Mas tento encontrar. E encontrar essa garotinha e essa mãe, essa Maria, Maria como eu, me faz acreditar que existe um colorido no fim de tanta dor. Me arrepio quando escrevo a palavra dor, mas você, seja você quem é, ou vocês quem sejam, sabe que a dor da qual falo não é apenas a que a gente vê por fora. Aliás, dor nenhuma se vê por fora. A gente não vê dor. Não sente a dor do outro – só quem sente é quem sente, não é mesmo?

Minhas costas doem. Hoje não vi Cris. Neste momento tenho saudades dela. E tenho saudades, sempre, daquilo que não lembro. Daquilo que perdi, e sei que perdi a mim mesma. Mas conforme vou escrevendo, algo nasce lá no horizonte, onde está o penhasco, do qual fujo mas para o qual me dirijo. Noite após noite.

Mas há uma cor, e é nisso que queria pensar agora. Eu tive um sonho. Não sei se foi sonho sonhado ou apenas inventei isso em minha mente de pessoa que cria coisas que não existem, ou talvez tenham existido e não sei mais o que é realidade ou sonho. Tudo é sonho, suponho. Mas eu estava em uma sala com uma mulher tocando um piano negro sobre um tapete claro. Ao seu lado, uma criança. Essa mulher era Maria, a mãe. A criança era Clara, a pequena Clara, Sweet Lady Clara. A bonequinha mais linda do mundo. Só que havia um nevoeiro em volta delas. E eu não consegui ver seus rostos. Sei que eram elas. Mas não consegui ver seus rostos.

O que Sarah diria desse sonho?

Não sei e não me importo.

Eu estava lá e elas também não me viam. Não havia eu, havia apenas o piano. Havia apenas Maria tocando para Clara. Meu deus, Maria tocando para Clara. E eu estava escondida. E tive vontade de chorar. Chorar escondidinho. E eu sabia que elas não me veriam, eu era invisível, talvez eu estivesse morta, se é que já não estou. Fiquei olhando para elas, mãe e filha, sem nada para estragar essa pintura.

Sem nada para estragar essa pintura.

É então que começo a chorar.

Comecei a chorar no sonho e choro agora.

Escondidinha.

Escondidinha e feliz.

22:35

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Piano Para Pequena Clara – Dia 139


Segunda-feira, 3 de novembro de 2014

21:00

Começa a chover.

Não é possível que eu esteja trazendo a chuva de volta. Mas assim foi no começo e assim é agora: chove. Deve ser simbólico. Talvez o fim e o início desta história que vou tateando noite após noite seja um monte de pingos que caem imitando o som de um vinil antigo. O céu chora. Chora Clara. Chora Maria, a mãe.

Choramos nós.

Disse para Cris não aparecer hoje, mas ela não me ouviu. Ela nunca me ouve, na verdade. Ela disse que vai passar aqui daqui a pouco. Portanto, escrevo antes dela chegar. Antes que a chuva acabe e eu me perca mais uma vez.

Trovões.

Distantes trovões.

Acho que são simbólicos também.

Sarah me deu um texto para ler, uma coisa doida de ego se partindo em três, imitando a voz do pai mandão, que depois a gente introjeta como nossa noção de limite, de censura, de não-vou-fazer-porque-os-outros-não-vão-gostar.

A voz de Claudius, portanto, seria o Super-ego da pequena Clara.

Não deve ser um bom exemplo, porque se Freud quis dizer isso, espero que ele queime no inferno.

A verdade é que ainda não li todo o texto que Sarah me deu, e escrevo apenas. Escrevo sem pensar, ou penso e escrevo ao mesmo tempo, e vou escrevendo para encontrar um sentido. Existe um sentido para tudo isso. Essa história que não começa nem termina.

A porta fecha mais cedo hoje.

Minhas costas doem.

Ainda procuro esperança para a pequena Clara. Ela gostava de brincar em poças d´água. Talvez fosse uma criança arteira. Talvez fosse uma criança feliz.

No fundo, acho que é esse recorte de vida que tento buscar a cada noite. A cada chuva. Ver aquela garotinha sorrir.

Lembrar daquele piano.

Ó, meu deus. Lembrar do piano.

Que talvez, no fim das contas, não exista apenas em minha imaginação de péssima escritora. A Louca Que Escreve Sem Saber O Que Ou Como Escrever.

Ainda bem que ninguém vai ler isso aqui.

