domingo, 14 de junho de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 174


14 de junho de 2015

22:39

Uma nova madrugada está para começar. Cris queria ouvir música, mas não deixaram. Muito tarde, disseram. Então ela veio para mim e pediu um presente de aniversário. Ontem foi aniversário dela, e já que sou a Maria Que Escreve Cartões De Aniversário Nesta História Horrível        Que Não Quero Que Ninguém Leia, ela pediu para eu escrever sobre o aniversário dela. Como uma prova de amor, acrescentou ela.

Fiquei sem saber o que responder.

Mas decidi me trancar aqui de novo, ela ao meu lado – desde que não fale. A única que deixo ficar perto enquanto escrevo. Ela só disse que queria que eu escrevesse que ela estava bonita. “Ela estava bonita”. Acho que, ontem, ficou um pouco triste quando poucas de nossas colegas-zumbis, neste hotel de mortas-vivas, lembraram do seu aniversário. Cris colocou lápis nos olhos e tique-taques.

Ela estava bonita.

E agora não escrevo só por escrever.

Que ninguém me leia – este é o meu segredo de Mim para Você.

O caso é que ficamos só nós duas no refeitório com pouca luz e como quase ninguém a felicitou (embora, sim, lembraram dela, mas talvez não do jeito que ela queria e, ouso dizer, merecia), comecei a cantar parabéns bem baixinho em volta da mesa, e em vez de batermos palmas, estralei os dedos. Ela gostou. E me convidou para dar uma volta hoje. Fomos. Caminhamos pelo campo, no frio, passamos pelo chafariz que Cheshire gosta e, antes de sairmos, ela esticou a mão para mim. Vamos? perguntou ela. Acho que nossas colegas já tinham ido dormir – na verdade, saímos escondidas, porque esses passeios noturnos não são muito bem-vindos.

E caminhamos pelo campo, respirando esse sereno lindo, de mãos dadas.

- Tem certeza que não gosta de mulher? ela perguntou, enquanto dávamos a segunda volta pelo campo.

Baixei a cabeça e meus olhos foram se arrastando pelo chão junto comigo.

- Eu não sei do que gosto. Mas às vezes, disse eu, apenas queria fugir de mim sem ser encontrada.

Ela sorriu.

- Então gostamos de ir para o mesmo lugar. E está bom assim.

Sorri, ou acho que sorri. Na verdade, não sei bem como me senti em relação a isso. Mas ela estava feliz.

E eu também.

E isso basta.

- Você acha que um dia vamos sair? perguntei, enquanto caminhávamos pela noite fria, em círculos no pátio lá embaixo.

- Um dia, acho que vamos.

Lembrei de algo que a Chica Tortoni me disse esses dias. Que seus pais eram esquizofrênicos, ou um deles, não lembro bem, e que filhos de pais esquizofrênicos têm 10% de probabilidade de desenvolverem a doença. E então ela acrescentou, e notei carinho em sua fala:

- Não somos loucas, Maria.

Quem diria, restou carinho depois do fim de tudo.

Depois do incêndio.

Depois do terremoto.

Aliás, li uma frase em um livro de um filósofo chamado Cortella, citando um carinha chamado Robert Mallet, que dizia: “O que mais desespera não é o impossível, porém, o possível não alcançado”.

Esse Mallet estudava terremotos, que deve ser uma profissão interessante.

Queria que alguém me explicasse este terremoto aqui de dentro.

Sei que decidi dar esse livro de presente para Cris. E quando ela perguntou de onde eu tinha tirado dinheiro para comprar um livro, respondi apenas:

- Eu roubei da biblioteca.

Ela apertou o livro no peito e disse:

- Então eu aceito. Livros roubados têm um gosto especial.

Sorri.

Espero que ela tenha gostado de seu aniversário. De nosso passeio. Do livro.

