1 de setembro de 2014
23:44
O piano volta ao meu quarto. Em minha mente de escritora
solitária existe uma alucinação de que todos ouvem este piano cada vez que
escrevo. Triste, mas hoje menos triste do que ontem. Ainda dá saudades,
contudo.
Hoje, uma dessas personagens que visitam minha narrativa
entrou aqui. Enquanto eu estava sentada no corredor, um desses corredores de
paredes longas, em meio a muros altos e suas janelas que às vezes me parecem
impossíveis de serem transpostas. Impossíveis de que a gente voe até o alto e,
feito anjos, espie o que há do lado de fora. Uma dessas garotas puxou papo comigo.
Vi de cara que ela era maluca quando começou a falar de poesia comigo. Sei que
chamar alguém aqui de louca é como entrar em um leprosário e chamar qualquer um
de doente, mas foi isso que vi em seu rosto. Ela tinha rosto de boneca. Não uma
boneca de beleza com desespero como Emília, mas uma boneca daquelas que os
ventríloquos usam, uma beleza com loucura, e me pareceu ter saído do mundo de
Alice. Ela é magrinha e branquinha, de cabelos ondulados e escuros, como
algumas dessas outras que se parecem iguais, e talvez sejam mesmo.
Iguais, mas diferentes.
Seu nome é Dafne. Ela sei lá a troco de que santo me disse
que pintava. E perguntou desde quando eu escrevia, por que eu escrevia. Gelei.
Então todo mundo neste fim de mundo sabe que estou escrevendo trancada nesta
cela, e que posso chamar de quarto? Ou um quarto que posso chamar de cela? Ela
me disse que tinha algo dentro dela que precisa sair para fora e que então ela
deve pintar para que as vozes se calem. E perguntou se eu escrevia pelo mesmo
motivo.
Eu disse que não sabia.
Ela perguntou sobre o que era minha história.
Gelei de novo.
− Na verdade, não é sobre nada. Nada
acontece.
E achei que aquilo encerraria o assunto.
− Nada acontece... mas vai acontecer? Porque
de repente essa busca é o que faz o leitor continuar indo em frente. Com
angústia.
Não soube o que responder.
− Sabe, acho que um dia vou fazer uma pintura
da sua história.
− Então talvez você vire uma personagem hoje
à noite.
Nem sei se onde tirei aquilo, mas Sarah me disse que era só
para escrever. Mas eu não tinha escrito, tinha falado. Aquilo pulou de mim.
Dafne apertou a minha mão.
− Combinado, ela disse. Talvez outra hora eu
apareça no seu quarto.
Fiquei olhando em seu rosto, um rosto talhado para contar
uma história, que bem podia ser um verso, imaginando um ventríloquo fazendo ela
voltar para o mundo de Alice. E se tudo isso for um sonho?
Mas não é, pensei.
− Metaforicamente, quero entrar no seu
quarto, ela disse.
E foi embora. Agora imagine. Alguém fazer uma pintura desta
historiazinha incrivelmente mal escrita, em que nada acontece. Mas vai
acontecer, pareço ouvir ela dizer. O que mais? Alguém tocando um piano no
lançamento do livro?
Começo a pensar que eu estou ficando maluca.
Essas personagens entram e saem, nem sei bem por quê. Jade
bateu aqui ontem, disse que estava com saudades de mim. Vi Brownie também, ela
estava conversando com outra garota. Branquinha, magrinha, morena. Será uma
conspiração? Um exército de zumbis? Dafne, se fosse mesmo pintar esta história –
a história que ninguém jamais vai ler –, o que haveria para ser pintado?
− Existe uma Maria na história que estou
escrevendo.
Esqueci de registrar isto: eu disse para Dafne que existe
uma Maria na história que estou escrevendo.
Ela não disse nada do tipo “Maria, como você?”, mas ao
escrever isso agora, me deu um leve impulso para chorar. E tive também – neste momento
– saudades de Cris. Anda difícil conviver com ela, depois que ela tentou, mais
uma vez, se matar. Mas ela não morreu. E me deu saudades dela agora. E por
algum motivo me volta a ideia de que talvez alguém aqui, alguém que nem
imagino, possa já ter sido importante para mim. Se não nesta vida, na outra.
Uma coisa que lembrei agora. Quando Sarah estava contando a
história da psicanálise, ela disse que antes de darem esse nome, quando ainda
estavam hipnotizando as histéricas e descobriram que depois elas não se
lembravam de nada, descobriram também que os eventos traumáticos eram apenas aparentemente
esquecidos. Trauma seguido de amnésia, ou o contrário, mas em algum lugar da
vastidão do inconsciente a verdade se ocultava.
Lá onde está a Maria que procuro. A Clara que procuro. O
piano que me aguarda.
Estou cansada, mas com uma coisa vou ter que concordar com
Dafne: algo irá sim acontecer nesta história.
00:14
Nenhum comentário:
Postar um comentário