quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Tema de Casa


Sem fôlego, César corre para dentro de casa. Atropelando todos os objetos em seu caminho e quase despencando pela escada, ele entra em seu quarto. Vai em direção de Mike, sentado na beirada da cama e o abraça. As lágrimas descem quentes pelo rosto de César, tatuando a alma. “Desculpe, desculpe”, apertou forte Mike contra o peito. Choro desesperado, de tremer o corpo todo. De faltar voz, de enlouquecer alguém. Choro — até quase desmaiar. “Desculpe”, implorou mais de mil vezes.

Ao chegar na escola, César avista Joana no corredor. Eles se cumprimentam, ela sorri para ele. Joana olha carinhosa para César e ele lembra do filme que nunca viu. Olhos de serpente. Ele sorri de volta. César a pega pela mão de forma suave, convidando. Joana não entende e recusa. “Vem, eu quero te mostrar uma coisa”, insiste ele. Educado, como sempre foi, como sempre exigiram que ele fosse. “Quero que tu veja uma coisa”, diz ele. “Que coisa?”, pergunta aos sorrisos. “Vem”, insiste César, conduzindo Joana pelo corredor até a porta do banheiro masculino, adentrando. Serena, Joana pergunta a César o que ele queria que ela visse. “Olha para a parede”, diz ele. Joana fica de costas para César, que lhe dá uma forte joelhada no pulmão direito, produzindo um ruído seco. A garota quase desaba sobre o chão. César a agarra pela camiseta, esmurrando seu rosto até ela se curvar, cuspindo sangue. Ele então agarra a cabeça da colega fortemente pelos cabelos e bate com ela repetidas vezes contra o concreto, quebrando o nariz de Joana, abrindo seu supercílio e um talho em seus carnudos lábios. César vira o corpo da garota, jogando-o violentamente para dentro do boxe. O barulho das costas dela tentando vencer a parede demonstram que algo foi quebrado – um alicerce ou uma costela. Com o impacto, o sangue do rosto dela espirra na parede, decorando o branco opaco de vermelho. César estrangula Joana sobre o vaso sanitário, olhando em seus olhos. Olhos de vidro nos olhos de serpente. Ele emite um grunhido, sem alterar sua expressão facial. E solta o corpo. Joana está morta, espalhada sobre as fezes de alguém que não quis dar a descarga. César sai caminhando do banheiro, atravessa o pátio e dirige-se até o portão da escola. Só então começa a correr.

Com a porta do quarto chaveada às suas costas, ele olha direto para a prateleira. Ao avistar o pequeno Mike, César avança. Passos rápidos de gigante dentro da criança que já não era mais. Passa desapercebido da cabeça de tigrinho branco de pelúcia sem corpo, jogada aos pés da cama, e bate violentamente no rosto de Mike, virando e agarrando a cabeça, batendo incessantemente com ela contra o armário. O corpo cai no chão. César aperta o pescoço de Mike com toda a força.

César entra em casa sem falar com ninguém. Durante o almoço, olha fixo para o prato, o qual esvazia muito rapidamente, se levantando da mesa em seguida. A mãe pede para ele ajudar a tirar os pratos, pois ela não pode fazer tudo sozinha. César pergunta se ela pensa que ele é um inútil e começa a xingá-la. Ela começa a chorar. Ele se tranca no quarto.

Na hora do intervalo, Joana está perto do quadro-negro perguntando para César, sentado na primeira classe, em que circo ele trabalhava, referindo-se à roupa listrada que o garoto vestia. Metade da turma gargalha. “Mas eu gosto”, ele diz, quase se desculpando. Mais gargalhadas. Ele fica sério. As piadas proliferam ao redor de seus ouvidos. Ele começa a rir. Sem graça.

Ele ergue a cabeça em direção ao canto do quarto, contemplando a sua vítima de todas as semanas, e completa em sua agenda: “hoje eu dei a centésima surra em Mike.”