Não sei que música Cris gostaria de estar ouvindo. Mas ouço em meu pensamento, a melodia que tento fazer unir estas palavras mal escritas em busca de um sentido. Pensei em dizer para Cris algo como “por favor, diga que você não é minha irmã”, mas talvez, de alguma forma, isso fosse estragar a mágica, a mágica que procuro quando tento capturar o piano que se perdeu no tempo, e a vida que quer voltar a ser vida.

Esse Cortella disse que a gente tem que se tornar necessário.

Não sei se algum dia já fui querida, amada. Necessária.

Mas neste começo de madrugada, penso que de alguma forma, sou um pouco necessária para Cris.

Não importa o nome que se dê para isso, porque no fim é apenas um nome.

E não me importo com nomes.

Eu que sequer lembro do meu nome.

Talvez não goste de mulher. Nem de homem. Não quero falar de sexo.

Apenas queria dizer que, de alguma forma, me senti necessária.

Maria Necessária.

E isso me deixa feliz.

E me faz querer viver mais um dia.

Obrigado, amada.

23:12

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 173


8 de junho de 2015

21:08

Suspiro. Não ia escrever hoje, mas a quentura em meu peito, que pode ser saudade, dor, angústia, querer ser, querer estar, não ter sido, tudo isso junto, me faz começar. Trancada neste quarto-cela. Hoje outra dessas malucas estava de aniversário. Parece que ficam esperando um cartão de aniversário da Louca Que Escreve Encerrada aqui. Não sei mais descrever. Tanta gente louca, tanta gente que se veste igual. Mas ela é morena, de cabelos lisos, alta e detentora de um tipo especial de loucura. Já notei que temos graus diferentes aqui, mas não saberia classificar. Sei que assim que a Srta. Vygotsky começou a sua preleção, sempre com um sorriso grande como ela, essa garota cujo nome ainda não sei sugeriu de comermos na aula. A Srta. Vygotsky, que discorria com alegria sobre por que aprendemos e como aprendemos, disse que poderíamos comer e deu um abraço nessa garota. Já tinha ouvido falar que era aniversário dela. Apenas esperei, ou não esperei, e aconteceu.

Minhas colegas de asilo armaram uma mesa, com doces e refrigerantes, e a Srta. Vygotsky continuou falando, e falou sobre aprendermos por identidade, o que me é um tema caro, porque ainda não sei quem sou nem como vim parar aqui. Talvez eu seja enquanto escrevo, o que é uma bonita definição para alguém que não sabe nada de nada, mas sabe que tem que escrever para colocar um pouco de ordem na caverna de sua alma. O caso é que Lady Brownie levou enfim seus brownies, prometidos desde a semana passada para o aniversário da Srta. Vygotsky, e me disse:

- Hoje você vai ter que escrever, Maria.

Não ia escrever nada, como geralmente não vou. Estava apenas ouvindo a aula da Srta. Vygotsky, na sala reservada para isso, para quem quiser assistir, e vi que a aniversariante, cujo nome ainda não sei, disse apenas: vamos comer. Quando vi os brownies de Brownie e cheirei, não uma, mas quatro vezes, e o cheiro de infância invadiu meu espírito, depois o gosto de infância, a infância que no fundo acho que é o que procuro quando começo a escrever estas palavras que nunca dão em nada, mas que talvez sigam um riacho cuja nascente ainda não conheço, decidi que teria que escrever.

Chica Tortoni me disse que tem tesouras, mas não pode me emprestar.

Claro que não pode. As tesouras aqui são proibidas.

Lembrei disso quando a Srta. Vygotsky elogiou o cabelo dela.

Não tenho pensado em morrer. Cris, graças a Deus, esse deus que nem sei se existe, que me largou neste fim de mundo, também não. Pelo menos que eu saiba. Ela anda meio quieta, disse que quer começar a assistir algumas das aulas – mas entendo porque ela não se mistura muito. No fundo, somos muito parecidas e acho que é por isso que ela confia em mim.

E talvez, de alguma forma, me ame, embora não saiba exatamente de que tipo de amor estamos falando, ou que tipo de amor é qualquer tipo de amor.

Mas todo amor é bem-vindo.

