domingo, 22 de novembro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 189


22 de novembro de 2015

00:50

Uma nova madrugada está começando.

Silêncio no asilo.

Silêncio fora, barulho no de dentro de mim.

Visitei Cris hoje. Fui até a ala das Meninas Que Voam Pelos Muros. Apesar do dia quente, ela estava com um moletom negro invertido e de chinelos. Perguntei como ela estava. Ela ficou feliz de me ver. Doce Cris. Ela me contou que as garotas de lá esticam as mãos para andarem de mãos dadas com ela, e nesse momento nós duas saímos caminhando. De mãos dadas, como ela gosta. Cris disse que algumas das Meninas Que Voam Pelos Muros gostam de olhar para ela e para elas entre si enquanto tomam banho, algumas das mesmas que gostam de andar de mãos dadas.

− Isso aqui é uma coisa muito lésbica, disse ela.

Caímos na risada.

Doce Cris. Perguntei se ela ainda pensava em voar pelos muros.

Ela disse que hoje não.

Quis levar ela de volta, mas sei que não posso. Não posso resgatar ela do de dentro de si, e talvez Cris tenha o mesmo problema que eu: ambas queremos encontrar nossa pequena Clara.

Minha filhinha linda, garotinha especial. Não mais linda como um corte no pulso, mas apenas: linda.

Em minha mente de pretensa escritora, imaginei Clara tocando o piano de Maria, a mãe. Clara tocando seu próprio piano, ou o piano que um dia seria seu. Maria ensinando ela a tocar, talvez começasse com parabéns a você, depois fosse para o Beethoven, não sei.

Cris disse que tem uma das Meninas Que Voam Pelos Muros, que havia ido para lá porque tentara se matar na prisão, que sempre chama ela de Monique. Meu nome não é Monique, ela disse várias vezes, mas acaba sempre sendo chamada de Monique. Lembrei na hora de quando Sarah, falando daquele Winnicott, disse que a gente tem que conversar com o falso self para saber como ele pensa. Quer dizer, a gente não, só os perturbados dos psicanalistas. Conversar com o falso self é conversar com a loucura, entrar na paranoia alheia. Disse isso para Cris e sugeri, para não puxar briga com a Menina Da Prisão, que se ela quisesse chamar ela de Monique, que deixasse.

− Que diferença faz? Aqui eu posso ser quem eu quiser. Estou num hospício.

Rimos de novo.

Se todo mundo soubesse como faz bem para a sanidade vir para um lugar como esse, pensei, acho que este lugar deveria ser maior. Aliás, enquanto passeávamos, vi uma vez mais como este lugar é imenso. Paramos ao lado de um barranco de concreto, passando por um estacionamento (acho que eles colocam ambulâncias lá), caminhando pelos verdes, as pedras, longes do chafariz que Cheshire adora. Como nunca reparei em nada disto? Apenas tinha uma vaga memória de um riacho lá embaixo, em algum lugar disso que parece uma floresta, mas que na verdade é cheio de jardins e bancos, onde também sentamos para conversar.

Fiquei com medo de Cris querer voar pelos muros de novo. Hoje ela não vai, disse. Ainda há esperança. Podemos encontrar nossa pequena Clara. Aquela criança linda que era a mais linda do mundo antes que a vida fizesse esse monte de merda que fez. Sim, a pequena Clara está nos esperando, esperando a todas nós, Garotas Com Fendas, Meninas Que Voam Pelos Muros, Meninas Da Prisão, Meninas Que Sonham. Todas sonhamos, então ninguém vai pular pelos muros. Estamos vivas.

Sonhamos.

Podemos voar.

Não pelos muros, mas pela estratosfera. Sobre as nuvens, rumo ao céu. Onde encontraremos nossa paz, mas antes dele encontraremos aqui: nesta terra, neste solo. Neste lado dos muros enquanto não chegamos do outro lado. Então não haverá mais muros. E seremos todas rainhas dos castelos de nossos reinos encantados. Rainhas eternas.

Soberanas.

Com sentido.

Rainhas felizes.

Rainha deste lado do paraíso, querida Cris.

01:15

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 188


Quinta-feira, 12 de novembro de 2015

21:47

Sarah permitiu que Cris fosse visitada. Por uma única pessoa: eu. O tempo está para chover de novo, não sei se foi porque eu já tinha me programado para escrever, mas o dia em que vi Cris, um desses últimos dias, foi um dia de sol. Nunca tinha reparado como este lugar onde estamos é grande.