César está cabisbaixo. “Eu queria poder me enterrar nesse concreto”, sussurra ele para o melhor amigo Francis, que ri cínico e diz a ele com firmeza que foi muito bem feito a namorada tê-lo traído e abandonado, pois ele tinha sido avisado. César vira o rosto em direção a Francis, tremendo as mãos. Dentes trincados. Respira fundo e conta uma, duas, dez vezes. “E não adianta me olhar com essa cara”, avisa Francis. César volta a encarar o chão.

No dia de seu aniversário, César encontra seu pai, quase um ano após a última vez em que se viram. Ganha um orangotango de pelúcia. O pai diz que sente muito não poderem se falar mais seguidamente e que vai fazer de tudo para reverter essa situação. Uma mulher o chama, ele se despede apressado. César nada diz e também se retira, após observar seu pai ir embora com a namorada. Põe-se a caminhar pela calçada, abraçando vez ou outra seu presente. Batiza-o de Mike.

Às vésperas de completar dois meses de terapia, o psicólogo finalmente ouve a voz de César. Ele conta uma história confusa, fala mal de seus amigos. O relógio marca cinco horas. César se despede do psicólogo com um forte aperto de mão e dirige-se a até o ônibus que o levaria para casa. Ao chegar, sorridente e falando alto, encontra sua mãe na cozinha e diz que mal pode esperar até a próxima semana, naquele mesmo dia. A mãe olha terna para o menino e acaricia seu pequeno rosto. Diz que seu pai ganhou a liminar que reduz a pensão e que seu tratamento com o psicólogo seria interrompido.

Na escola, cada vez mais afastado dos amigos. Em casa, cada vez mais quieto, sobretudo nas manhãs seguintes ao acordar de uma madrugada de discussões familiares. Reuniões no colégio, bilhetes frequentes denunciando sua constante falta de atenção nas aulas. Seu pai acusa César de estar se drogando. Reprovação no final do ano. Seus pais se separam.

Com raiva, com muita raiva, ele percorre as paredes de seu quarto com os olhos. Acaba parando no tigrinho branco em frente aos livros. Caminha até a outra extremidade do quarto e começa a espancar o boneco.

César tem sua atenção desviada ao ouvir um dos meninos do outro lado do campinho de futebol gritar seu nome e não percebe o vizinho que segura seu calção e o abaixa até os joelhos, trazendo consigo as cuecas.  Todas as meninas sentadas no banco apontam para ele.

É Natal. Na casa da Tia Elaine, os adultos conversam perto da lareira. Dois casais com taça de vinho se encontram esparramados sobre o sofá da sala. Às duas horas da madrugada, quatro horas após o horário normal do toque de recolher, César é a única criança acordada. Caminha pela casa, ziguezagueando os parentes a sua volta, trazendo consigo o tigrinho branco de pelúcia recém ganho, até que puxa seu pai pela mão, interrompendo a conversa com suas tias, apontando para uma senhora no canto da sala, dizendo que ela era uma velha muito feia. Constrangido e irritado, seu pai o puxa pelo braço, dizendo que os meninos educados têm que ser discretos.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cony, Corridas, Preparação e Mozart

Você acredita em inspiração e intuição?
Em intuição, sim; inspiração, não. A intuição é o sexto sentido, é que nos indica que estamos no caminho certo quando duvidamos de nós mesmos, nos dá confiança. A intuição existe. Sou intuitivo, acho que todo mundo tem uma dose maior ou menor de intuição. Sou um intuitivo mediano. Mas não acredito em inspiração de jeito nenhum.
Mas, quando a coisa não avança, você credita esse fato a quê?
À preguiça. Não sou mais jovem e já tenho uma estrada percorrida que dá uma certa fadiga. Não espero nada da inspiração. Não há inspiração. Por exemplo, para escrever as crônicas para a Folha de S. Paulo, sento ao computador, escrevo o cabeçalho, endereço ao editor e entro na crônica propriamente dita. Essa crônica é publicada na segunda página, junto com outras duas. Uma vem de São Paulo, a outra de Brasília e a minha, do Rio. Quando acabo de escrever o cabeçalho, paro e penso: e agora? E tem o tempo para entregar. Às vezes solto uma palavra sem mais nem menos, e assim uma palavra acaba puxando a outra e nasce a crônica.