Nem acredito que escrevi isso. Mas escrevi: todo amor é bem-vindo. Sarah e suas livres associações. De onde tiro essas palavras? Claro que ela acredita que é do inconsciente e me pergunto: o que mais há lá?

Por isso escrevo.

Sei que no meio dos comes e da aula da Srta. Vygotsky, outra de minhas irmãs-zumbis me pegou pelo braço e perguntou:

- Como é a teoria do trauma, Maria? Acho que também sofri um trauma.

Gelei quando ela perguntou isso. Rememorei a explicações de Sarah, que disse que algo muito ruim nos acontece e a gente não consegue suportar; por isso, esquece. Acho que o termo é “inundação”.

Somos inundados por uma água na qual não conseguimos nadar, nem mergulhar. E para não morrermos afogados, esquecemos.

Acho que é mais ou menos isso.

Eu esqueci.

E nem sei mais se quero mesmo lembrar.

Certa vez, Brownie disse que só queria esquecer. Um ano inteiro, talvez dois. Eu queria lembrar, mas agora já não sei. E se lembrar doer demais?

De novo, o abismo se aproxima.

Não sei se sonhei isso, mas parece que a Cheshire foi embora. Personagens desta história que nem história é, ou não era, aparecem e somem. Cheshire foi embora, a Garota Que É Mais Sorriso Que Garota? Para onde? Para onde vão os personagens desta história quando saem dela, se ela ainda não acabou? E quem deu a eles permissão de irem embora?

Neste momento, porque tudo aqui é sobre elas, penso em Clara a espera de sua mãe Maria, que demorou a chegar. E tenho vontade de chorar.

Mas apenas suspiro, uma vez mais. Olho pela janela, para a praça escura onde Clara brincava no escorregador, para o chafariz que Cheshire tanto gostava. Suspiro uma vez mais. Penso em Lady Ballet, dançando para não colocar tudo para fora – ou dançando e colocando tudo para fora, talvez não colocando mais nada, apenas dançando. Penso em Cris. Tenho saudades, mesmo ela estando tão perto e incrivelmente longe. Ou seria longe, mas incrivelmente perto?

Ainda há esperança.

Feliz aniversário, garota sem nome. Outro dia invento um nome para você, mas considere-se felicitada. Outros aniversários virão. Ainda há esperança.

Não chore, pequena Clara.

Mamãe está chegando.

21:41

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Piano Para Pequena Clara - Dia 172


1 de junho de 2015

21:39

O frio está de volta e hoje quando olhei pela janela, antes de passar pelo chafariz lá embaixo, vi a brancura do dia, linda. 

Um branco como às vezes acho que é a explosão e o incêndio que termina esta história. 

Mas ela não vai terminar hoje. E hoje houve um motivo para comemorar. Minhas colegas de asilo prepararam uma festa-surpresa para a Srta. Vygotsky, de aniversário hoje. Antes de ela começar outra de suas explanações, fecharam a porta do salão que, escuro, irrompeu em parabéns quando ela entrou. A Srta. Vygotsky estava bonita, especialmente arrumada, então penso que, apesar da expressão de surpresa, talvez em seu inconsciente - já que Sarah disse que um inconsciente pode conversar com outro e a Srta. Vygotsky também acredita nas teorias daquele velho tarado -, ela já estivesse esperando uma festa. 

Sei que foi bonito. Pode haver um pouco de alegria e, por que não, paz aqui neste lugar de vez em quando. Se estamos todas mortas, como suspeito às vezes, celebrar a vida da Srta. Vygotsky nos deixou vivas por mais um dia - ou vivas, de volta, por mais um dia. Sei que Lady Brownie não trouxe seus brownies com cheiro de infância e a Chica Tortoni cortou ela própria o cabelo para esta ocasião. Não sei como, pois as tesouras são proibidas para nós, por motivos óbvios, mas ela apareceu de cabelo cortado, assim como algumas outras aparecem às vezes.

Todas loucas.

E felizes.