São prédios de seis andares pintados de azul, com janelas gradeadas. Corredores cheios de quadradinhos coloridos, algumas pinturas nas paredes, acho que de santos. São prédios que se grudam nos outros, circundados pelo verde, pelos campos, pelas estradinhas de concreto, os arbustos, o chafariz que Cheshire gosta que fica lá longe, do outro lado, e o riacho lá nos fundos, escondido em algum lugar desta floresta, que não é simbólica, mas uma floresta de verdade. Sem animais selvagens (que eu saiba), mas me impressionei como devemos ser muitas nesses prédios. Como devemos ser muitos também, porque sei que existe uma ala só para homens, e ouvi eles brigando e mesas caindo, assim como ouvi mulheres brigando, lutando boxe ou algo parecido ou qualquer um desses esportes de menino.

Às vezes me pergunto se um dia vamos sair.

Não lembrava como esse lugar é grande.

O caso é que Cris foi liberada para uma visita e fui até lá, no outro prédio, o das Meninas Que Querem Voar Pelos Muros. Voar sem saber voar, até que descubram tarde demais que o pulo não tem volta.

Cada uma tem um jeito de querer voar pelos muros.

Algumas querem voar com remédios, outras com cordas.

De qualquer forma, fico feliz que Cris não quis mais voar. Pelo menos no dia em que fui ver ela e conversamos, ela disse que não estava pensando em voar.

A pequena Clara, meu deus, também quis morrer.

Será que foi assim que acabou tudo?

Será que esse é o incêndio do qual fujo?

O fim desta história sem fim?

Talvez o abismo me chame uma vez mais. O incêndio, o corte no pulso, a asfixia, a luz. Não, apenas a luz.

Não voaremos pelos muros hoje, querida Cris.

Suspiro. Acho que algumas das Garotas Com Fendas são também Garotas Que Voam Pelos Muros.

Mas que de alguma forma, lutam para não voar. Elas também têm seu abismo, que chama. Mas dizemos não. Por hoje.

De qualquer forma, Cris está melhor. Sentamos em um dos bancos de madeira e acho que era dia de visitas porque vi pessoas estranhas aqui ou, digamos, com cara de gente normal. Pobres normais. Não importa. No dia de hoje, acho que somos normais, talvez as únicas normais, já que além dos muros é uma loucura que não consigo entender.

A nossa pelo menos parece familiar.

Clara tentou se matar?

Sim.

Meu deus, quero parar de escrever, mas o trem está de novo descarrilhando e vou escrevendo e pensando em voz alta, a voz sem voz do meu cérebro, Garotas Lindas Que Querem Ser Salvas No Último Minuto.

Blossom estava quietinha com seu caderno. Lady Ballet anda sumida (será que é por causa do namoro com aquele maluco?), Lady Brownie disse que fez mais doces, ela e seu andar em slow motion. Não sei mais o que escrever. Talvez tudo isso seja para dizer que fiquei feliz de ver Cris, que não voou mais pelos muros. Será que as outras também querem voar?

Certamente tem mais gente aqui que quer, ou quer de tempos em tempos, senão não haveria a ala das Garotas Que Voam Pelos Muros.

A história podia terminar hoje. Cris não voa pelos muros. E ficamos nós duas aqui, a salvo neste fim de mundo.

Cris não morre. Nem Clara. A pequena Clara decide, ó meu deus, não ligar o fogão.

Meu deus.

Quero parar o tempo. Quero reescrever esta merda toda, jogar no lixo, apagar, queimar... queimar, não. Não quero queimar.

De onde vêm as queimaduras em meus braços?

Meu deus. Esta história não pode terminar assim.

Não vamos morrer. Eu sou a dona da história, a rainha deste castelo e ordeno: não vamos morrer. Nem eu, nem Cris. Nem a pequena Clara. Nem Maria, a mãe. Claudius, maldito, pode morrer. Queimado, seria um fim justo para o papai que transformou a filhinha em mulherzinha. Lara, tanto faz, titia putinha. Marcos e Jonas? Não, eles também não podem morrer. Jonas Michel, acho que era seu nome. Ambos irmãos da pequena Clara.

Ainda existe esperança. Estamos vivas.

Sim, meninas lindas. Estamos vivas.

E hoje ninguém vai morrer.

22:14

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 187


5 de novembro de 2015

21:46

Não está chovendo.

Mas chove dentro de mim.

