Mostrando postagens com marcador Haruki Murakami. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Haruki Murakami. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

5 minutinhos diários


Falando em escrever ser um ato de fé e produzir a materialidade de um texto, abrindo os trabalhos neste ano que começou em uma terça, dia do senhor dos trovões, escrevo agora. Ontem soube que meu rebento está concorrendo com outros 1504 inscritos no concurso cujo resultado sai em abril. E tem uma editora porreta analisando meu texto. Ontem também Ali Luke deu a dica para uma bela resolução de ano novo: escrever (ou editar) pelo menos 5 minutos por dia sua ficção. 5 minutos não é muito, mas por isso mesmo não tem desculpa para não fazer. São só (ou pelo menos) 5 minutinhos. Em algum ano passado, talvez tenha sido 2004, quando ainda morava em casa, consegui aplicar a técnica dos 5 minutinhos diários à bateria. Deu certo. Na primeira versão deste blog, perdida para sempre nos confins da internet, consegui fazer 100 solos de bateria, em 100 dias consecutivos. Uma das técnicas mais legais que sei (rulo de um na mão direita, rulo de um na mão esquerda, dois toques no bumbo e distribuir isso pelos tambores), aprendi naqueles 100 dias, em que consegui me dedicar (pelo menos) 5 minutinhos diários. E a ideia de Ali é se dedicar pelo menos 5 minutos a sua ficção. Muito legal escrever posts de blog ou artigos, mas o assunto agora é ficção. Sim, tudo é escrita, tudo é óleo para a máquina. Mas a gente exercita músculos diferentes quando está criando ficção, diferentes de quando simplesmente sento aqui e escrevo o que estou pensando. A crônica tem um compromisso com ser sobre alguma coisa, as pavorosas redações de vestibular têm o compromisso de não fugir do tema. Meu único compromisso neste exato instante é escrever. Depois vou ter outros, mas neste momento é apenas escrever.

Depois retomaremos a história do trabalho socialmente necessário, agora que as férias aqui no escritório da Distant Thunders Administration estão acabando. Concentração, disse Murakami. Quero aumentar as horas de leitura, mais livros e menos blogs (rá rá), ainda mais que novos projetos se aproximam, e o tempo que já é curto vai ficar mais curto. Mas como o dia é hoje e a hora é agora, acho que posso escrever mais um pouco, ler mais um pouco, depois tomar um coffee, curtir um som, e assim vamos. Agora é hora. E mesmo que hoje (ainda) não foi ficção, me dediquei mais do que 5 minutinhos a produzir. Funciona.

Agora, se você tem mais um tempinho, as dicas culturais do dia são esta bela entrevista com editor, e aprender mais sobre a escrita como profissão.

Mas se não tem mais tempo, então organize sua vida.

Depois aprenda como desenvolver o hábito de escrever diariamente.

E não esqueça das 8 desculpas para não escrever hoje.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Concentração, Perseverança e Palavras por Minuto


“Em toda entrevista me perguntam qual a qualidade mais importante que um romancista deve ter. Isso é bem óbvio: talento. Não interessa quanto entusiasmo e empenho você põe em escrever, se for totalmente destituído de talento literário, pode esquecer a ocupação de romancista. Isso é mais um pré-requisito que uma qualidade necessária (...).
Se me perguntarem qual a segunda qualidade mais importante para um romancista, essa também é fácil: concentração – a habilidade de focar todos os seus limitados talentos no que for mais crucial no momento. Sem isso não se pode realizar nada de valor, ao passo que, se você for capaz de se concentrar eficientemente, conseguirá compensar um talento errático ou até a falta de talento. Eu geralmente paro para escrever de três a quatro horas todas as manhãs. Sento em minha mesa e me concentro totalmente no que estou escrevendo. Não olho para mais nada, não penso em mais nada. Mesmo um romancista muito talentoso e com a cabeça fervilhando de novas ideias provavelmente não consegue escrever uma linha se, por exemplo, estiver sofrendo com uma cárie. A dor bloqueia a concentração. Isso é o que quero dizer quando afirmo que sem concentração você não realiza coisa alguma.
Depois de concentração, a coisa mais importante para um romancista é, sem sombra de dúvida, perseverança. Se você se concentra em escrever três ou quatro horas por dia e se sente cansado após uma semana fazendo isso, não será capaz de escrever um livro longo. O que um escritor de ficção necessita – pelo menos aquele que sonha escrever um romance – é a energia para se concentrar todo dia durante meio ano, ou um ano, dois anos (...).
Felizmente, essas duas disciplinas – concentração e perseverança – são diferentes do talento, uma vez que podem ser adquiridas e aperfeiçoadas por meio de treinamento. Você aprenderá a ter tanto concentração quanto perseverança quando sentar todo dia diante de sua escrivaninha e treinar a mente a se concentrar em uma coisa só. Isso parece um bocado com o treinamento muscular de que falei agora há pouco. Você precisa transmitir continuamente o objeto de sua concentração para seu corpo todo, e se certificar que ele assimilou por inteiro a informação necessária para que você escreva todo dia e se concentre na tarefa diante de si. E gradualmente você expandirá os limites do que é capaz de fazer (...) Paciência é um componente obrigatório do processo, mas garanto que os resultados virão.
Em sua correspondência particular, o grande escritor de policiais Raymond Chandler certa vez confessou que mesmo que não escrevesse nada, obrigava-se a sentar em sua mesa todo dia e se concentrar. Entendo a finalidade por trás disso. Esse é o modo como Chandler arrumava para si mesmo a resistência física de que um escritor profissional precisa, aumentando tranquilamente sua força de vontade. Esse tipo de treinamento diário era indispensável para ele.
Escrever romances, para mim, é basicamente um trabalho braçal. Escrever, em si mesmo, é um trabalho mental, mas terminar um livro inteiro está mais próximo do trabalho braçal. Não envolve levantar peso, correr ou pular. A maioria das pessoas, contudo, enxerga apenas a realidade superficial da escrita e acha que os escritores vivem silenciosamente concentrados em um trabalho intelectual em seu gabinete ou escritório. Basta ter força para erguer uma xícara de café, imaginam, que você pode escrever um romance. Mas assim que você arregaça as mangas para começar, percebe que não é um trabalho tão tranquilo como parece. O processo todo – sentar em sua mesa, concentrar sua mente como se fosse um raio laser, imaginar alguma coisa em um horizonte vazio, criando uma história, escolhendo as palavras certas, uma a uma, mantendo todo o fluxo da história nos trilhos – exige muito mais energia, por um longo período, do que imagina a maioria das pessoas. Pode ser que você não mova seu corpo de um lado para outro, mas há um exaustivo e dinâmico trabalho operando dentro de você. Todo mundo usa a mente quando pensa. Mas um escritor veste um traje chamado narrativa e pensa com todo seu ser; e para o romancista esse processo exige pôr em ação toda a sua reserva física, geralmente ao ponto da estafa.”

