segunda-feira, 23 de março de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 165



Segunda-feira, 23 de março de 2015

21:08

Sinto cheiro de outono. O friozinho volta aos poucos. Desde sexta passada, espero. Sarah me convidou para participar destes grupos de estudos que ela faz. Tipo assim, para eu ter mais ideias para minha história. Do grupo de vítimas de incesto, ela não falou mais. Disse que um dia talvez conhecesse, da mesma forma: para ter ideias para a história de Clara. Algum tempo atrás, disse que não teria o que fazer em um grupo desses e ela não insistiu. Apenas fez o convite. Talvez, um dia. Esse é mais um dos grupos que ocorrem aqui, e talvez esse para o qual ela me convidou seja parecido.

Talvez ela queira me convencer daqueles absurdos do velho tarado.

Talvez seja algo mais.

Esses psicanalistas sempre vêm com algo mais.

Mas nunca contam.

A gente tem que chegar lá, e acho que odeio eles um pouco por causa disso.

Não quero falar de abuso nenhum, nem lembro mais do que criei para a história de Clara. Talvez Maria, a mãe, tenha passado por isso com seu pai, e passado a desgraça adiante quando casou com aquele médico maldito, Dr. Claudius Que Quis Fazer Da Filha Sua Bonequinha. Bonequinha, talvez ele chamasse Clara assim, mas não se contentou em apenas olhar e tratar com carinho – e cuidado, pelo amor de deus – a bonequinha da família. Lara, a vagabunda, contribuiu para isso, quando ele voltou a beber depois de dez anos. Sei lá se contribuiu mesmo, talvez Claudius já tivesse traços. E talvez a bebida o tenha liberado para fazer o que ele lutava para não fazer. Não sei, apenas escrevo o que me vem a mente.

E em minha mente Claudius e Lara são dois filhos da puta.

Achei que nunca mais fosse escrever esta merda de história, e não ia mais falar do que aconteceu.

Aconteceu?

Mas era apenas uma história que criei para lembrar.

Meu deus, quanto mais escrevo, mais me enrolo, e mais chego perto daquele abismo.

Posso ser tanta gente dentro desta história maluca. De alguma forma, todos esses personagens têm algo de mim, e odeio esta história por causa disso. Posso ser Clara, posso ser Maria, a mãe. Claudius pode ser uma projeção minha, e eu ser a abusadora. Lara, titia vadia, pode ser eu também – por que sempre me dá um certo nojo quando penso em sexo? Aliás: não quero falar de sexo.

O piano soa ao longe. Ele é a única coisa capaz de me dar paz. Uma última esperança. O piano que talvez dê um sentido a esta merda de história mal contada. Muito mal contada. Maria Que Não Sabe Escrever. Mas que ainda sonha. Sim, ainda sonho.

Cheshire estava especialmente risonha hoje. Ela é uma risada ambulante. Não vi mais ela de pijamas, mas suas risadas continuam dando graça dentro da loucura, que é dela, que é de todas nós. Blossom também sorria. Acácia, vi de relance no corredor. Cheshire e Blossom trocavam seus jabs verbais, com Cheshire sempre ganhando, já que não para de falar um minuto. Elas combinaram de passear em volta do chafariz. Agora é noite de novo. O frio está voltando aos poucos. Não sei o que escrever, nunca soube. Desde o começo quando era apenas uma narradora a procura de uma história. Ainda sou. Ainda não quero enxergar. Ainda não consigo enxergar.

Como termina a história da pequena Clara?

Talvez em um dia de chuva.

Talvez na próxima chuva.

Mas com ou sem ela, o piano vai continuar tocando sua melodia. Triste e linda.

E isso me faz sorrir.

E sentir como se estivesse de volta ao lar.