Carlos Heitor Cony, em entrevista.

Descobri este duo de sax tenores muito fera chamado Sketchbook, de Dave O’Higgins e Eric Alexander, e também hoje ouvi sobre preparação, pode ser para as situações da vida, mas também vale para buscar a excelência de sua arte, seja ela qual for. Também tenho pensado no romancista e maratonista Haruki Murakami, que em seu belo Do que falo quando eu falo de corrida disse “as três principais qualidades que um romancista deve ter são: talento, concentração e perseverança”. Li hoje um trecho da vida de Mozart, que abandonou os brinquedos tão logo descobriu o que era música, ainda no começo da infância, e se pôs a trabalhar sem parar. Talento a natureza dá para alguns, mas concentração, foco e perseverança, tem que garimpar, e isso muitas vezes significa quebrar as pedras da preguiça e da procrastinação, assim como dizer não às outras milhares de distrações, diariamente, em um trabalho que deve ser de colocar um tijolinho todo dia, a fim de construir nosso sonhado muro, e na verdade esse muro não tem fim. O tempo para literatura aqui no escritório da Distant Thunders Co. anda cada vez mais escasso, e a única forma de combater isso é fazendo o possível, desde que o possível seja feito agora.
Sente e escreva. Agora. E depois continue escrevendo.
Faça o mesmo amanhã.
E depois de amanhã.
E então, sente e escreva. Leia, leia e leia um pouco mais. Agora.
Meu deus, como é difícil escrever.
Não ouça o canto das sereias, disse meu bom amigo e fotógrafo de mão cheia René Cabrales.
Sim, vou continuar tentando.
 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Jazz Message #2

Coloco Hank Mobley para tirar a ferrugem da escrita e me fazer sonhar que o frio já voltou, afinal estamos na cidade em que acontecem as quatro estações do ano no mesmo dia. Se quiser conseguir o que os outros não conseguiram, terá que fazer o que os outros não fizeram, alguém disse (essas ideias são mais aprofundadas aqui neste texto in english). Falaram em determinação, em não perder horas na internet em vez de simplesmente escrever. Pensei em mandar o um pouco eterno livro para o concurso do Sesc, depois que soube que E o Vento Levou foi recusado 38 vezes (aliás, descobri 10 livros famosos que foram recusados, e várias vezes). Novas revoluções se aproximam, enquanto vou tateando o texto. Escrever é como tocar um instrumento musical, precisa praticar, senão a coisa vai para o espaço. E ler, é claro. Tenho que retomar as leituras. Foco.

Talvez um café italiano para dar um clima na friday night. Talvez o jazz. Talvez, quem sabe, agora.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Fast changes antes da Funarte