A chuva tem algo de redentor. Talvez vá limpando as fendas sujas de nós e escoando a dor para longe. Talvez, ainda não sei. Apenas escrevo. Escrevo sem parar. Escrevo antes que Cris chegue. Escrevo para lembrar o doce cheiro de infância, a infância que esqueci, do doce de Lady Brownie. Escrevo e penso na pintura de Dafne, que ainda não vi. Escrevo e sonho com algo que ainda não vi – no fim, esta história não é sobre isso? Sabatha me perguntou o que aconteceu com Clara. Respondi que ainda não sei, e que ia continuar nessa busca. Falei meio sem pensar, talvez porque tivesse que responder alguma coisa. E talvez, principalmente por isso, não possa mais ignorar o fato de que algumas – talvez muitas – pessoas aqui saibam que estou escrevendo uma história.

Enquanto o relógio corre. Como uma bomba cuja contagem não sei até onde vai.

Maria Que Escreve Sem Parar.

A Louca Que Escreve Para Não Ser Louca.

Sarah disse que a psicanálise se faz pelo que a gente lê e pelo que a gente escreve. Imagina se, daqui a muitos anos, depois que eu morrer – certamente depois que eu morrer, se não tiver jogado tudo isso fora, como me propus –, algum louco encontrar este texto e decidir fazer um estudo sobre ele.

Sim, é claro que é uma ideia absurda. Insana, mas como já devo ter referido antes, chamar qualquer uma de nós “insana” em um lugar como este, é uma ironia e tanto.

Ventos ventam, certa vez disse Aristóteles. Não O Aristóteles, mas aquele carinha que adorava palestrar por aqui, e nunca mais vi. Está ventando. A chuva aumenta. Ouço pela janela, o vinil antigo rodando sobre o toca-discos.

Como o som de uma melodia de piano, de mãe para filha.

E isso me faz sentir um pouco em paz.

21:21

domingo, 2 de novembro de 2014

Piano Para Pequena Clara – Dia 138


2 de novembro de 2014

18:50

Coloco a cabeça para fora e enxergo: está chovendo. Sinto o vento frio que me faz escrever. Não sei se fui eu quem chamou a chuva, porque de tempos em tempos penso que esta história vai terminar (ou terminou, se eu estou contando uma história no passado e ainda não sei) em um dia de chuva. O dia cinza. Ainda é dia, embora o véu de chumbo do céu, lindo, me diga que logo vai ser noite. Não ia escrever hoje. A chuva me forçou. Fiquei lendo, para ver se melhoro esta história, se aprendo com as palavras e as frases bem feitinhas dos outros, já que as minhas são tão ruins.

Mas se ninguém vai ler, para que me importar?

Porque eu estou lendo e sentindo o que senti ao escrever isso. Por pior ou melhor que tenha ficado.

Há ainda a possibilidade de fantasmas leitores verem o que escrevo. Certamente existem. Embora isso me assuste, aos poucos – bem aos poucos – talvez esteja começando a aceitar.

Lembro vagamente que no começo disso tudo havia uma praça. Talvez a tenha visto, ou imaginado, da minha janela. Um escorregador por onde Clara descia. E Claudius, embora naquele ponto eu estivesse apenas desconfiando a partir do que fui escrevendo, brincava e apalpava Clara. Como uma mulher, não como uma criança, gostaria de frisar.

Será que ele tinha noção do que estava fazendo?

Não sei se ele já tinha voltado a beber.

Digamos que não, e que ele apenas estivesse brincando com a filha.

Meu deus, que história horrível.

Mas não consigo parar de escrever.

O fantasma não vai sossegar enquanto não escrever isso até o fim e sei que não posso pegar atalhos. Poderia terminar hoje: todos morrem. Fim.

Mas não sei se é assim mesmo que termina. E se for, ainda tenho esperanças de mudar o futuro.

Ou o passado.

Mudar qualquer coisa. Mudar o que sinto, embora não saiba exatamente descrever esses vendavais que passam aqui dentro. Por isso escrevo. Sarah sempre fala: coloque em palavras. E uma vez ela disse que nas famílias em que o sexo era visto como a forma de demonstrarem amor entre si, às vezes a criança não sabia que estava sendo abusada, porque era como se o papai estivesse demonstrando amor pela filhinha.

Juro que vou jogar esse lixo de história fora. Quando parar de escrever.

Mas não paro. Então não jogo fora. Não jogo fora hoje.

Hoje chove.

Eu queria tanto ver esperança nesta história. Reencontrar aquilo que se perdeu.

A começar por mim.

Um final feliz, por que não?

Uma melodia daquele piano que faz tempo que não ouço.

Há quanto tempo não ouço?

Há quanto tempo estou aqui?

Meu deus, há quanto tempo estou aqui?