Tenho vontade de chorar.

Preciso continuar escrevendo.

Dessa vez não foi o chamado da pequena Clara que me fez voltar.

Foi Cris.

Doce Cris.

Ela tentou voar pelos muros. Voar para o infinito. Linda, eterna. Meu deus, mal consigo escrever, as palavras me doem uma a uma, e a coisa está voltando. Ela caminhou por cima dos muros, os muros altos, tão pertos do céu, tão perto de qualquer lugar que não seja esse fim de mundo. Ela queria cair?

O que você acha?

Cris que quis ir embora antes da hora.

De novo.

Minha linda Cris.

Ela quis voar sobre os muros.

Penso em uma melodia linda, feito um corte no pulso, feito asfixia, feito remédios e misturas, triste e linda, para ser tocada em um corredor escuro de paredes cinza ou paredes sem luz, um corredor estreito de paredes altas com a pintura descascando, uma caverna como alguns lugares deste fim de mundo – e a música continua. Cris continua sobre os muros, mas então ela volta de lá. E vai para outro lugar, onde não podemos nos ver, ou podemos nos ver menos, e tenho vontade de escrever uma carta para ela, e talvez isso que esteja fazendo agora seja uma carta, uma carta que talvez jamais seja lida, como tudo mais que escrevo aqui, perdida dentro de mim. Então me voltou hoje o medo de enlouquecer. O medo de que as vozes não se calem mais.

As vozes voltaram.

E não posso ver Cris, não agora.

Ela está em outro lugar deste asilo, um especial para pessoas que querem voar pelos muros. Que tentam voar, que conseguem voar, e que saem talvez no fim de tudo.

Mas e se o fim não for o fim?

Então paramos de querer voar pelos muros.

E buscamos um sentido para aqueles que ficam. E para os que ainda não se foram.

Cris está bem agora, me disse Sarah, que também me disse para falar sobre essas vozes insistentes, vozes dissonantes feito um acorde de piano, e hoje não ouço o piano. Apenas a melodia para ser tocada no corredor de paredes negras. Negras e altas, como gigantes neste castelo mal-assombrado.

Estou parecendo tétrica?

Foda-se.

Este é o dia de hoje, aqui no Hotel Hospício.

Amanhã será outro dia, prometeu Scarlett, e não sei mais o que escrever. Mas Sarah disse para falar sobre as vozes com um médico porque há remédios que fazem elas ficarem mais quietas, mais comportadinhas. Putas mal-criadas.

Sei lá por quê, mas lembrei de Lara hoje. Lembrei do primeiro gole que Claudius tomou quando estava com a titia putinha, titia que devia cuidar da sobrinha Clara enquanto Mamãe Maria estava internada em um hospital.

Talvez em um lugar de fantasmas como este onde me encontro.

Dez anos. E ele foi mamar veneno na queridinha. Vou escrever o que me vem a mente neste momento: talvez Claudius tenha levado a pequena Clara em algumas daquelas reuniões, talvez ele tenha parado de ir nas reuniões, talvez ele tenha levado ela em um boteco chamado Decrépito’s quando ela era criança.

Talvez, não sei.

Vou apenas tentando registrar as vozes, em tempo real, e vou escrevendo e o monstro vai se acalmando. Se escrever esta maldita história é o que vai me afastar da loucura, embora suspeite que também estou enlouquecendo por causa desta queda livre dentro do abismo de dentro de mim a cada vez que escrevo, então devo continuar. De qualquer forma, estou de volta. Aos meus escritos de escritora amadora que jamais serão lidos. Mas se eles servirem para não voarmos pelos muros hoje, então terei cumprido a minha missão.

Hoje não.

E se for isso que chamam de esperança, de novo: no fim talvez a gente encontre um sentido em tudo e possa seguir até sair do outro lado. Sem voar pelos muros. Caminhando, não como Garotas Com Fendas, mas como Princesas em um Caminho de Tijolos de Ouro, de volta para casa.

De volta para casa.

Me arrepio uma vez mais.

Sim, garotas lindas: um dia sei que voltaremos para casa.

22:10

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 186


20 de outubro de 2015

21:33

Antes que chova, vou escrever.