Um pouco de vida neste lugar, por que não? A Srta. Vygotsky convidou uma amiga para falar - talvez ela seja monitora de alguma outra ala, neste lugar de paredes e muros altos - e lembro que o Garoto Skinner reclamou que não falaram de Skinner, um dos anjos da guarda dele, assim como imagino que Sarah e a Srta. Vygotsky tenham o velho tarado. 

Não importa. Foi um momento feliz. Doces, refris, bolachas, salgadinhos.

Como uma festa de criança.

Uma festa de aniversário para sweet lady Clara. Antes de começar o terror. Antes de Claudius. Esses dias li que um pai se masturbava com a filha pequena e que ela tinha fissuras na vagina, causadas pelos dedos dele. Não quero parar de escrever para sequer cogitar se Claudius, Doutor Maldito, fez o mesmo com Clara. Não, hoje eu só quero este momento de vida.

Maria Que Quer Um Momento De Vida.

Uma outra coisa, que lembrei agora, e seguindo os rastros de Sarah, que me sugeriu escrever tudo o que pensasse, especialmente quando achasse bobo, insignificante, idiota. Nesta tal livre associação. Em uma dessas noites, Lady Ballet entrou em meu quarto e disse que queria que eu visse uma coisa. Que coisa, perguntei. Ela tirou a camisa e virou de costas para mim. Aliás, ela virou de costas para mim e tirou a camisa, então percebi que ela não queria que eu visse ela de frente, nua. Havia uma grande caveira em suas costas - não tão grande quanto a tatuagem que Cris certa vez me mostrou, com o mesmo movimento de se virar e se despir - e outro desenho que não consegui decifrar.

- Por que está me mostrando isso?

Ela se vestiu e disse:

- Eu sei que você também tem marcas, Maria.

Tive o impulso de chorar o suficiente para sair nadando, inundando tudo isso aqui e escorrendo pelo lado de fora dos muros.

Mas nada disse.

Olhei para meus braços.

Pensei no fim da história de Clara.

- Não estou falando dessas marcas, disse ela.

Lady Ballet sorriu. E disse que eu podia contar com ela.

Pensei em dizer que também sou uma garota com fendas. Mas é claro que ela sabe disso. Somos todas aqui. Acácia, Blossom. Dafne, que nunca mais vi. Todas nós, garotas com fendas. Lady Ballet e tantas outras que aparecem e somem desta história. Mas hoje eu só queria pensar no sorriso da Srta. Vygotsky. Que é grande como ela - talvez até maior que o de Cheshire, a Garota Que É Mais Sorriso Que Garota. Talvez do tamanho do sorriso da Garota Neutron, que está para ganhar bebê - como não reparei que ela estava grávida, a Garota Que Sabe Das Coisas?

Não importa. Um pouco de vida já está de bom tamanho pelo dia de hoje. Vida chegando, vida acontecendo. Vida que insiste e por isso mesmo é vida. Vida que pulsa. Como o piano que toca e sara todas as dores.

Sarah que sara, pensei agora.

Maria, a mãe, que toca.

Uma mãe sempre sabe.

Jonas e Marcos, perdidos nesta história. Assim como eu. Mas chegará o nosso tempo, meninos. De ouvir aquele piano lindo e triste de novo. Que insiste. E me faz, e me fazendo nos faz, querer viver mais um dia. E por hoje, está tudo no seu lugar.

Obrigado, Srta. Vygotsky.

22:12

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 171




19 de maio de 2015

23:11

Desde que encontrei no corredor Sarah e a Srta. Vygotsky conversando – eu sabia que elas compartilhavam em segredo as teorias daquele velho tarado –, e Sarah me perguntou à queima-roupa se eu estava escrevendo, na frente da Srta. Vygotsky, que a essa altura já sabe que escrevo, e não tenho mais como fingir que não escrevo sozinha no quarto, estava para vir aqui escrever. Qualquer coisa que me livrasse da dor. Escrevo por isso. Lembrar, se lembrar algum dia, é lucro. Gostei de ver Sarah, a psicanalista que me enlouquece por quem nutro amor e ódio.