O inspirado trecho acima, retirado de Do que eu falo quando eu falo de corrida, do escritor e maratonista Haruki Murakami, me incentivou a fazer um belo exercício de aquecimento, que a partir de hoje pretendo que seja diário, treinando os dedos e a concentração, com este belo teste para aumentar a velocidade de digitação. Digito relativamente rápido, sem olhar para o teclado, mas preciso estar em constante exercício. Seja através da correspondência eletrônica, seja atualizando estes trovões de muitos acessos e poucos comentários, seja compondo ficção. Até ler esse livro, tão bem escrito que até um sedentário confesso quanto eu é capaz de se encantar – desde que também seja encantado pela literatura –, achava que não praticava regularmente nenhum esporte (desde que mudei para apartamento, alguns anos atrás, o estudo e prática da bateria ficaram totalmente comprometidos, infelizmente, afinal a bateria não foi feita para condomínios). Mas se mantiver a concentração e a perseverança, começando por hoje, posso me exercitar e treinar meu instrumento, colocando óleo nas engrenagens da escrita.
Então, vamos ao foco.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cony, Corridas, Preparação e Mozart

Você acredita em inspiração e intuição?
Em intuição, sim; inspiração, não. A intuição é o sexto sentido, é que nos indica que estamos no caminho certo quando duvidamos de nós mesmos, nos dá confiança. A intuição existe. Sou intuitivo, acho que todo mundo tem uma dose maior ou menor de intuição. Sou um intuitivo mediano. Mas não acredito em inspiração de jeito nenhum.
Mas, quando a coisa não avança, você credita esse fato a quê?
À preguiça. Não sou mais jovem e já tenho uma estrada percorrida que dá uma certa fadiga. Não espero nada da inspiração. Não há inspiração. Por exemplo, para escrever as crônicas para a Folha de S. Paulo, sento ao computador, escrevo o cabeçalho, endereço ao editor e entro na crônica propriamente dita. Essa crônica é publicada na segunda página, junto com outras duas. Uma vem de São Paulo, a outra de Brasília e a minha, do Rio. Quando acabo de escrever o cabeçalho, paro e penso: e agora? E tem o tempo para entregar. Às vezes solto uma palavra sem mais nem menos, e assim uma palavra acaba puxando a outra e nasce a crônica.

Carlos Heitor Cony, em entrevista.

Descobri este duo de sax tenores muito fera chamado Sketchbook, de Dave O’Higgins e Eric Alexander, e também hoje ouvi sobre preparação, pode ser para as situações da vida, mas também vale para buscar a excelência de sua arte, seja ela qual for. Também tenho pensado no romancista e maratonista Haruki Murakami, que em seu belo Do que falo quando eu falo de corrida disse “as três principais qualidades que um romancista deve ter são: talento, concentração e perseverança”. Li hoje um trecho da vida de Mozart, que abandonou os brinquedos tão logo descobriu o que era música, ainda no começo da infância, e se pôs a trabalhar sem parar. Talento a natureza dá para alguns, mas concentração, foco e perseverança, tem que garimpar, e isso muitas vezes significa quebrar as pedras da preguiça e da procrastinação, assim como dizer não às outras milhares de distrações, diariamente, em um trabalho que deve ser de colocar um tijolinho todo dia, a fim de construir nosso sonhado muro, e na verdade esse muro não tem fim. O tempo para literatura aqui no escritório da Distant Thunders Co. anda cada vez mais escasso, e a única forma de combater isso é fazendo o possível, desde que o possível seja feito agora.
Sente e escreva. Agora. E depois continue escrevendo.
Faça o mesmo amanhã.
E depois de amanhã.
E então, sente e escreva. Leia, leia e leia um pouco mais. Agora.
Meu deus, como é difícil escrever.
Não ouça o canto das sereias, disse meu bom amigo e fotógrafo de mão cheia René Cabrales.
Sim, vou continuar tentando.