Terminaram hoje as inscrições para a Bolsa Biblioteca Nacional/Funarte de Criação Literária, para onde já tinha mandado o projeto para a elaboração e conclusão da história de Carol semana passada, o mesmo que está agora sobre a Caixa da Perseverança, uma caixa de papelão preta escrita Specially for you, que abriga algumas cartas de recusa de alguns outros textos, e que agora é o abrigo da semente da já citada história de Carol, em meio ao São Jerônimo, sua pena escrevendo sobre o livro e seus leões, um anjo russo, um anjo querubim lendo um livro, o anjo Eiael e um Ganeshi, sobre a autobiografia de Eric Sykes, comprada em um brechó em Camden Town, como um monumento aos London Times, um lembrete que me incentivasse a continuar escrevendo, cujo título resume tudo: If I don’t write, nobody else will.
Em rápida conversa com Mr. Marcelo Martins hoje, ele disse: tem que escrever, tem que atualizar o blog. Mesmo que jamais comentem – vou insistir nisso, e daí? –, o contador mostra que tem gente de diferentes lugares que lê este blog, diariamente. Mas o caso é que pensei em pensar na história de Carol, e não esperar apenas pelos resultados da bolsa para continuar trabalhando, mas deu um medinho: vai que eu descubra algum erro no projeto a essa altura do campeonato, e seja contaminado pela sombra?
Então, acho que a programação para a sexta de noite vai ser colocar a leitura em dia, e tomar um chimas, longe dos perigos do mundo, são e salvo para incubar literatura. Para depois nascer, se alimentar e produzir. Enfim. Melhor do que saber o que vai acontecer entre Nina e Carminha hoje, não? Me despeço com as palavras de Seal, encartadas em seu segundo cd, e que ficaram anos em minha cabeça:
So if ever you feel you can't go on, rest assured that you are not alone and that fast changes are arriving.
Para celebrar novos começos, fast changes are arriving.

sábado, 4 de agosto de 2012

Pretend the dream is true


When I'm dreaming
And I find myself awake without a warning
And I rub my eyes and fantasize
And all at once I realize
It's morning, and my fantasy is fading
Like a distant star at dawn
My dearest dream is gone
I often think there's just one thing to do
Pretend the dream is true
And tell myself that you are there.

Lindo, não? Fala de amor, mas pode ser sobre seguir sua vocação (já que estamos no mês das vocações). O caso é que na tarde silenciosa de hoje descobri esta música linda, e também um blog de alguém que, aparentemente, sumiu na internet sem deixar vestígios, mas que disse simplesmente:

O escritor de verdade tem necessidade de escrever, uma necessidade que vem da alma, e não um simples desejo. O escritor de alma não escreve pelo dinheiro, fama, reconhecimento, escreve antes de tudo para se sentir vivo. (...) Escrevo porque nos dias em que escrevo, eu me sinto viva, eu vejo um motivo para estar aqui nesta terra. Eu escrevo porque escrever me enche de vida, renova minhas forças! Eu me sinto plena, me sinto alguém! Nos dias em que não escrevo, fico em tempo de ter um treco! Bate logo uma tristeza profunda e só tenho vontade de dormir (pra esquecer a tristeza)!

Para mim, isso é poesia pura.

E é mais ou menos isso que penso sobre o que significa ser escritor.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Projeto, Releitura, Impasse & Tolstoi

Depois de ter quebrado a cabeça na madrugada passada, e quebrar mais um pouco na tarde de inverno de hoje, tentando redigir objetivos e justificativas para o projeto da bolsa para tentar elaborar, concluir e colocar no mapa a história de Carol, neste blog errante de muitos acessos e poucos comentários, no intervalo para o chimarrão, deixo algumas dicas culturais. Não do que está acontecendo na cidade, que para isso temos outros blogs mais informativos, mas do que está acontecendo no escritório da Distant Thunders Administration no momento.

Em um dos mandamentos do Vizinczey, ali na resenha do post abaixo, ele falava para reler nossos livros favoritos continuamente, a fim de estudá-los e realmente compreendê-los. Pois que depois de dez anos comecei a reler meu clássico O Impasse. Li quando era adolescente, achei maravilhoso, e em 2002 li de novo, com a certeza de a narrativa ser mesmo muito boa. Vejo que com o passar dos anos minha admiração pelo texto não diminuiu. Também está na lista das releituras outro clássico, desta vez de Tolstoi, também lido há dez anos. Esta semana chega o Do que eu falo quando falo de corrida, e resolvi também reler Veríssimo, que também descobri em fins da adolescência, e foi a voz que me mostrou que a literatura podia ser cool.

Mas se você acessa este blog em busca de links de jazz, aqui vão as duas trilhas (por enquanto) desta segunda metade do ano, primeiro Chet Baker, e depois Cannonball Adderley, ao vivo em Nova York.