Eu disse amor?

Talvez. Talvez nem tudo tenha se perdido. E conforme vou escrevendo, na certeza de que ninguém vai ler esta merda, os pontinhos vão se juntando, como Sarah disse que aconteceria, se eu escrevesse. Tenho que escrever para ela para completarmos o plano – descobrir o mistério da pequena Clara. A garotinha que ficava ouvindo sua mãe tocar piano, enquanto chorava – mãe e filha, talvez escondidas uma da outra. O piano que volto a ouvir.

Sarah e a Srta. Vygotsky conversavam em um destes corredores que às vezes me parecem incrivelmente longos, e acho que vi elas conversando lá embaixo, em volta do chafariz que Cheshire adora. Então, a Srta. Vygotsky, que está de aniversário daqui a alguns dias, retirou-se para uma de suas explanações e a Garota Que Caminha Em Câmera Lenta me convidou para assistir. Fui. Caminhamos até lá, e fui conduzindo Miss Daisy, como gosto de me referir a Lady Brownie cada vez que a ajudo pelos corredores. A Srta. Vygotsky falou sobre um documentário em que havia uma aluna jovem, nordestina e pobre, poetisa genial, cujos professores duvidavam de sua capacidade...

Pausa. Cris bate na porta. Está escrevendo, pergunta ela.

Suspiro.

Ela quer conversar.

Quero fugir.

Preciso continuar escrevendo. Quero pular os muros. A dor não passa.

Ela disse que estava com saudades.

Cris que de alguma forma gosta de mim.

Que já pensei até que poderia ser minha irmã.

Volte a escrever, disse ela.

Então pensei na garota que a Srta Vygotsky havia falado e que os outros professores achavam que ela não teria capacidade para escrever aqueles belos poemas. Brownie disse que isso estava sob medida para eu escrever. Tipo assim, quem sou que ninguém acredita? Se alguém lesse, pensaria que é a louca que escreve trancada no quarto? Alguém acreditaria em mim?

Alguém acreditou em Clara quando ela disse que não gostava do que Claudius fazia com ela?

Maria, a mãe, acreditou?

Suspiro de novo.

Papai que brincou com a filhinha feito papai que brinca com a mamãe.

Filho da puta, maldito.

Então, me pergunto: quem sou eu dentro da história que conto?

Já me ocorreu que Maria, a mãe, pode ter sido abusada por seu pai, e como não contou, ou contou e não acreditaram, ela passou a desgraça para a pequena Clara. Que não contou ou contou e não acreditaram. O Dr. Claudius? Jamais.

Mas também me ocorreu que Clara é parecido com Lara, a titia putinha que deu para o papai na noite de réveillon e fez ele tomar um champanhe depois de dez anos sem beber uma gota. Clara é parecido com Lara.

Mas também é parecido com Claudius.

E se Claudius e Lara geraram Clara?

Será esse um dos mistérios desta história horrível?

Sarah diria que, de alguma forma, escrevo para encontrar minha mãe.

Minha.

A família que se perdeu no incêndio, esse que especulo que deve ter acontecido, talvez o mesmo que seja o destino desta história. Não sei o que é verdade ou ficção, apenas vou escrevendo.

Meu deus, como odeio esta história.

A Srta. Vygotsky, Sarah, Brownie, Cheshire, Cris, Acacia, Blossom e tantas outras que aparecem nesta história e somem rápidas feito meus suspiros, todas elas: escondem de mim o que procuro. Talvez se juntar elas todas monte este quebra-cabeça. Como uma dessas brincadeiras que os psicólogos dizem para as crianças fazerem, tipo, desenhe uma casa, um homem, uma mulher, uma criança, monte com bonequinhos, veja o que eles fazem.

Talvez Clara, se chegou a ir em algum psicólogo, tivesse montado o bonequinho se esfregando na bonequinha. Meu deus, o bonequinho comendo a bonequinha.

Será que ninguém naquela merda viu que a garota estava sendo abusada?