21:29

domingo, 15 de março de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 164

                             #PianoParaPequenaClaraNoJoSoares #josoares


15 de março de 2015

21:16

Cris está meio triste. Ela pediu para eu ficar por perto e nesse meio tempo me deu vontade de escrever – escrevo de outro lugar, não do meu quarto-cela, ao lado da única pessoa que deixo ficar por perto enquanto escrevo. Ela só não pode falar, este é o trato. Talvez ela apenas queira ter alguém com ela, talvez pense em sua família, da qual sei quase nada, assim como sei quase nada da minha – ou melhor: nada. Sei que ela deve ter existido, e talvez a história da pequena Clara, de Maria, a mãe, do maldito Claudius, doutor dos infernos, da vagabunda Lara, de Jonas e Marcos, tenha algo a ver com isso. Talvez seja por isso que sempre acho que vou conseguir viver sem escrever esta história horrível, que nem história é, sem chegar ao fim disso – e os fantasmas contidos nela voltam, e tenho que retomar a busca dentro desta caverna.

Sei que Sarah e seus delírios psicanalíticos tem alguma explicação para isso, assim como provavelmente aquele velho tarado, ídolo dela.

De alguma forma vai voltar, ouvi ela dizer um dia.

Aquilo que não quero ver. Aquilo que me dói.

Aquilo que tive de esquecer.

Aquilo que esqueci vai voltar, de alguma forma. E de alguma forma, já está voltando. Posso quase tatear, mas não sei dar nome. Não sei, como é a palavra, simbolizar. Por isso escrevo.

Blossom estava escrevendo em seu caderno semana passada. Hoje de tarde essas malucas estavam em volta da televisão vendo uma passeata de um protesto que aconteceu, cheio de bandeiras. Que diferença faz o que está acontecendo lá fora quando estamos todas presas aqui dentro, me pergunto – a menos que alguma de nós saia para viver em definitivo lá fora, o que não é impossível. Talvez quando eu descobrir como vim parar aqui, saia. Talvez quando eu lembrar.

Talvez quando eu quiser lembrar.

Blossom estava escrevendo em seu caderninho. Perguntei o que era, ela me disse que era uma carta de amor, depois disse que estava brincando, e olhou para baixo, procurando aquilo que se perdeu. Vi em seu rosto que ela devia estar escrevendo mesmo uma carta de amor e se arrependeu de ter me dito. Não sei se para alguém aqui de dentro, e só agora me pergunto isso. Cris me pergunta se quero jantar, respondo que daqui a pouco. A verdade é que quanto mais me afasto da história de Clara, mais difícil fica escrever.

Você sabe, sou uma péssima escritora. Péssima mesmo.

Mas em uma dessas madrugadas perdidas no tempo me ocorreu: esta história ruma para o fim.

Acho que já sei como ela termina.

Só não sei que sei.

Ou não quero saber que sei.

Esta merda de calor também ruma para o fim. Não sei mais em que estação termina esta história. Mas o penhasco, o penhasco do qual sempre fujo, se aproxima uma vez mais.

Quem sabe na próxima chuva?

21:43

terça-feira, 3 de março de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 163




Segunda-feira, 2 de março de 2015

23:56

Estou com problema de memória. Isso é óbvio, mas não me refiro a ter esquecido tudo antes do acidente ou seja lá o que foi que tenha me trazido a este lugar. Me refiro ao meu cérebro, ou aquilo que restou dele, estar se apagando mais a cada dia, e tive medo, não sei se pela primeira vez ou já tinha pensado nisso, de enlouquecer. Quero dizer, enlouquecer antes de chegar no fim desta maldita história e quanto mais me convenço de que sou capaz de seguir sem escrever, o fantasma de Clara volta para me assombrar.

Sim, faz dias que não escrevo e jurei de novo que nunca mais ia escrever esta história horrível, terrivelmente mal escrita, um lixo que jamais será lido – mas então Sarah me para no corredor e pergunta se estou escrevendo. Ela deve saber que não. Não imagino como, mas esses psicanalistas veem coisas que não nos contam, não até a gente descobrir por nossa conta, ou admitir o que fingimos que não está lá.