Tive outra das aulas que Sarah ministra sobre essa gente louca que ela adora, e hoje ela falou sobre uma tal de Mahler, que dizia que quando o bebê nasce está na fase autista, durante o primeiro mês de vida, e ele só se importa com seu mundo interno; do segundo ao quinto mês ele fica na fase simbiótica, que não sabe exatamente o que vem dele e o que vem de fora; e lá pelo quinto, sexto mês... O que acontece mesmo? Esqueci. Mas fico me perguntando: como essa Mahler sabia disso? Chegava para o bebezinho e dizia: “fale mais sobre isso...”?

De qualquer forma, se bem me lembro, ela disse que no primeiro mês de vida o bebê ainda está em um prolongamento da vida intra-uterina, tipo, ele vai se portando como se ainda estivesse dentro do quentinho, castelo todo-poderoso e seguro do útero.

Que nem esse onde estou, pensei agora.

Acontece que nunca consigo criar uma infância tão infância para o meu bebê, Lady Clara. Minha criança linda. Minha princesinha. A Garota Cheshire me levou para ver o temporal que inundou tudo esses dias e abalou as estruturas do paraíso, mas por algum milagre não derrubou nada aqui, tirando as árvores, talvez por esta ser uma construção antiga, um hospital antigo, um asilo antigo, um cemitério antigo, um campo para almas penadas antigo. Não importa, mas lembro que vimos os relâmpagos que transformaram em dia a noite, que riscaram o céu, e a Cheshire disse que era lindo aquilo.

− Muito foda, foi o que ela disse.

E depois acrescentou que tinha medo. Dafne me disse que aquela exposição de artes para a qual Sarah tinha nos convidado, Festival Garotas Com Fendas, vai ser adiada. Agora que até cogitei, no escondidinho do de dentro de mim, ou na posição autista da Mahler, recém chegando do útero, mostrar um pouco desse monte de bobagem que escrevo aqui, mas tudo bem. Talvez Sarah tenha intuído que ainda não estou pronta.

Ainda não estou pronta. É por isso que não termino esta merda de história.

Mas antes que comece a chover, eu que só escrevo quando chove, e disseram que vem outro dilúvio talvez ainda hoje, me veio uma imagem na cabeça. Não sei se é invenção ou algum fiapo que escapou da floresta do meu inconsciente.

Maria que olha pela janela em um dia de chuva.

Parece uma foto interessante.

Mas não é essa imagem a que me refiro.

Uma garotinha em um dia cinza.

Um dia cinza que chove.

Uma garotinha caminha sobre a água, em um dia cinza, lindo feito um corte no pulso. Lindo feito a vida que ainda pulsa.

Cris, doce Cris. Que quer viver mais um dia. Como eu.

Às vezes pensamos pensamentos ruins. Queremos passar para o outro lado, e então decidimos ficar. Não podemos cruzar a ponte e depois decidir voltar atrás. Por isso não vamos.

Ficamos por aqui. Hoje.

Uma garotinha em um dia cinza, caminhando pelo verde da grama. Emolduradas pelo cinza do dia. Pelo cinza da vida. Maria Melancólica. Mas Maria Que Vive.

A pequena Clara que gostava de se atirar nas poças de água e escorregar pelas águas sobre as gramas, feito um bote rumo ao outro lado. Longe da dor. Me arrepio quando escrevo, mas de novo: não consigo parar. Não podemos passar para o outro lado, Cris. Não podemos, garotas. Temos que ficar aqui e fazer o melhor com isso que sobrou da vida – e se é isso que se chama esperança, então somos esperançosas. Talvez tenha sobrado muito mais do que consigamos ver. Dafne e sua novidade. Cheshire e sua risada. Tanta gente que entra e sai, e não sei como elas entram, nem saem.

Sabby, Acácia, Blossom. O Garoto Skinner. A Srta. Vygotsky. Sarah, a Sarah que sara.

Escrevi tudo isso e nem toquei no homem alto e moreno de cabelos lisos, Maldito Doutor Abusador. Talvez ele esteja morrendo dentro de mim.

De dentro dessa história.

Que espera a próxima chuva. Assim como aquela garotinha linda, a Menina Mais Linda Do Mundo espera. Um passeio pela chuva, por que não?

Talvez esta história termine em um dia de chuva.

E ninguém morra.

Mas sei que Clara vai passear, e sim: ser feliz.

22:01

sábado, 10 de outubro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 185


10 de outubro de 2015

00:00

Queria nunca mais ter que escrever.

Queria que passasse a dor.