Talvez tenham visto. Mas fingiram que não.

Ou não quiseram ou não puderam.

Como eu.

Que não quero ou não posso continuar escrevendo. Sarah sabe disso. Talvez a Srta. Vygotsky também. Cris deve saber, às vezes parece que ela me entende mais do que qualquer uma aqui. Suspiro de novo. Não tenho vontade de chorar. Só queria que a dor passasse. Queria dar uma volta pelo chafariz, mas Cheshire deve estar dormindo. Ou passeando escondida. E rindo. Lady Ballet talvez dançasse. No escuro, soberana feito a madrugada.

Maria, a mãe, talvez tivesse um segundo nome.

Maria Madalena?

Maria Catiúcia?

Maria Francisca?

Maria, a mãe. A dor não passa. E agora é muito tarde para tentar pular o muro. A madrugada se inicia, mas agora eu sei: chegamos um pouco mais perto daquele abismo hoje.

E vou encontrar minha mãe, Sarah.

23:52

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Piano For Little Clara - Day 169

(Traduzido e enviado parágrafo Albert Bandura em Stanford .. :)

#PianoForLittleClara




Friday, May 8, 2015 00:37 Maria back to the room. To this horrible story. The cold weather returned. I spoke today with Sarah and sometimes she has the rare gift of letting me worse than I am. Bitch. The bloody hell psychoanalysts. I swear I thought I was going to kill her and stop this pain. But maybe it does not end anything and maybe - and I hate her a little for him - all this mud where I get sometimes after we speak is part of a larger plan. As the end of the pain. If there is an end. The end that I seek and from which I escape: the mystery of little Clara The end of all this story, which revolves around itself a terribly misspelled history that never comes to anything. But for some reason I keep writing this shit. I read some excerpts from a guy named Bandura, speaking of motivation and daily use to monitor yourself. I do not know, I thought my motivation to write, the first motivation is to get rid of the pain. Pain that gets stuck inside me, Mary Stuck itself. But I also write to remember. This is the second motivation, I think. Then we have the diary, which is more or less what I do here. I do not feed me secret that someday someone will read it here. Perhaps an unconscious level, whatever.


God, Sarah, fuck off. I'm going crazy, bitch.

Maybe I should tell her, but I think we're saying here is how to tell her. So maybe because of it, deep down, I write.

So maybe this dream-nightmare is not just a dream, and one day I explain to the world what is the story of Clara. This little story I try to write here every night, or dawn, when bursts of pain.

Maria overflowing.

Maria looking out the window in the dark.

Where I think I saw Clara playing in the square for the first time. The slide. And Mary, the mother, the beautiful Mama, Mama the best in the world, she waited on arrival, then packed on the swings, as once in a padded bed Clara. Mary, the mother, who told stories to his daughter Clara. One of the two, who knows both authors could have made. It would be an interesting ending to this story.
I tremble as I write this.
Perhaps there is hope after all.
I take a deep breath.
I want to cry.
After all.
Maria Who looks out the window.
Looking for the most beautiful princess in the world.
The princess was lost at the top of the castle.
Alone.
But we can still get up there, little Clara.
And let's go down together.
As a mother and daughter.
And that's when I start to cry.
00:54

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 170




Segunda-feira, 11 de maio de 2015

20:39

Tive um sonho hoje.

Eu estava em um palco fazendo o que disse que nunca farei: falando sobre a história da pequena Clara. Era como uma dessas aulas que a Sarah de vez em quando dá, e a Garota Neutron também. Quer dizer, Neutron é como eu (todas podemos ensinar alguma coisa, se quisermos), mas havia uma outra, que já vi dando explanações por aqui. Ela também é uma Garota Que Sabe Das Coisas, mas não é baixa como a Garota Neutron. Na verdade, ela é alta, de sorriso grande – não tão grande como o de Cheshire, mas grande também – e loira, como se houvessem derretido ouro e colocado sobre sua cabeça. Ouvi ela falando sobre um russo, acho que era Vygostky. Como não sei seu nome, e isso tampouco importa, ela será a Srta. Vygotsky. Mas acho que ela também gosta daquele velho tarado que Sarah gosta, porque ouvi ela falando sobre o trauma ser uma inundação de dor e por isso a gente esquece – que é mais ou menos o que Sarah me sugere que aconteceu comigo.