Acho que odeio ela por isso.

Todas as nossas relações são baseadas em amor e ódio, ela me diz, então talvez ela ria escondido de mim.

Maria Sozinha No Canto Da Sala Com Todos Rindo De Sua Cara.

Não soa muito bem, mas pelo menos acho que Claudius, o Dr. Abusador, talvez esteja ficando escondido em algum canto desta história – e isso talvez seja bom, ele não ter mais aparecido em minhas livres associações. Sarah disse que a angústia é o afeto que fica vagando dentro de nós sem encontrar um porto e quando dizemos que não sabemos o que estamos sentindo, e de alguma forma isso é desconfortável, isso também é angústia.

Portanto, Maria Angustiada Que Escreve Para Se Livrar. Sem ter nada para escrever, como sempre, mas de alguma forma confiando que meu cérebro febril vai soltar as palavras certas. Só tenho que escrever, não pensar.

Mas tive uma visão bonita hoje. Na verdade, não foi hoje, mas registro agora. Vi elas três da minha janela: Cheshire, Blossom e Acácia. Elas estavam em volta do chafariz que Cheshire adora. Fiquei observando aqui de cima. Cheshire falava e ria, Acácia também falava, mas não ria – falava com aquele misto de alegria e tristeza contida dela, talvez uma loucura mansa. Elas duas pareciam duelar enquanto conversavam. Pelo que conheço das duas, cada uma deveria estar falando de um assunto diferente ou pelo menos ambas trocavam os assuntos muito rapidamente, feito jabs entre lutadores de boxe. E Blossom seguia quieta, como sempre. Às vezes tentava falar, e até conseguia, uma ou duas frases, e Cheshire e Acácia continuavam o carnaval verbal que era tão típico delas, e Blossom se recolhia de novo.

Fiquei com saudades delas, olhando aqui da minha janela, presa dentro de mim, tanto que me arrepio, tanto que quase choro.

E então penso em Maria, a mãe, tocando seu piano para sua doce garotinha. Sweet Lady Clara. Acho que tudo o que escrevo aqui, madrugada após madrugada, é sobre Clara. É sobre o piano. Sobre Maria, a mãe que se perdeu no tempo.

Talvez eu escreva para dar paz aos seus espíritos.

Não sei de onde veio essa frase, apenas escrevo o que me vem à mente em tempo real.

Talvez elas não tenham morrido ou talvez sim, e isso que escrevo aqui, às vezes em um desespero, é uma tentativa de mudar o passado. O final desta história. A cada madrugada, a cada vez que chove. O tempo talvez esteja para mudar. E isso me deixa feliz. E se é isso que se chama esperança, então talvez possa reacender este espírito errante aqui. E ver que aquelas três garotas, lindas em sua loucura, em volta daquele chafariz, perdido aqui no meio do pátio, deste lugar de onde falo, elas estão lá para mim. De alguma forma, elas vão estar lá me esperando. Acácia em sua loucura inocente, Cheshire, talvez a mais louca das três, a garota que passeia de pijamas e ri, e que rindo às vezes torna isso aqui suportável, embora também eleve o nível de insanidade que ronda em volta de mim, e Blossom. Sempre quietinha, pronta a largar um jab ou outro quando menos se espera. Elas vão estar lá esperando por mim.

Como Maria, a mãe.

Como Clara.

Como o piano que deve continuar tocando.

A espera de mim.

00:26

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 162



Quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

22:18

Estava no corredor, pensando que talvez chova amanhã e talvez esteja na hora de eu escrever, antes que chova, e ouvi:

− Ser louco é estar vivo.

Olhei para o lado. Ela tinha a pele morena, mais escura que a minha e os cabelos negros. Meus cabelos também são negros, embora ache, porque não lembro, que eles sejam pintados. Ela estava com um caderninho na mão, cuja capa tinha um cachorro, e estava escrito Blossom.