A cuia ronca, hora de retomar o trabalho.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Verdade e Mentiras na Literatura: Os Dez Mandamentos do Escritor

(Alguns dos) DEZ MANDAMENTOS DO ESCRITOR

1. Não beberás, não fumarás, nem usarás drogas

Para ser escritor, você precisa de toda massa cinzenta de que dispõe.

2. Não terás hábitos dispendiosos

Um escritor nasce do talento e do tempo – tempo para observar, estudar, pensar. Assim, você não pode se dar ao luxo de gastar uma única hora ganhando dinheiro para coisas supérfluas. (...) É preciso decidir sobre o que é mais importante, escrever bem ou viver bem. Não se atormente com ambições contraditórias.

3. Sonharás e escreverás, sonharás e reescreverás

Não deixe que ninguém lhe diga que está perdendo tempo olhando para o espaço vazio. Não existe outro modo de conceber um mundo imaginário.

4. Não serás vaidoso

A maioria dos livros ruins ficou assim porque seus autores tentaram justificar a si mesmos (...) Se você acha que é racional, sábio, bom, uma dádiva para o sexo oposto, uma vítima das circunstâncias, então é porque não se conhece o bastante para escrever.

5. Não serás modesto

A modéstia é uma desculpa para a preguiça, o desleixo, a autopiedade. Pequenas ambições evocam pequenos esforços. Nunca conheci um bom escritor que não estivesse tentando ser um grande autor.

6. Pensarás constantemente naqueles que são realmente grandes

“As obras do gênio são regadas com suas lágrimas”, escreveu Balzac, em As Ilusões Perdidas. Rejeição, escárnio, pobreza, fracasso, a luta constante contra as próprias limitações – esses são os principais acontecimentos na vida da maioria dos grandes artistas, e se você aspira a compartilhar com eles o destino deve se fortalecer aprendendo com eles.

8. Não adorarás Londres / Nova York / Paris

Frequentemente encontro escritores vindos de lugares remotos que acreditam que as pessoas que vivem nas capitais da mídia têm alguma informação especial sobre arte que eles mesmos não possuem (...) O provinciano é muitas vezes uma pessoa inteligente e talentosa, que acaba seguindo a opinião de algum jornalista ou acadêmico falastrão sobre o que constitui a excelência literária e trai seu talento (...) Mesmo que você more onde o vento faz a curva, não existe motivo para se sentir por fora. Se tiver uma boa biblioteca com brochuras de grandes autores e se os ler constantemente, você terá acesso a mais segredos sobre a literatura do que toda a mistificação cultural que dá o tom nas grandes cidades.


Os trechos acima são do livro Verdade e Mentiras na Literatura: Os Dez Mandamentos do Escritor (Ed. Autores Associados, 2011, 512 pgs.) de Stephen Vizinczey. A primeira vez que ouvi falar sobre os Mandamentos foi no começo de maio de 2007, quando estava perambulando por uma das lojinhas de Bariloche e encontrei um trecho deles em um livro chamado El Taller Del Escritor. Encontrei outros trechos dos Mandamentos na internet, em espanhol. Gostei tanto do texto que fiz uma citação no romance em que estou trabalhando, no capítulo inicial, quando o protagonista entra em uma livraria e vê um banner com “Os Dez Mandamentos do Escritor”, de Stephen Vizinczey, e já tinha publicado eles na versão antiga deste blog. Mas foi só neste ano, quando catei o blog de Vizinczey na internet e escrevi para ele, que ele em pessoa me disse que o livro tinha sido lançado no Brasil no ano passado, e que adoraria que eu descobrisse o livro em meu blog.