Mas não era isso o que eu queria contar.

No sonho, a Srta. Vygotsky me convidava ao palco para eu falar sobre a história que escrevo aqui neste quarto-cela. Eu montei aquele genograma que me ensinaram – na verdade, nunca soube fazer aquilo, mas no sonho eu sabia – e que conta a história da família de Clara por desenhozinhos, quadradinhos e bolinhas. É claro que foi um sonho, porque jamais faria isso. Mas comecei e falar, e minhas colegas deste lugar de muros e corredores faziam suas apostas.

Quem é a Maria Que Conta?

Havia uma garota de pele morena, meio índia, com sotaque diferente da maioria das minhas colegas-irmãs deste asilo. Ela disse que veio de Buenos Aires, então será a Chica Tortoni. Ela pareceu interessada. Havia um jovem gordinho e alegre como só os gordinhos conseguem ser: alegres e cheios de ideias. Ele falava que tudo é comportamento e me explicou a história dos ratinhos. Este é o Garoto Skinner. No fundo, acho que ele pensa parecido com a Sarah e suas loucuras. Talvez sejam níveis diferentes de loucuras, essa dos ratinhos e dos comportamentos das pessoas – sendo, sem dúvida, a loucura de Sarah – e a da Srta. Vygotsky, descobri então – a loucura suprema. Pensei que deve haver uma conspiração psicanalítica que ronda este lugar.

Então acordei.

Passei pelos corredores hoje, enquanto chovia lá fora, e vi Brownie conversando com a Srta. Vygotsky. Ela disse que ainda não tinha provado dos brownies de Brownie. Quando cheguei perto, Brownie, a Garota Que Anda Em Slow Motion, me perguntou se eu ia escrever hoje.

Olhei pela janela.

Maria Que Escreve Quando Chove.

Maria Que Nunca Sabe O Que Vai Escrever.

Mas Que Ainda Assim Escreve.

Deve ter ficado em algum lugar perdido dentro de mim. O Garoto Skinner foi quem me emprestou aquele livro do tal Bandura. Devo ter ouvido a Srta. Vygotsky falando em algumas dessas salas. Devo ter reparado no sotaque de Chica Tortoni. Tanta coisa que deve ter acontecido.

Tanta coisa que aconteceu.

Por que ainda não consigo falar sobre isso?

Por que não lembro?

Porque não posso ou porque também fui inundada?

Meu deus, inundada de quê?

Suspiro.

O penhasco. Sempre fujo dele. Sempre tento fugir. E vou esticando o texto, sem jamais saber que palavra virá a seguir, mas sem conseguir parar, como se meus dedos tivessem vida, ou pode ser simplesmente aquela inundação que a Srta. Vygotsky falou. Tenho certeza de que ela é do time de Sarah. Psicanalistas Do Inferno Que Tiram Minhas Noites De Sono.

Não sei por que, mas pensei agora em Claudius.

Maldito.

O homem dos pesadelos de Maria, a mãe.

E da pequena Clara.

Às vezes me volta à mente a ideia de que esta história termina em um dia de chuva. O frio voltou e esses dias cinzas lindos também. Então vou escrevendo, trancafiada aqui. Pensando na Srta. Vygotsky, na Chica Tortoni, no Garoto Skinner. Em Brownie.

Em Maria, a mãe.

No tempo que se passou.

Na pequena Clara.

Sweet Lady Clara.

E se Clara não for uma pessoa, mas um objeto, como ouvi o Garoto Skinner sugerir em meu sonho?

Chica Tortoni também tem suas teorias.

E se eu descobrir que tudo isso é um grande delírio?

E se eu já tiver morrido, como supus? De alguma forma, sei que morri.

Só quero descobrir o que fui antes.