− Você é a Maria que escreve?

Sorri. E fiquei olhando para ela. Sorri do jeito que sorrio e notei que ela fazia algo parecido: sorrir olhando para o chão.

−Não gosto quando as pessoas ficam me olhando e pensando coisas. Isso é privilégio meu.

− Tudo bem, disse eu.

Ela fez um gesto no ar, como quem espanta uma mosca, como quem diz vamos deixar pra lá.

− Como você escreve a história que está escrevendo? ela quis saber.

Respondi que não sabia, apenas escrevia. E nem história era. Talvez apenas um amontoado de coisas, sentimentos, palavras sem nexo, que talvez formassem frases e na verdade isso não era importante porque ninguém ia ler o que escrevo.

− Por quê, ela perguntou.

Suspirei.

− Porque não sou escritora. E a história é uma merda.

Ela me disse que também escrevia escondido.

Ela. Blossom, resolvi batizar.

Escrever ajudava ela a sair da solidão. Ou lidar com ela. Nunca tinha pensado nisso, mas acho que escrevo pelo mesmo motivo.

Cris está aqui por perto. Lembrei agora quando escrevi que as melhores partes eram as que eu falava dela.

Blossom, fiquei pensando, deve ter uma dor parecida com a minha. Parecida com a de todas nós. Não saber por que e para que estamos aqui. O que foi a nossa história – e o que ela será. Esse é meu drama, Blossom. Reencontrar o que se perdeu. Talvez a inocência que me roubaram, e percebi olhando para ela, enquanto ela disse que não gostava que ficassem em silêncio, observando, tentando adivinhar seus pensamentos a partir de suas expressões faciais, que também devem ter roubado a dela. Bem, não viemos parar neste fim de mundo por acaso.

Roubaram de mim. Roubaram dela. Roubaram de Dafne, que ouvi dizer que vai sair daqui. Neste momento sinto saudades da minha pintora. Sinto saudades do piano.

Roubaram de mim.

Roubaram de Clara. A vida que deveria ter sido e não foi.

Roubaram de Maria, a mãe mais linda do mundo. Que tocava aquele piano para a filha mais linda do mundo, as melodias que não consigo mais tocar, não consigo sentir. Não consigo descrever. Sei que elas estiveram lá. E talvez ainda estejam.

Lindas feito um corte no pulso.

Sobre o que será que Blossom escreve? Talvez ela não queira que ninguém leia, talvez escreva em códigos. Talvez tenha seus traumas.

Bem-vinda ao lar, Blossom.

Talvez ela também escreva para lembrar.

Ou esquecer.

Sempre que fico tempos sem vir aqui e escrever, sempre sem ter a menor ideia de quais palavras virão, como diabos vou terminar um parágrafo, acho que posso viver sem escrever esta bosta. Mas não posso. Lady Clara me chama. Minha garotinha me chama e ela sabe que eu vou voltar.

 E enquanto não der paz a ela, não vou dar paz a mim.

Blossom sumiu no corredor. Baixei a cabeça e olhei pela janela. Talvez chova amanhã. E então escreverei de novo. E tocaremos aquele piano, Maria.

− Você promete que não vai escrever sobre mim, que não vou virar um personagem em sua história? Blossom voltou para perguntar.

− Prometo, respondi. Ela sorriu e foi embora.

Foi então que vindo de algum lugar perdido dentro de mim, comecei a ouvir e não havia ninguém para testemunhar. Eram sons confusos, até que decifrei: eram acordes de piano.

Suspirei. E soube naquele momento que não seria capaz de manter minha promessa. Desculpe, Blossom. E vim para cá.

Vamos tocar, Maria.

Clara precisa continuar ouvindo.