Vizinczey, que se considera menos um escritor do que um reescritor, trabalha constantemente seus textos. O livro é uma coletânea de resenhas e ensaios, escritos entre 1986 e 2010, encabeçados por seus perspicazes mandamentos, fluindo através de sua escrita precisa e sua imensa cultura histórica e artística, ainda mais se considerarmos que muitos deles foram escritos na época anterior a internet. Desde o Primeiro Mandamento, ele já deixa claro que a criação literária tem quase nada a ver com festas e noites de badalação, e sim com trabalho duro, perseverança e foco. Incita ao estudo e releitura constante dos clássicos, e o contato diário com a palavra. Para ele, ser escritor é como se dedicar à excelência em um instrumento musical: um dia sem praticar e a coisa vai embora. Tendo estudado na adolescência para ser maestro, aprendeu desde cedo o valor da disciplina e da constância. “Não deixarás passar um dia sem reler algo grandioso”, diz o Sétimo Mandamento. O estudo constante, diário, das obras-primas. O que faz a grandeza dos livros essenciais? Qual a sua estrutura, quais os mecanismos de suas vozes narrativas, como seus climas foram construídos? Vizinczey dá a dica: é preciso ler um bom livro pelo menos cinco vezes para realmente entendê-lo.

No Segundo Mandamento, ele nos conta que depois do fim da derrota da Revolução Húngara, foi para o Canadá sabendo apenas 50 palavras em inglês, e quando se deu conta de que era um escritor sem uma língua subiu até o topo de um edifício alto em Montreal com a intenção de saltar, mas perante o medo da morte, e mais ainda de ficar paralítico, decidiu em vez disso se tornar um escritor em língua inglesa. Foi aprendendo mais do idioma escrevendo roteiros, depois fundando uma revista literária e trabalhando na rádio como escritor e produtor. Pediu demissão e pagou do próprio bolso a publicação de seu primeiro livro (sem contar as três peças banidas anteriormente pelo regime comunista na Hungria), In Praise of Older Women, que foi a primeira e única novela com a publicação paga pelo próprio autor a atingir a lista dos best-sellers do Canadá. Vizinczey também fala sobre o poder destrutivo da crítica, o poder de vida e morte sobre quem deve ser lido e quem deve permanecer no ostracismo, dizendo que é preciso ter coragem moral para dizer que achou um lixo o que todos adoram, e louvar as qualidades de um texto que todos falam mal. É preciso ter coragem para pensar por si mesmo, para assumir suas escolhas. Como quando criticou o livro de William Styron que ganhou o Pullitzer, Confessions of Nat Turner, dizendo que é tão absurdamente equivocado sobre a natureza humana e a escravidão, sendo tão impensável um negro olhar para os senhores escravocratas como (mesmo que só alguns) sendo pessoas decentes quanto um judeu pensando o mesmo dos oficiais nazistas. E graças a esse texto ácido, a imprensa evitou resenhar ou mesmo comentar seu An Innocent Millionaire, que fez sucesso por mais de duas décadas em várias línguas, e quando o respeitado editor Lewis H. Lapham quis resenhar o livro em sua coluna no The Wall Street Journal foi vetado. E porque ele insistiu, foi demitido.

Também estão presentes na coletânea os dois trechos de Vizinczey, citados pela escritora madrilena Rosa Montero em seu A Louca da Casa:

Há dois tipos básicos de literatura. Um ajuda você a entender, o outro ajuda a esquecer; o primeiro ajuda você a ser uma pessoa livre e um cidadão livre; o outro ajuda as pessoas a manipular você. Um é como astronomia; o outro é como a astrologia.

E falando da diferença entre Stendhal e a maioria da ficção de outros autores (e que bem poderia ser a diferença entre o autor maduro e o escritor jovem); ele fala sobre nós mesmos quando está concentrado em si mesmo, ao passo que os outros escrevem sobre si mesmos até quando estão falando sobre outras pessoas.

Em Louvor das Mulheres Maduras e O Milionário Inocente estão fora de catálogo aqui no Brasil, mas este Verdade e Mentiras na Literatura é um belo panorama para conhecer o texto e as ideias de Vizinczey. E para quem quiser saber mais da editora, pelo Twitter ou Facebook:

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