E por mais quanto tempo ficarei?

Minhas costas doem. Ainda é dia. Em minutos será noite. A porta está aberta. Ninguém nos corredores. Só eu aqui.

Eu e a pequena Clara.

19:06

sábado, 1 de novembro de 2014

Piano Para Pequena Clara – Dia 137

(Nota: os escritos deste novembro fazem parte do Nanowrimo - National Novel Writing Month - a maratona literária onde comecei a escrever ano passado. Aliás, hoje faz um ano que comecei a escrever esta história. Agora, seguimos em frente)



1 de novembro de 2014

21:49

Comecei a escrever livro novo hoje.

Mas por enquanto isso é tudo o que sei dele.

Na verdade, hoje faz um ano que comecei a escrever esta história, que nem história é, ou era. Achei que a única forma de começar de novo era assim: comecei a escrever livro novo hoje; mas por enquanto isso é tudo o que sei dele.

Digamos que alguém – você – esteja lendo isso e esteja começando a ler agora. Esta é sua primeira entrada nesta história. Jurei que nunca mostraria isso a ninguém e pretendo manter meu compromisso – mas é quase certo que alguém me lê enquanto durmo, enquanto me perco, e me perco todos os dias. A diferença é que quando comecei, um ano atrás, era de manhã. Quase todas as vezes em que escrevi desde então era noite. Agora é noite. Hoje não chove. Vou escrever até que chova de novo.

Estou de novo em meu quarto-cela, o Escritório de Maria, a Louca.

Aqui por perto está Cris, provavelmente a única pessoa que deixo chegar perto quando escrevo – desde que ela não leia o que escrevo. Há Jade, que não vi mais. Emília, que foi embora, mas talvez tenha vindo nos visitar, porque juro que vi alguém com os cabelos ruivos dela no corredor. Lady Brownie, que faz doces com cheiro de infância e caminha devagarzinho. Há Sabatha, com quem já troquei cartas doídas e sangradas. Há Dafne, que disse que fez uma pintura sobre a história que estou escrevendo – mas nunca mais vi. Nem ela, nem a pintura, nem nada. Tem mais gente que esqueci. Todas elas têm funduras, fendas que, de alguma forma, nos ligam. Fendas que fazem eu escrever esta história.

Cris acaba de me dizer para mandar um beijo aos meus leitores.

Vou mandar, respondo. Cris gosta de mim. Cris tem ciúmes. Cris ri e chora ao mesmo tempo. Cris que já tentou se matar, e me volta a ideia de escrever um livro – se eu soubesse escrever, coisa que não sei – sobre um negociador de suicidas. Tipo o cara que tenta apagar o incêndio que não pode ser apagado, como talvez já tenha escrito em uma dessas noites.

Esqueci de dizer: eu não lembro. Eu esqueço. Eu esqueci de tudo.

Até do meu nome.

Só lembro que o meu primeiro nome é Maria porque nunca gostei de ser chamada pelo meu primeiro nome.

Sarah deve ter se tocado disso. Certamente que sim.

E pediu para eu escrever. Para contar uma história.

Assim começamos: preciso de um personagem para contar uma história. Um personagem... um homem. Um homem... e uma mulher. Um homem, uma mulher e uma criança. Um homem, uma mulher, uma criança, um irmão (a criança é uma garotinha). Um homem, uma mulher, uma criança, um irmão e uma tia. O homem é alto e moreno de cabelos lisos e negros. Digamos que o nome dele seja Claudius, e digamos que ele seja um profissional da saúde. Um médico. A mulher se chama, vejamos... Maria.

Sim, Maria como eu.

A criança se chama Clara. Lady Clara. Pequena Clara.

Ela tem um irmão. Como é seu nome? Jonas.

E a tia? Tia de Clara, portanto irmã de Maria. Lara. Que parece com Clara.

E ela tem um filho. Marcos.

O que mais? Sarah me disse para apenas escrever, sem pensar em mais nada. Não pensar em causas, conexões – ou sim. A isso chama-se livre associação. Estou me perdendo. Esquecendo mais uma vez.

Claudius abusava de Clara. Batia em Maria. Maria vivia internada em hospitais. Acho que ela tinha depressão (talvez como Cris, pensei agora, se é que ela tem isso). Claudius era um alcoólatra. Ele ficou dez anos sem beber e voltou a beber quando estava... Com Lara. Marcos, filho de Lara, é filho de Claudius também. Ninguém, ou quase ninguém, sabe. Nessas famílias há muita coisa velada e como o Dr. Claudius é um cidadão de bem, respeitável e adorado pelos vizinhos, ninguém dá um pio fora daquelas paredes.