22:46

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 161


Segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

21:32

A porta se fecha de novo. Sarah disse que eu tinha que continuar escrevendo senão os bichinhos iam voltar. Por bichinhos, entendo, bichinhos mentais. Eles voltam mesmo. Acho que o jeito de afastar o enxame é escrevendo, e cavando um pouco mais. Uma dessas loucas me parou hoje e pediu para eu fazer um personagem inspirado nela. Acho que está virando moda, uma coisa meio doentia, como talvez tudo mais aqui, pedir para Maria, A Louca Que Se Tranca No Quarto Para Escrever, também conhecida pela alcunha de A Louca Que Não Lembra, para que conte a história dessas doidas anônimas.

Acho que desde que Lady Ballet me pediu um presente de aniversário. E antes quando Jade teve sua festa aqui, e deve ter se espalhado porque Cheshire, a garota que é só sorriso, disse que escrevi sobre ela. Quer dizer, eu vou falando sobre elas até que chego ao que realmente interessa: a pequena Clara.

Devemos estar todas conectadas por um fio que ainda não entendo. Essa garota de hoje, minha nova biografada, é pequena, como se quisesse ir para o bolso de alguém, o que é um símbolo interessante para alguém que precisa de carinho. Ela é loira e pequena. E fica balançando os pés na cadeira, como se fosse uma velha na cadeira de balanço – aliás, hoje ela disse que o sonho dela é ter uma cadeira de balanço, o que também é um símbolo interessante – sempre se balançando. Perguntei como seria um personagem baseado nela, e ela me disse que tinha que ser alguém alegre. Olhei fundo em seus olhos de bolitas verdes e entendi o laço que nos une: todas nós somos ligadas por uma tristeza silenciosa no olhar. Aquela tristeza de quem espera o trem chegar na estação. E ele nunca chega.

Ainda assim, esperamos.

Vou escrever sobre você.

Ela sorriu. Acho que devo ter, de alguma forma, nesse simples gesto, levado um pouco de alegria para ela. Eu que achei que nunca servi para nada, quem sabe, possa vir servir a alguém.

Ela me deu um abraço e sumiu no corredor, disse que talvez a gente ficasse um tempo sem se ver. Ela me olhou quando já estava quase sumindo e disse:

Acácia. Meu nome é Acácia.

Ela ficou um instante em silêncio e ouvi sua respiração como quem esbafora esperança e disse:

Obrigada, Maria.

Eu sorri.

Acácia sumiu no corredor.

Gostei dela.

Também vi Sabby. Ela estava com uma fita na cabeça. Estava com uma cara boa e quando digo boa quero dizer que, provavelmente, ela não esteja pensando em morrer – por hoje. Ela falou da outra garota, a tatuada de cabelos vermelhos, disse algo como ela ter que reencontrar a – Savanah, lembrei agora. Disse que inclusive uma estava dentro da outra, e por um instante me perguntei se Savanah não era uma projeção ou Sabby tem personalidade dupla, algo assim. Mas eu vi Savanah, então devemos estar todas loucas.

Somos todas meio loucas, me disse Acácia, quando ainda não sabia que seu nome era esse.

Somos, então o que temos a perder?

Cris me pergunta se escrevo sobre ela. Digo que sim. Deixo ela ficar por aqui, embora ela não esteja por aqui agora, e só ela, desde que ela não me leia.

Essas devem ser as melhores partes, ela diz.

As partes dela.

Sorrio.

Pensamentos vêm e vão. Me pergunto o que eu mesma estou escrevendo neste exato instante: as partes dela são as melhores. Talvez exista um sentindo inconsciente nisso.

Já sei que você espera que Cris e eu terminemos ficando juntas.

Mas já me ocorreu que ela pode ser minha irmã.

Ou irmã, de alguma forma.

Talvez eu também ame ela, de alguma forma.

Maria Que Fala De Amor.

Sinto saudades dela. E daí?

Nada é o que parece ser.