E penso em Brownie e seus brownies com cheiro de infância.

Quase posso sentir seu cheiro.

A infância que se perdeu. Mas que ainda está lá. Perdida dentro de mim.

Como essa história horrível que odeio escrever.

O que fui antes de morrer?

Que vida foi essa que se perdeu?

Sarah e suas loucuras que contaminam. Neutron, Vygotsky, talvez elas sejam que nem eu, e somos todas desgarradas neste lugar que às vezes me parece um cemitério. Ou uma casa abandonada.

Uma casa abandonada.

Um lar que se quebrou no meio.

Sim, ainda existe esperança.

Reconstruir a vida que se perdeu, o lar que se foi. Sobrou algo depois do incêndio que consumiu a todas nós?

Então olho para as marcas em meus braços. Não programei escrever “incêndio”, mas de alguma forma meu cérebro cuspiu essa palavra. Um incêndio que consumiu a todas nós.

Nem todas.

Estou viva.

Estamos vivas, pequena Clara.

Estou viva dentro de você e você dentro de mim.

Assim como Maria, a mãe.

A vida ainda não se perdeu.

Ainda não.

21:19

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 169





Sexta-feira, 8 de maio de 2015

00:37

Maria volta ao quarto. A esta história horrível. Ao frio que voltou. Falei hoje com Sarah e às vezes ela tem o raro dom de me deixar pior do que já estou. Vaca. Malditos psicanalistas do inferno. Juro que pensei em matar ela e acabar com essa dor. Mas talvez não acabasse nada e talvez – e odeio ela um pouco por isso – todo esse lodo no qual fico algumas vezes depois que nos falamos faça parte de um plano maior.

Tipo, o fim da dor.

Se é que há um fim.

O fim que procuro e do qual fujo: o mistério da pequena Clara.

O fim desta história toda, que corre atrás do próprio rabo, uma história horrivelmente mal escrita que nunca dá em nada.

Mas por algum motivo continuo escrevendo esta merda.

Li uns trechos de um carinha chamado Bandura, que fala de motivação e uso de diários para monitorar a si mesmo. Sei lá, pensei que minha motivação para escrever, a motivação primeira, é me livrar da dor. A dor que fica presa no de dentro de mim, Maria Presa Em Si Mesma. Mas também escrevo para lembrar. Essa é a motivação segunda, acho. Depois temos os diários, que é mais ou menos isso que faço aqui. Não que eu alimente em segredo que algum dia alguém vá ler isso aqui. Talvez a um nível inconsciente, sei lá.

Meu deus, Sarah, foda-se. Estou enlouquecendo, sua vaca.


Talvez eu devesse dizer isso a ela, mas acho que dizendo aqui é como dizer para ela. Talvez por isso, no fundo, escreva.

Então, talvez aquele sonho-pesadelo não seja apenas um sonho, e um dia eu explique ao mundo como é a história de Clara. Essa historiazinha que tento escrever aqui a cada noite, ou madrugada, sempre que a dor transborda.

Maria Transbordante.

Maria Que Olha Pela Janela No Escuro.

De onde acho que vi Clara brincando na pracinha pela primeira vez. Descendo pelo escorregador. E Maria, a mãe, mamãe linda, mamãe the best of the world, esperava ela na chegada, depois embalava ela nos balanços, assim como um dia foi na caminha acolchoada de Clara. Maria, a mãe, que contava histórias para sua filha Clara. Uma das duas, quem sabe as duas, talvez tivessem se tornado escritoras. Seria um final interessante para esta história.

Me arrepio quando escrevo isso.

Talvez exista esperança, depois de tudo.

Respiro fundo.

Tenho vontade de chorar.

Depois de tudo.

Maria Que Olha Pela Janela.

Procurando a princesa mais linda do mundo.

A princesa que se perdeu no alto do castelo.

Sozinha.

Mas ainda podemos subir lá no alto, pequena Clara.

E vamos descer juntas.

Como mãe e filha.

E é então que começo a chorar.

00:54