De onde tirei uma história horrível como essa?

Por que escolhi personagens assim?

Se você começou a ler isso hoje, talvez não saiba, mas suspeite. Cada vez que me aproximo daquele abismo, paro e volto atrás. Atrás nunca é um lugar bom. Não lembro do passado, mas de alguma forma sei que ele não deu certo. Mas foi ele quem me trouxe a este lugar. E se não descobrir como ele se conecta com o hoje – e me dói só escrever isso –, nunca vou sair daqui. Talvez nunca saia mesmo, mas se sair um pouco desta prisão mental talvez eu possa ver um campo florido longe desse pântano.

O relógio começa a correr de novo.

Igual no início.

Estou de volta ao jogo.

22:15

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Piano Para Pequena Clara – Dia 136


28 de outubro de 2014

22:43

Querida Sabatha,

Estou com fome e cansada, mas preciso te escrever agora – antes que desista, mais uma vez. Até ia pensar sobre o que te escrever, mas se desse tempo de eu fazer isso, também daria tempo de desistir. Escrevo porque sangra. Você diz que sou corajosa. Diz até que me admira, eu, a Louca Que Escreve Trancada No Quarto. Não sei, talvez você veja algo em mim que deixei se perder por aí, como tudo mais antes de eu vir parar neste lugar. Escrevo para lembrar, mas de alguma forma: também escrevo para esquecer.

Pensei na história de Clara hoje, essa coisa tão horrível de se escrever. Me veio à mente o peito da pequena Clara. Peito de criança, não de mulher. Um peito que tanto fazia ser de guri ou de guria. Peito de criança magrinha. E Claudius deve ter olhado para ele e talvez tenha imaginado que ali haveria, um dia, um peito de mulher. Seios fartos, Deus me livre. Imaginar um corpo de mulher no corpo de criança, o corpo que viria ser. E talvez ele tenha fugido desse impulso, talvez ele tenha lutado contra.

Isso até ele voltar a beber, depois de dez anos.

Isso depois dele mamar champanhe nos peitos de Lara, ela sim já mulher, putinha maldita.

Se foi isso o que aconteceu, cunhadinha dos infernos, ela teve culpa no que se transformou a vida da pequena Clara.

A sobrinha que ela deveria cuidar, enquanto Maria, a mãe, estava internada no hospital.

Titia Gostosinha Vagabunda Do Inferno.

Maria vivia sendo internada em hospitais. Talvez devessem ter cuidado dela também. Aliás, com toda certeza: deveriam ter cuidado dela também.

Suspiro.

Não quero falar de sexo. Por favor. Não sei do que quero falar, mas sei que não quero falar disso. Porque dói. Dói a dor de não saber como minhas cicatrizes e queimaduras vieram parar em meus braços.

Acho que dói em você também, Sabby. Depressões de fim de noite ou de dia inteiro, diz você. Acho que ambas temos a mesma doença. É por isso que nos escrevemos. É por isso que estamos vivas mais um dia, mesmo desconexas. Estamos vivas enquanto escrevemos.

Como Clara.

Como Maria, a mãe.

Marcos defendeu Clara de Claudius quando ele quis obrigar ela a beber. Ele bebeu no lugar dela. Talvez, se é que chegou a crescer, tenha se tornado alcoólatra. Como o pai. O pai Claudius, que ninguém sabia que era seu pai, exceto Lara porque o Dr. Respeitável & Admirado Pela Sociedade não poderia assumir um filho fora do casamento. Não que se importasse. Ou talvez sim, porque de alguma forma, quando Marcos visitava os primos Jonas e Clara, ele – mesmo que não soubesse, embora talvez desconfiasse – estava mais perto do pai. E se pai é quem cria, bem, não sei se ele realmente pode dizer que teve um pai. Eu não sei, tem muitas coisas dessa história que ainda não entendo. Ou não quero entender.

Porque lembrar dói. Então esqueço. Mas às vezes esqueço de esquecer, e algumas coisas voltam. Acho que Sarah falou em ab-reação ou algo assim.

Você deve imaginar que existe uma relação mais próxima do que quero supor com a história que estou inventando e eu, não é? São símbolos? São pessoas de carne e osso que digo para mim mesma que são apenas fruto da minha mente febril?

Lá fora faz calor. Hoje não está chovendo. Talvez não chova tão cedo. Se esta história termina em um dia de chuva, então ainda temos um longo caminho pela frente, Sabby.

Fico feliz que você esteja por aí.

De alguma forma que ainda não entendo, talvez você também faça parte da história de Clara.

Love,

Mary

23:08