E tudo isso para dizer que nesses dias que não escrevi imaginei Maria, a mãe, que gostava de contar histórias, e que talvez tenha ensinado Clara a ler e escrever através da sopra de letrinhas. Maria, com carinho de mãe, juntou as letras e formou uma frase. Maria que contava histórias, que lia para Clara. Clara, que depois de aprender a escrever, talvez tenha contado histórias também. Uma das duas, se estivessem vivas, talvez escrevessem um livro.

Ou se estiverem vivas.

Estou cansada. Não consigo mais escrever. Mas gosto de pensar que depois de Maria, a mãe, escrever várias vezes a mesma frase, catando letrinha por letrinha, naquela sopa que sempre escondia os caracteres, os símbolos, talvez depois de anos, e é nisso que quero pensar hoje, Clara aprendeu a ler e finalmente decifrou o que estava escrito todo esse tempo em seu pratinho:

Mamãe ama Clara.

22:05

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 160





30 de janeiro de 2015

00:31

Uma nova madrugada começa. Ouço o piano ao longe, o piano que achei que nunca mais ouviria. O piano lindo e triste que se perdeu dentro de mim. Cris está por aqui e disse para eu escrever. Acho que comentei que ela é a única pessoa que deixo ficar por perto enquanto escrevo – desde que ela não leia. Ela viu que eu estava meio down. Maria Down, parece um nome interessante.

Vai escrever, ela me disse. Você melhora quando escreve.

Respiro fundo. Começo a escrever. Fazia dias que não escrevia. A dor vai ficando para trás, bem devagar. Preciso continuar (me) escrevendo senão ela vai me alcançar. De novo. Fujo dela, por isso escrevo. Sarah disse que a psicanálise é a cura pela palavra. Talvez eu busque essa cura por estas palavras desgarradas que escrevo. Ainda sem ter a menor ideia de como vou juntar uma frase na outra, e isso tampouco importa. Apenas vou construindo meu castelo com os tijolos das palavras, uma de cada vez. Uma princesa no alto de seu castelo. Talvez uma muralha, por onde caminho e da qual não posso pular. Mas preciso continuar escrevendo.

E o piano precisa continuar tocando.

Uma tecla de cada vez.

As notas que nem sei se existem, se existiram, ou se algum dia vou ouvir de novo.

Maria, a mãe, que tocava para a princesa no castelo, Sweet Lady Clara.

Cris cozinhou para mim hoje. Jantamos juntas. Foi quando ela me disse que eu deveria escrever hoje. Hoje choveu, talvez tenha sido um sinal. O vento, o frio. O universo conspirando para eu contar esta história terrível. Que no fundo é a busca pela minha própria história, eu, Maria Que Esqueço. Algumas das garotas mexem no fogão. Na verdade, muitas delas, mas certo dia, lembrei agora, Sarah me disse:

Não mexa no fogão.

Pareceu sem sentido na época, mas como esses psicanalistas jamais dão ponto sem nó, percebo agora que ela quis me dizer alguma coisa mais. Psicanalistas sempre querem dizer alguma coisa mais. Lembrei que talvez em uma dessas noites perdidas no tempo, talvez tenha escrito, porque não certeza de mais nada, mas talvez tenha escrito que Maria, a mãe, ensinou Clara a mexer no fogão. Não de propósito, ela não pode ter sido irresponsável a esse ponto. Mas talvez Maria tenha acendido o fogo na frente de Clara. Não sei se ela fumava, e sempre pensei que não. Mas agora me vem a imagem na cabeça de que Maria ligou o fogão para acender o cigarro. Sei que um dos cheiros presentes na infância de Clara foi o álcool, em parte porque Papai Abusador sempre bebia. Mas nisso que vejo agora, e não sei mais se é sonho ou criação, Maria se abaixou para acender o cigarro, perto do fogão.

Esta história, não posso deixar de registrar que pensei nisso agora, talvez termine com um incêndio.