Mas ela passa, e volta. Então preciso escrever. Uma nova madrugada começa. Tem chovido tanto. É bom poder escrever sem ser lida, sem ser encontrada. De novo a mágica acontece, e eu que jamais tenho algo realmente importante para dizer, parece que sei lá de onde, algo vem povoar minhas frases. Vem me fazer sonhar com ela: Lady Clara.

Que é no fim das contas o motivo de eu estar aqui.

De onde tirei isso?

Meu deus, a mágica acontece e não consigo parar de escrever. Meus dedos estão feito um trem em alta velocidade e não sei o que há do outro lado desta estação. Por isso escrevo. Vou esvaziando meu armário sempre tão cheio e sem saber o que escrever, caminho. A procura de Clara, perdida no fim desta caverna. Talvez lá onde o riacho corre. Longe do chafariz de Cheshire, ela que costumava conversar com Blossom e Acácia lá embaixo. Por onde andarão neste asilo que assim que a noite entra porta adentro começa a silenciar? Blossom, que me mostrou desenhos. Que escreve, sei lá, confissões. Que escreve para si mesma. Feito eu, Maria que escreve para si, na esperança de que ninguém leia este monte de merda que escrevo aqui.

Mas de novo me volta a mente a proposta de Sarah, que às vezes consegue me deixar atordoada, em sofrimento psíquico como se já não fosse o suficiente, e parece que nunca é suficiente, e odeio ela por causa disso – e então ela me diria que se a odeio essa tal de praga que o velho tarado foi espalhar na América está funcionando. Meu deus, essa maldita livre associação também faz parte de mágica. Eu tinha começado a falar na proposta de Sarah. Acho que ela quer mesmo que eu fale da minha não-história para os outros. A história que faço de tudo para que ninguém leia, mas que talvez – meu deus, Sarah realmente me contaminou com suas loucuras – meu inconsciente desgarrado queira que seja lida.

Se odeio mesmo Sarah, talvez não seja ódio. Talvez seja sim, mas disfarçado de dor. Porque dói se não escrevo. Se fico tempo sem olhar para esta historiazinha da qual fujo sempre que posso.

Vi mentalmente Lara, magrinha, novinha. A titia que deu pro papai, titia bobinha talvez, jovem, cheia de vida, que poderia ter cuidado de Clara, pelo menos não ter se divertido com o cunhado no réveillon, ele que não bebia há dez anos. E ele, maldito seja, pensou que o champanhe que escorria pelos peitos de Lara era mais importante que as lágrimas que escorriam pelos olhos de Maria, internada no hospital em plena noite de réveillon.

Maria, a mãe.

Mamãe linda.

Mamãe triste.

Mamãe abandonada.

Feito a filha, triste, abandonada. Esquecidas.

O que aconteceu com Jonas? Ele sempre foi assim, esquisito, quietão, falava coisas sem sentido, olhava para o nada, via coisas? Ele era como o cara do Rain Man? Ou o cara de Uma Mente Brilhante? Jonas Michel, pensei de novo.

Então me canso de escrever. O armário está um pouco mais leve. Não sei onde estão minhas irmãs-zumbis deste asilo. Dormem, passeiam, namoram escondido por aí? Lembrei da pequena Daf e sua novidade. Será que ela vai trazer pinturas novas? E penso em Cris, neste começo de madrugada. Talvez ela, que me disse, meio dormindo, meio acordada, que me ama, também faça parte, assim como a escrita, das coisas que não consigo mais viver longe por muito tempo.

De alguma forma que ainda não entendo, a cada madrugada, chego mais perto de Clara. Não sei explicar, mas é como se eu sentisse a sua presença. Não sei se em espírito, porque como às vezes cogito que esta história termina em um incêndio e talvez todos morram no fim, não sei se ela morreu.

Como morreu, porra? É só uma história que estou inventando. Só uma historiazinha.

E de onde estou tirando ela, pareço ouvir a voz sem-vergonha de Sarah me perguntando.

Nesses momentos não é dor: odeio mesmo ela.

Então suspiro.

De onde estou tirando esta história?

O abismo se aproxima de novo. O trem segue rumo ao desconhecido. Entro em um túnel dentro de uma rocha gigante. Sinto o brownie com cheiro de infância, vejo as sapatilhas de Lady Ballet, o caderninho de Blossom. A risada de Cheshire, ela que também gosta de chuvas e trovões. O trem segue, curando. Sarando. Afinal, Sarah sara. O trem que não me deixa em paz que talvez me conduza a um lugar melhor. Mesmo com medo, eu, Maria Medrosa, sigo conduzida por este trem.
Então sorrio.