E olho para meus braços e vejo cicatrizes e queimaduras e me pergunto como vim parar neste lugar.

Todos morrem?

Estamos todas mortas?

Não sei. Mas ainda ouço um piano. Distante como o tempo. Como outra vida.

Será que a desgraça de Clara começou por causa de Maria?

De alguma forma, e respiro fundo ao pensar nisso agora, talvez aquela tenha sido a salvação das duas.

De alguma forma, talvez elas tenham se salvado.

O piano continua. Então sorrio.

E quase começo a chorar.


00:51

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 159



20 de janeiro de 2015

21:14

Faltam exatos dois meses para o outono. Pode ter sido coincidência, mas Sabby e Cheshire perguntaram se eu não ia escrever mais. E então começou a chover. Acho que vou, disse eu. Vamos esperar, disseram elas. Faz dias que não escrevo, e duvido que alguém sentiria falta se eu nunca mais escrevesse. Mas a verdade é que ainda não sei como termina esta história. Tem uma garota aqui, de cabelos lisos e vermelhos, com os braços cheio de tatuagens que parecem contar uma história (teria ela sido tatuada por livre associação?), que disse que acha que quando escrevo estou falando de mim. Sei lá quem disse que toda autobiografia é ficcional, e toda ficção é autobiográfica. Não sei o nome dela, mas acho que vou chamar essa garota de Savanah. Tem um parentesco com Sabatha, acho que porque vi elas duas juntas hoje. Se não for esse o nome dela, invento outro.

Acho que ela também é uma garota com fendas. Parece que ela tinha um namorado antes de vir pra cá – bem, todas temos uma história. Embora eu não lembre a minha, sei que tenho uma. E vou escrevendo assim, sem ter a menor ideia de por que essas palavras se juntam umas nas outras, nessa ordem. Mas tivemos nossas histórias. Acho que essa garota também andou lendo uns livros daquele velho tarado. Garotas com fendas. Não sei se escrevo sobre mim. Apenas escrevo e vou vendo onde isso vai dar.

Maria que paga pra ver.

E então que começou a chover. Ouvi o vento batendo nas janelas, feito fantasmas em casa mal-assombrada. Talvez isso onde estamos seja, enfim, isso mesmo. Vejo o chafariz lá embaixo. Não ouço o piano. O corredor está deserto e a porta está aberta. Vou apenas escrevendo o que me vem à mente.

Sabby falou em morte.

Garotas com fendas têm aquilo que Sarah chama de pulsão de morte. Talvez todas tenhamos, todas nós do mundo inteiro: pulsão de vida e pulsão de morte (sim, Sarah está me contaminando com suas loucuras). Mas acho que existem tipos e tipos de garotas com fendas. A dor de Sabby é diferente da dor de Dafne, que me parece mais contida, mais dor-pra-dentro. Talvez Sabby busque a morte de outras maneiras.

Como Cris, que felizmente não tentou mais se matar. Me preocupo com ela. E neste momento, confesso, tenho saudades dela. Não temos nos visto muito. Às vezes parece que essas malucas vêm e vão. Acho que elas saem por alguns instantes, talvez até dias, e voltam. Elas sempre voltam, como eu sempre volto.

Para a pequena Clara.

Para Maria, a mãe.

Mesmo que eu nunca mais escrevesse, acredito agora que essas duas continuariam vivas dentro de mim. Não sei se fora de mim também, e descobrir este mistério, e como afinal termina a história de Clara me faz voltar. Quero voltar. Por isso escrevo. E continuarei escrevendo esta droga de história, que nem história é.

Ou é e ainda não percebi?

E se houver mesmo mais autobiografia do que quero supor na ficção que estou tentando escrever?

Talvez se conseguir mudar a história, essa de mentirinha, mude a mim mesma, essa vida que também estou inventando. Inventando a mim mesma. Maria, a Criadora.

Talvez dê certo.

Sim, pode dar certo.

21:34