O trem rumo a próxima estação, do outro lado desta rocha sem fim, o fim do túnel.

Lá onde me esperam Clara e Maria, a mãe.

00:31

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Piano Para Pequena Clara – Dia 184


Quinta-feira, 1 de outubro de 2015

23:03

− Nossa estrutura tem marquinhas como em um cristal, disse Sarah.

Era outra de suas explanações em nossa pequena sala de aula. Pelo menos aquele dia me pareceu pequena e – não posso deixar de registrar que pensei isto – aconchegante. De novo ela voltava a citar o velho tarado, o messias dela, e acrescentou: − Se a estrutura for frágil, ela pode ruir.

Tive uma vontade de chorar, mas foi só um segundo, tipo um sopro, um cochicho, um espirro de melancolia, e imaginei tudo isso que me rodeia ruindo, como teias de aranha ou cacos de um vaso que se quebrou e não pode ser consertado, um castelo de cartas talvez esperando esse sopro do qual falei.

Estou cansada. Nem sei por que decidi escrever nesta merda de novo.

Não sei. Não gosto de escrever. Não gosto porque dói.

Mas também não consigo parar.

Acho que as provocações de Sarah são apenas para eu começar a escrever. Porque ela sabe que não vou parar depois de colocar a primeira letra, a primeira palavra, as frases que vão sendo vomitadas de dentro de mim.

De dentro de mim.

Onde está a resposta.

Malditos psicanalistas. Sarah conseguiu me infectar.

Então ela disse na aula que estava pensando em fazer uma feira das artes, um salão do sonho. Isso depois de ela dizer que essas pessoas que escrevem vivem permanentemente em dois mundos, e por “essas pessoas”, suponho, ela se referiu a mim, porque me olhou de soslaio quando disse isso, e citou aquele Winnicott, do sou-eu-mas-não-sou-eu, e falou em um tal de espaço transicional, que para os artistas é matéria, mas também é sonho.

Um sonho bom, pensei. Um sonho sem dor.

Meu deus, sem dor.

Então ela falou nesse salão que ela talvez faça e cada uma de nós tinha que aparecer com algo que soubesse fazer bem. Qualquer coisa. Mesmo que fosse um sonho.

Lady Ballet disse que poderia tentar dançar. Uma dança, por que não?

Lady Brownie disse que faria seus brownies. Com cheiro de infância, lembrei.

Dafne disse que poderia pintar. Que inclusive tinha pinturas novas. E uma novidade.

Blossom disse que poderia citar um pensamento. Uma citação de Nietzche.

A Garota Cheshire disse que traria ela mesma.

E riu.

Minhas irmãs de asilo foram conversando e suas vozes foram ficando distantes, e já nem sei se aquela sala era pequena, embora me tenha parecido naquele momento, e elas foram para o corredor, e não vi mais nada, fui apenas caindo dentro de mim.

Será que Sarah espera que eu fale da minha história para uma plateia?

Se eu não estivesse tão cansada, talvez me arrepiasse. Talvez chorasse.

Então, mesmo cansada, me arrepio.

Talvez sorrisse.

Talvez cantasse.

Que bom que pelo menos isto que estou escrevendo agora ninguém vai ler.

Não sei, acho que nunca soube, o que sentir.

Penso no pátio lá embaixo. Escuro. Deserto. Se Cris estivesse por aqui, talvez fugíssemos para um passeio. Talvez, não sei.

Mostrar minha história? Que nem é uma história, não é nada, mostrar esta merda?

Mostrar Claudius, aquele filho da puta miserável? Lara, aquela vadia?

Mas então temos Jonas, que talvez fosse um bom irmão, mesmo – tenho pensado nisso – ele também vivendo dentro de seu mundo, e talvez só lá. Temos Marcos, que defendeu Clara, quando Claudius quis que ela bebesse, e ele bebeu em seu lugar. Temos a pequena Clara.

Minha menina linda.

E temos Maria.

A mãe.

Não sei se suficientemente boa, e não quero pensar nisso agora.

Temos Maria.

Maria como eu.

Minhas meninas.

E talvez elas mereçam uma outra chance de voltarem a vida.

Voltarem? É só uma historinha que inventei.

Mas estamos sempre em dois mundos, Sarah, você tem razão. Maria, a mãe, precisa viver, nem que seja em minha historinha. Clara precisa viver.

E com ela, eu também.

Meu deus, eu também.

23:31